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Quarta-feira, Fevereiro 8, 2023

O angustiante silêncio colonial

João Vasco AlmeidaA guerra deve orgulhar muito pouco quem a faz. O que se trouxe de bom, de África, não deve contentar um rapaz que estava sossegado em Monforte e levou com a cartinha das sortes. Meses depois tinha acácias-rubras e imbondeiros à frente, uma arma na mão e ordem para dar a vida e incendiar aldeias.

A vida privada dos nossos veteranos de guerra é ainda mais desconhecida do que a vida militar. Os historiadores e repórteres andaram anos atrás das grandes batalhas, das conquistas, dos heroísmos bacocos numa guerra que teve mau princípio e nunca fim. A direita estúpida diz que a guerra podia ser ganha. Para esta gente o que aconteceu em Angola, Moçambique e Guiné é, provavelmente, justo. Mas estão pornograficamente enganados. A Guerra Colonial não se vence, porque nunca se triunfaria num confronto injusto. Todos perderam, como a História acabou por demonstrar. Ainda agora esse bacoquismo aí anda.

Importa por isso saber da vida privada, que tanto maculou quer os territórios que foram palco da guerra, quer Portugal. Como eram os costumes, de que falavam os nossos homens e mulheres, como se comportavam perante o preconceito, o medo, a destruição dos valores intrínsecos que levavam, baseados na revelha tradição de deus, pátria e família?

Há quem conte que chegados a umas cubatas mal habitadas, os militares já desgastados da mata encontravam umas morenas e se deitavam com elas. Nesses dias um ou outro cabo ou furriel fugia de agarrar as mulheres. Logo ali se descobria que ou era homossexual, ou racista ou preconceituoso. Raramente o “não” neste cenário era entendido, compreendido, como hoje o veríamos. Estávamos no fundo da selva, no meio do nada, a milhares de quilómetros de casa em plenos anos sessenta. Homem que era homem dava uma cambalhota com a miúda, para aliviar. O que não dava, era homem que não era homem. Isso perturbaria imediatamente a sua relação com o resto da matilha, ou do batalhão.

Embarque_tropas_para_angola_2Apenas um entre milhares de exemplos. Sobre o que conversariam os nossos militares? Quantos filhos e filhas, sem saber, há hoje em Angola, Moçambique e Guiné, feitos numa noite fugidia? Quando se descobriram órfãos de pai, quantos foram à procura do progenitor? Como era Luanda no denouement das comissões? Em que Costa dos Murmúrios choraram os nossos bravos militares?

E, depois, no regresso, vinham todos, mas muito diferentes. Sustenta meu pai que “foram milhares para África e nenhum regressou”. “Regressaram outros, éramos outros, não os que foram”. O que isto fez à vida pessoal, familiar e parental está ainda por estudar a fundo.

Em breve, os nossos mais novos militares coloniais terão setenta anos. Pode ser que, por fim, desejem começar a contar aquilo que, até hoje, não contaram. A sua vida privada, embora pessoal e talvez sem orgulhos de maior, podia ajudar várias gerações a compreender o que é a guerra e sedimentar a paz na cultura portuguesa.

Tirando os falsos heróis, tirando um ou outro preconceito entendível, ainda não se viu nenhum ex-combatente a bater no peito e a dizer “eu estive em África e matei dezenas de turras”.

Está na hora de os ouvir dizer “eu estive em África e apaixonei-me, tive medo e descobri, à noite, em conversa com os prisioneiros que guardava, a melhor receita de frango. E tive vergonha de o dizer, senão olhavam para mim como traidor de uma coisa tão velha e estúpida como a própria guerra”.

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