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Segunda-feira, Setembro 27, 2021

A SBPC está alerta contra o negacionismo e sequelas da pandemia

Eleito presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Renato Janine Ribeiro se diz preocupado com posturas anticientíficas e as sequelas psicológicas da pandemia, e quer arregimentar o meio acadêmico em defesa das “conquistas civilizatórias”.

Na última terça-feira, 22 de junho, o filósofo Renato Janine Ribeiro, de 71 anos, foi eleito presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que possui 165 entidades afiliadas e uma trajetória septuagenária em defesa do conhecimento científico e da educação no país. Na nova diretoria da entidade, sete dos nove integrantes são mulheres. Para as vice-presidências da SBPC, foram eleitos a socióloga Fernanda Sobral e o físico Paulo Artaxo. Todos tomarão posse em 23 de julho, durante a reunião anual da SBPC, que terá como tema “Todas as Ciências são Humanas e Essenciais à Sociedade”.

Renato Janine Ribeiro, que sucederá o físico Ildeu de Castro Moreira, é professor de ética e filosofia política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, foi ministro da Educação em 2015, na gestão da presidente Dilma Rousseff, membro da diretoria do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), nos anos 1990, e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), nos anos 2000. Na eleição para a SBPC, recebeu 1.205 dos 1.914 votos, vencendo o neurocientista Carlos Alexandre Netto, em uma eleição que contou com a adesão de 60% dos sócios da entidade, a maior desde 2009.

Um dos intelectuais brasileiros mais respeitados da atualidade, o docente costuma ter livre trânsito no meio acadêmico e ser requisitado para falar de seus principais temas de pesquisa por um público diverso, que vai dos mais engajados estudantes de universidades públicas aos fóruns de empresários que apostam na educação corporativa. Nesta conversa, no dia seguinte à sua eleição para a presidência da SBPC, Janine Ribeiro mostrou-se extremamente aberto ao diálogo e consciente do grande desafio de representar a comunidade científica pelos próximos dois anos, em um momento em que os investimentos públicos para ciência, tecnologia e educação foram drasticamente reduzidos.

Desde a eleição do geógrafo Aziz Ab’Saber (1993-1995) que um pesquisador da área de ciências humanas não era eleito para presidir a SBPC.

Nem tinha atinado que fazia tanto tempo que não havia ninguém de humanas (na presidência). É bom lembrar que a próxima reunião anual, agora em julho, portanto preparada pela gestão anterior, tem como tema “todas as ciências são humanas”. No sentido de que todas as ciências falam do ser humano, têm a ver com humanidade.

Assim que saiu o resultado da eleição, o senhor falou que é “hora de unir todo mundo”. O que considera prioritário para a ciência neste momento?

Apesar de haver vários candidatos para cada cargo (na SBPC), não creio que houvesse grandes diferenças entre as plataformas, os projetos e os ideais dos candidatos. Todos queremos a retomada de seis ou sete pontos a que a SBPC se dedica. Apesar do nome falar do “progresso da ciência”, ela obviamente também se interessa pela educação, pela cultura, tanto que a revista da sociedade se chama “Ciência e Cultura”, pela tecnologia, que é uma aplicação da ciência, pela saúde e pelo meio ambiente –você não pode mais falar de saúde sem pensar em meio ambiente– e, finalmente, pela inclusão social. Um dos grandes desafios que a gente vai ter agora é não só o de lutar em defesa de todas as causas, porque estão todas sendo alvejadas pela política do atual governo, mas também mostrar que todas essas questões são a semente de um mundo melhor.

A gente pode notar, pela retomada da atividade econômica na China e mesmo nos Estados Unidos, que países que enfrentaram, com muita solidez, a pandemia são países que conseguiram se desenvolver economicamente ou retomar a economia mais rapidamente do que países que não fizeram isso. Nesse sentido, temos que deixar sempre muito claro esse papel da ciência para desenvolver a própria economia. E sem sustentabilidade, por exemplo, você não tem desenvolvimento econômico.

Lembro quando às vezes os representantes da ditadura chegavam a convidar países estrangeiros a trazer suas fábricas poluentes para o Brasil dizendo “queremos poluição porque poluição é desenvolvimento”. Isso é um equívoco, infelizmente ainda cometido por várias pessoas que têm posições até importantes, mas que continuam cometendo esse equívoco de pensar que existe um conflito entre economia e saúde, entre economia e direitos humanos, entre economia e meio ambiente. Muito ao contrário. Nos últimos anos, há um esforço dos países desenvolvidos para tentar reduzir emissões de carbono, descarbonizar a economia inclusive, garantir que o meio ambiente seja preservado.

É essa política que o Brasil tem que tomar. Eu penso que a SBPC é uma de várias sociedades que têm o papel importante a desempenhar em relação a isso, associada à Academia Brasileira de Ciências, à CNBB, à OAB, órgãos que são voltados ou para os direitos humanos ou para o bem comum.

