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Terça-feira, Setembro 28, 2021

As ilhas gregas em disputa

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Aquilo que faz a união das miopias europeias é, no entanto, a República Islâmica do Irão que ninguém parece ver como aquilo que realmente é, a potência expansionista com uma aliança mais profunda com a China e com maior capacidade para causar danos no continente europeu.

  1. Quando se esquecem os princípios

A ilha de Megisti (Castel Rosso em italiano) emergiu nestes últimos meses como o ponto focal das ambições imperiais turcas no Mediterrâneo. Localizada perto da costa turca e apenas integrando a Grécia moderna desde 1948, ela está no centro de uma área que à luz da legislação internacional integra a Zona Económica Exclusiva grega e se interpõe na proclamada zona marítima turco-líbia.

De forma cada vez mais aberta, as autoridades turcas declaram que não reconhecem o direito internacional e ameaçam ocupar esta e outras ilhas que considerem importantes para si. Aqui, convém relembrar que a ocupação do Mar do Sul da China pelas autoridades chinesas em total desrespeito do direito internacional, sem que a ocupação fosse sancionada por quem quer que fosse, criou um precedente propício a esta situação, e que é incompreensível que a OTAN permita que um dos seus membros ameace abertamente outro de agressão em virtude de um qualquer diferendo territorial. Trata-se de casos típicos de oportunismo e falta de rigor na defesa da paz que se pagam sempre com juros.

Mas para além do desmazelo com que o Ocidente tratou de dois princípios basilares de qualquer ordem internacional, a ameaça eminente da invasão de território da União Europeia é fruto de uma ausência estratégica ocidental de longa duração, particularmente aguda no que se convencionou denominar de ‘Primavera Árabe’.

A Primavera Árabe foi um genuíno movimento de revolta das populações contra os regimes autoritários ou mesmo despóticos que dominam o mundo árabe. O movimento deixou relativamente intocadas as monarquias que, se revelaram menos impopulares e ditatoriais que os vários regimes republicanos, e foi violentamente reprimido nos países sob a esfera imperial teocrática. Isto foi especialmente assim na Síria, mas também foi e continua a ser verdade no Iraque, no Iémen ou no Líbano.

Nos países onde a contestação foi mais forte – Tunísia, Líbia, Egipto ou Síria – o Ocidente ou não teve posição ou, pior ainda, apoiou a Irmandade Muçulmana. A Tunísia ou o Egipto escaparam ao controlo jihadista por conta própria e a Líbia continua hoje a sofrer as consequências do oportunismo e cegueira ocidentais.

O Irão mobilizou uma vasta força de mercenários oriundos, tanto dos quatro países árabes que domina, como das populações xiitas dos seus dois vizinhos da Ásia do Sul, o Paquistão e o Afeganistão, sem sofrer qualquer sanção por isso.

A ilusão europeia de que se pode escapar a conflitos desenvolvidos à sua porta foi primeiro destruída pelos milhões de refugiados de guerra. Perante a instabilidade causada e a incapacidade de reagir de forma racional, passou-se depois ao pagamento aos Estados fronteiriços para serem eles a reter os refugiados, independentemente dos meios usados para isso. Isso, naturalmente, levou esses Estados, e em primeiro lugar a Turquia, a fazer dos refugiados uma arma de arremesso, conduzindo-os em massa às fronteiras europeias onde foram recebidos com total desumanidade.

Na Síria, onde os dois poderes imperiais jihadistas se confrontaram, o resultado desta ausência ocidental foi a limpeza étnica, uma onda maciça de refugiados, a destruição da sociedade civil e a instrumentalização de uma parte da população árabe sunita como mercenária nas aventuras imperiais turcas.

O exército mercenário turco – cujo modelo é o dos Guardas Islâmicos Revolucionários comandados por Teerão – está agora envolvido na guerra líbia para impor um poder jihadista que ameaçará directamente as costas europeias e que animará toda a Jihad que se desenvolve em África em confronto com as forças ocidentais – fundamentalmente francesas – que a procuram conter.

 

  1. Miopia política

À ausência de princípios junta-se a miopia política. De todos os absurdos alimentados pela análise política ocidental, merece atenção especial o de aceitar acriticamente o discurso fanático islâmico, Assente na fábula da ‘Islamofobia’, segundo a qual existiria uma aversão à religião islâmica espalhada pelo mundo e que o fanatismo religioso seria uma reacção a essa aversão.

