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Quarta-feira, Dezembro 8, 2021

As desvantagens de viver no musseque

Onélio Santiago, em Luanda
Bacharel em Ensino da Língua Portuguesa pelo Instituto Superior de Ciências da Educação de Luanda, é jornalista do semanário angolano Nova Gazeta.

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Ainda assim, há mambos que acontecem nos musseques que, defactamente, contado, ninguém acredita. Por exemplo, quando bazo num condomínio ou numa destas centralidades que estão a bater, noto que os vizinhos raramente se caxicam na casa dos outros por causa dum jogo de futebol.

Já nos musseques, se tens uma parabólica e pagas sempre aqueles ‘pacotes’ de mais de oito paus, estás paiado! O teu cubico fica já tipo a ‘casa da mãe Joana’. Qualquer buluzento que está a passar na rua, mesmo que nunca lhe deste confiança, basta ouvir os gritos de alguém a festejar um golo, vem já também “quem marcou?”, “quem marcou?”.

E o mais agravante é que há casos em que os vizinhos, só porque te viram crescer, acham já que podem dar ordens no teu cubico. Por exemplo, uma vez, um gajo estava a ver um documentário sobre o ateísmo e três kotas da banda apareceram para ver Girabola. “Ó miúdo, mete jogo, mete jogo!”, enquanto um dizia isso, os outros dois davam-me palmadas nas costas. Aceitei só já.

Mas o caso mais irritante aconteceu no mês passado, quando houve aqueles jogos de qualificação para o ‘Mundial da Rússia’. Um vizinho, mais ou menos da minha idade, avisou os meus putos para não dormirem cedo, pois Brasil jogaria contra a Argentina de madrugada. Combinaram então, sem eu saber, que o vizinho bazaria no cubico às 23 horas e lá ficaria até o jogo começar. Quando cheguei à casa, vindo das bumbas, os putos já estavam a dormir. Uma hora depois, ouvi batimentos no portão. Soube logo de quem se tratava, mas lhe marquei barra. Fiquei tipo nada. “Vais rir”, pensei silenciosa e malandramente.

Depois de um tempo, os batimentos começaram a vir da porta da varanda. Fui lá espreitar e vi o tal vizinho com o lençol dele nas mãos. O gajo tinha pulado o muro. Gritei com ele e até lhe queixei no tio dele, mas o gajo não desiste de ver jogos no meu cubico. E ainda por cima não somos da mesma equipa!

Como já vos conheço bem, deixo aqui um aviso: no Domingo, haverá futebol, mas ninguém vai só no meu cubico: vou esconder o cartão da parabólica.

O autor escreve em PT Angola

Nota do Director

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