Por falar na época da ditadura militar (1964-1985), no início da reabertura política, a SBPC teve um papel relevante, como na reunião anual de 1977. O senhor enxerga alguma semelhança daquela atuação com o papel da entidade hoje, no sentido da defesa de alguns valores interligados com a ciência e com a educação?

Há pontos próximos e pontos diferentes. Estávamos em uma ditadura militar, na qual muitas liberdades estavam suspensas. Hoje as liberdades individuais estão presentes, o próprio governo, a gente goste ou não, saiu de uma eleição. Aqueles governos da época não tinham legitimidade nenhuma e tinham meios jurídicos de exceção. Por outro lado, o governo atual tem mais vozes falando em favor dele do que havia no tempo dos militares. Você tem hoje uma parte da população, que pode ter diminuído… Lembro que foram apenas seis mil motocicletas na última manifestação em favor do Presidente da República, bem menos do que as pessoas que estavam (protestando) na Avenida Paulista no último sábado (19 de junho). Mesmo assim, ainda você tem um discurso favorável a pautas autoritárias que no final do regime militar estava diminuindo. A comparação é muito difícil de ser feita porque temos hoje um governo que contesta várias conquistas civilizatórias e naquela época não tínhamos estas conquistas civilizatórias. Mas, por outro lado, nós tínhamos um movimento bastante forte em defesa dessas conquistas, que uniu a sociedade. Os anos finais do regime militar, pode parecer estranho isso que vou dizer, foram anos de muito otimismo. Havia a convicção que tudo ia melhorar muito. Não foi desse jeito que as coisas se passaram. Tivemos momentos bons e momentos ruins. Mas a gente não pode ignorar que naquele tempo havia uma esperança no país.

Ao falar da reabertura democrática, é impossível não lembrar do papel da imprensa. Recentemente, o senhor assinou na Folha de S.Paulo um artigo em que afirma que falta àquele veículo uma certa contundência nas críticas ao governo federal. Como está vendo o papel da imprensa, principalmente nos últimos cinco anos?

É uma pergunta complicada porque junta muita coisa. Nesse período, vamos dizer de cinco ou seis anos para cá, caiu muito a vendagem dos jornais. Essa crise econômica da imprensa, pelo menos do jornal impresso, é significativa. Você tem muita gente passando a se informar pela internet, não mais pelos jornais, que não têm mais a importância que tiveram 20 ou 30 anos atrás. Ou mesmo cinco anos atrás. Houve uma redução, em parte fruto da crise do negócio, vamos dizer assim. Agora, há também um outro problema: a nossa imprensa, em grau variado, comprou muito a narrativa do Sergio Moro. Essa narrativa, desde a Vaza Jato, está desmoronando. Então, isso deixou um problema sério. Os três grandes jornais brasileiros têm atitudes diferentes em relação a isso. A Folha participou da Vaza Jato, junto com o Intercept… Todos os três grandes jornais preservam, em alguma medida, a política econômica do governo, mesmo que achem que está sendo mal conduzida. Agora, na parte política, você tem O Globo e a Folha mais críticos do governo, e o Estadão mais comedido: quando critica o governo, sempre critica também o PT junto mantendo a narrativa do Sergio Moro. Esta situação toda que eu estou desenhando diminuiu um pouco a contundência da imprensa contra o governo.

Professor, o senhor usa muito as redes sociais para se comunicar, analisar fatos. Por onde se informa hoje em dia?

Leio todo dia quatro ou cinco jornais. Sou assinante da Folha, do Estadão, do Globo, do Le Monde e do New York Times. Desses jornais, aquele que leio menos é o New York Times. Os outros jornais eu abro todo dia. Então, eu me informo muito através deles. Também algumas informações que vêm pelo próprio Facebook, postagens que vêm do jornalismo dito alternativo. Veja por exemplo a frase do Ciro Gomes de que não vota em bandido. Repercutiu mais na mídia alternativa do que na grande imprensa. A grande imprensa não deu tanto peso a esta frase. Então, você tem que se informar por várias fontes.

Ciro se referia a quem?

Pois é. Independentemente de certa ou errada, e eu acho que é errada porque não tem como chamar o Fernando Haddad de “bandido”, é uma besteira, uma frase infeliz. É uma coisa que politicamente não devia ter sido dita.

Mas isso vai ao encontro do que move as redes sociais, que é o chamado discurso da lacração. Como vê esta questão?

Penso que o diálogo ficou muito difícil no Brasil, por várias razões. Neste momento, o mais difícil é o lado que assumiu a causa das “fake news”, o lado que acredita na cloroquina, que nega a ciência. Para nós, do mundo acadêmico, você está falando pela Unesp, é muito preocupante. Antes, estávamos em uma situação em que PT e PSDB estavam brigando. Hoje é uma outra situação. Continua o mal-estar muito forte entre PT e PSDB, mas hoje o problema é mais grave porque é um problema de gente que nega os fatos. Na verdade, isso já começou um pouco quando o Aécio Neves negou o resultado da eleição (de 2014)… Quando o Aécio fez isso, colocou em risco uma coisa básica, que é o fato: Dilma teve mais votos que ele. Outra coisa são as interpretações. Ela teve os votos por que fez uma campanha mentirosa? Mais mentirosa que a dele, por hipótese? Ela prometeu coisas que não cumpriu? Qual político é melhor? Aí você pode discutir… Mas o problema que a gente tem desde que o Aécio contestou o resultado da votação é a contestação dos próprios fatos. Isso eu acho muito preocupante.

