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Domingo, Dezembro 5, 2021

Abraçar com os olhos Eduardo Galeano

Nestes dias em que, contraditoriamente, os abraços poderiam fazer-nos dano; estamos nos lembrando daquele autor que lhes dedicou um livro e, se isso não bastasse, mostrou-nos com a firmeza de sua palavra, a necessidade de que esse gesto meigo se convertesse em arma solidária para banir do planeta o rosto de um capitalismo que asfixia e mata.

Nestes dias em que, contraditoriamente, os abraços poderiam fazer-nos dano; estamos nos lembrando daquele autor que lhes dedicou um livro e, se isso não bastasse, mostrou-nos com a firmeza de sua palavra, a necessidade de que esse gesto meigo se convertesse em arma solidária para banir do planeta o rosto de um capitalismo que asfixia e mata.

Se — como é bem sabido — lembrar é um convite a voltar passar pelo coração, retornemos hoje àquele que, a partir de sua caneta efusiva e profunda, nos ensinou simples formas de querer-nos; aquele que, embora ainda esteja vivendo entre nós, faz cinco anos empreendeu a viagem definitiva.

Não existe livro dele que, após ter sido lido, não haja ninguém que não tenha saído solidamente comprometido com o bando justo do mundo. Ler Eduardo Galeano nos junta com os «João-ninguém», provoca-nos batimentos que enaltecem a condição humana. Tanto faz se lermos Las venas abiertas de América Latina — escrito com apenas 30 anos — com verdades tão contundentes que, se bem contribuiu para abrir «espaços de liberdade», foi proibido pelos ditadores do sul do continente.

Tanto faz se o escutamos com sua voz testemunhal em Días y noches de amor y de guerra, onde as verdades descritas abalam a paz imperturbável daqueles que não se envolvem; ou se a aproximação é à obra Patas arriba, la escuela del mundo al revés, publicada por volta do ano 2000, onde se eternizam, a partir da escrita, realidades envergonhantes que fazem abalar os mais céticos e reforçam as consciências.

Se bem perante estas e outras não citadas obras de Galeano, o leitor não apenas sucumbe, mas se prontifica e define, seduzido pela narração histórica, a afluência de dados, a anedota que acaba em aparentes simplezas, ou as curiosidades que exaltam, o convite destas linhas hoje é para reencontrarmo-nos com Espejos, una historia casi universal, o livro de mais de 400 páginas que lançou em sua última visita à Casa das Américas, instituição que galardoou o dito livro com o Prêmio de narrativa José María Arguedas, em 2011.

Na Casa, Galeano leu na época, vários dos mais de 600 relatos que conformam este livro singular, onde desfilam atores principais e secundários desse grande «romance» que pinta a civilização humana, quase cronologicamente, desde sua gênese até os nossos dias.

A partir das primeiras páginas, umas perguntas nos pedem refletir: não teremos sido capazes de sobreviver, quando sobreviver era impossível, porque soubemos defender-nos juntos e partilhar a comida? Esta humanidade de agora, esta civilização do salve-se quem puder e do cada um no seu teria durado algo mais do que um tempinho no mundo. Como pudemos?

Muito avançada a leitura, quando já não é possível se afastar dos textos, o capítulo Humanitos, faz-nos envergonhar:

(…) Já não sabemos se somos obras perfeitas de Deus ou piadas péssimas do Diabo. Nós, os humanitos:
os exterminadores de todo,
os caçadores do próximo,
os criadores da bomba atômica, a bomba de hidrogênio e a bomba de nêutrons, que é a mais saudável de todas, porque liquida as pessoas, mas deixa intatas as coisas,
os únicos animais que inventam máquinas,
os únicos que vivem ao serviço das máquinas que inventam,
os únicos que engolem sua casa,
os únicos que poluem a água que lhes dá de beber e a terra que lhes dá de comer,
os únicos capazes de se alugar ou de se vender ou de vender seus semelhantes,
os únicos que matam por prazer,
os únicos que torturam,
os únicos que violam.
E também os únicos que riem,
os únicos que sonham acordados,
os que fazem seda da baba da lagarta,
os que convertem o lixo em beleza,
os que descobrem cores que o arco-íris não conhece,
os que dão novas músicas às vozes do mundo,
e criam palavras para que não sejam mudas,
a realidade nem sua memória.

Para revisitar o autor dos abraços, aquele que apostou na esperança e na perpétua batalha, nunca melhor do que agora, quando o medo coletivo e o desafio pela luz da vida nos exigem que os novos capítulos da história tenham, para a humanidade toda, um final menos aterrador.


por Madeleine Sautié, Granma


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