Se uma pessoa diz que não concorda com determinada interpretação, você pode discutir. Mas se uma pessoa nega, por exemplo, o número de mortos por Covid, é muito complicado. Como é a defesa da cloroquina e da ivermectina contra a Covid mesmo com os próprios fabricantes negando que o remédio sirva para o combate à doença. Esse é o ponto a que nós chegamos.

O PT e o PSDB, que antes polarizavam a cena política, sempre disputaram a preferência do meio acadêmico…

Há também muita gente apartidária. Na verdade, o que se pode dizer é que no mundo acadêmico, quando as pessoas têm posição política, é uma posição vinculada a pautas civilizadas. Isso quando as pessoas têm posição política, nem todas têm. Você pode ser mais de direita, mais de esquerda, mas são pautas civilizadas. Isso garantiu ao Brasil durante 20 anos um equilíbrio social importante, de 1994 a 2014, de uma democracia funcional em que você tinha disputas às vezes ácidas, mas você tinha valores que eram respeitados dos dois lados, inclusive as regras do jogo. Quando uma parte da população perde a confiança na verdade, não se pauta mais pela verdade, mas pela opinião, é muito complicado. A gente entra nesse ponto crítico.

Quando o senhor foi ministro, em 2015, havia o lema da “Pátria Educadora”, embora você tenha lidado com cortes grandes no orçamento para 2016. Por que a educação ficou tão em segundo plano no país?

Vários fatores. No caso do governo Dilma, o Brasil entrou em uma crise em que ele não tinha dinheiro para continuar as políticas sociais iniciadas nos governos anteriores. Não foi de boa vontade que o governo cortou dinheiro da educação ou de outras áreas. Mas, de lá para cá, você tem outras políticas. Por exemplo, o Plano Nacional de Educação. Ele foi votado e sancionado em 2014, eu fui o primeiro titular da pasta a realmente começar a encaminhar o plano, com a BNCC, a Base Nacional Comum Curricular. Agora, havia muitas medidas que dependiam de dinheiro e não havia dinheiro para isso. O Plano Nacional de Educação não foi revogado, mas você não vê esforço na direção dele. No governo Temer, completaram a base curricular, mas não fizeram muita coisa além disso. Um ponto importante do plano de educação era a valorização dos salários dos professores. Havia um ponto em que se constatava que um professor que faz quatro, cinco anos de graduação universitária ganhava na época uma média de 72% da renda média de outras pessoas que tinham a mesma escolaridade. Para tornar a profissão mais atrativa, era importante subir em termos reais o salário dos professores da rede pública e não se falou mais disso. Lá não falava do professor universitário, mas no meu caso, que sou professor universitário, não tem aumento na USP há uns cinco anos. Bolsistas de Capes e CNPq, além de bolsas estarem sendo cortadas, também não têm aumento faz tempo.

Para finalizar, na sua avaliação, qual será o maior desafio a ser encarado no pós-pandemia?

O maior desafio vai ser recompor as fraturas afetivas causadas por ela. As pessoas estão engolindo em seco faz um ano e meio o medo tremendo da morte e, mesmo no caso de quem sobrevive, de uma doença que deixa sequelas às vezes muito graves. São muitos os relatos de quem perdeu o olfato, de quem perdeu o paladar, de pessoas cuja vida perdeu muito do seu valor. E esse é o assunto menos discutido que existe. Quando eu vejo discutindo a volta às aulas, discutem como vai ser dada a matéria que faltou… Eu digo desde que começou a pandemia, isso muito antes de eu ser candidato à presidência da SBPC, que a primeira coisa a se fazer na sala de aula ou no escritório quando voltar é colocar todo mundo para conversar sobre o que aconteceu, sobre o que vivenciou. Depois disso, você recompõe o currículo, entrega as mercadorias que estão faltando, retoma a cadeia de produção. A primeira coisa é dar voz a todas as pessoas. Infelizmente, isso não está sendo feito e, a meu ver, traz um problema muito grande: vozes vão ficar silenciadas e pessoas vão engolir todo esse sofrimento sem conseguirem passar por cima.

Vamos ter um drama psicológico bastante duradouro com isso tudo. Acho que essa é a questão: as pessoas terem liberdade, terem espaço de colocarem os seus sentimentos. Isso não está sendo considerado. Vejo gente discutindo como vai completar o currículo, como vai retomar o PIB, é claro que isso tudo tem que acontecer, mas se você não enfrentar os dramas psicológicos vamos ter uma sociedade de sequelados nos próximos anos.


por Fabio Mazzitelli, Do Jornal da Unesp | Texto em português do Brasil

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