A China seria desse ponto de vista um caso extremo levando essa islamofobia a uma política de genocídio contra a população muçulmana. Na verdade, assistimos a um brutal endurecimento da política comunista chinesa em relação às suas minorias turcófonas (que são também muçulmanas) que cai no domínio do genocídio, mas não é nada de substancialmente diferente do que está a ser feito com outras minorias do país, como sejam a tibetana, a mongol ou mesmo a manchu. Essa mesma China pretensamente ‘islamofóbica’ coopera com a República Islâmica do Irão na doutrinação islamista de jovens chineses nos seminários da cidade de Qom.

Ou seja, na verdade não há qualquer islamofobia, há o esmagamento da identidade de todos os povos não etnicamente chineses e a cooperação com o fanatismo islâmico quando isso se revela politicamente frutuoso, como é o caso da cooperação sino-iraniana.

E se isto é assim na principal parceria estratégica chinesa estabelecida com o Irão, o mesmo se passa com outros poderes islamistas, como a Turquia ou o Paquistão. A Turquia persegue os refugiados do Turquestão Oriental no seu país e entrega-os à China, da mesma forma que o Paquistão – que pretende ser o guardião dos direitos dos muçulmanos na região – coopera totalmente com a China no esmagamento da minoria muçulmana do Turquestão Oriental.

A ideologia islamista é um instrumento político de qualquer desses países, não é um fim em si; se for necessário para a consecução dos objectivos políticos do Irão, da Turquia ou do Paquistão cooperar no esmagamento de populações muçulmanas – como é o caso do Turquestão Oriental na China – eles fá-lo-ão sem hesitações, como a prática está a demonstrar amplamente.

Para lá da ‘Islamofobia’ há também a crença de que é possível de forma estratégica apostar nas divergências entre os vários inimigos da democracia. Na Síria, o Ocidente viu assim a aliança entre a Rússia e a teocracia iraniana opor-se ao jihadismo promovido pela Turquia, e retirou daí a ilação, errada, do irredentismo da oposição destes seus inimigos.

Acontece que na Líbia, o Irão apoia explicitamente os corpos expedicionários turcos (formados nomeadamente pelos mesmos sírios que o Irão expulsou da sua terra), enquanto a Rússia, que formalmente apoia os opositores à Turquia, não parece demasiadamente incomodada com a sua derrota líbia desde que possa consolidar o seu poder na Síria e que a Líbia se possa converter num foco de instabilidade ocidental.

Da mesma forma, a Rússia animou o reacender de uma guerra de posições no Cáucaso entre a Arménia (alinhada com a Rússia) e o Azerbaijão (alinhado com a Turquia) mas nem por isso deixou de declarar que os ataques turcos a igrejas cristãs ortodoxas (de que o caso mais notório foi a Catedral de Santa Sofia) eram um assunto interno da Turquia.

A Batalha de Shipka Pass em Agosto de 1877, durante a Guerra Russo-Turca (1877-1878), de Alexey Popov

Ou seja, apostar na rivalidade russo-turca como garantia de segurança é um erro crasso, que não pode deixar de lembrar a aposta suicida na rivalidade Germano-soviética como forma de impedir a agressão hitleriana.

A realidade é que enquanto uma parte substancial da Europa – fundamentalmente a Alemanha, o Norte e o Leste da Europa – vêm como prioridade absoluta a agressão russa, outra parte, fundamentalmente o seu flanco Sul encimado pela França, vê no jihadismo turco a ameaça mais eminente, como se ambas as ameaças não se pudessem conjugar.

Aquilo que faz a união das miopias europeias é, no entanto, a República Islâmica do Irão que ninguém parece ver como aquilo que realmente é, a potência expansionista com uma aliança mais profunda com a China e com maior capacidade para causar danos no continente europeu.

A patética tentativa de ressurreição do acordo nuclear iraniano em parceria com a China e a Rússia – algo que não tem pés nem cabeça nem na letra nem no espírito – é o maior monumento à miopia europeia. Crer que o Irão verá nesse passo algo mais do que uma manifestação de fraqueza e um sinal verde para avançar a sua pressão no exterior é nada ter aprendido de quatro décadas de história das relações euro-iranianas.

 

  1. A fantasia da Europa que ameaça a Europa

Immanuel Wallerstein – historiador norte-americano falecido há um ano – celebrizou-se pela teorização que fez do seu Moderno Sistema Mundial, e nessa teorização, nada há de mais inovador e revolucionário do que a sua tese sobre a razão fundamental que levou a que fosse a Europa e não a China que abriu as portas a esse sistema.

Enquanto a China do século XV era um império, a Europa desse tempo era um conglomerado de nações rivais. Isso fez com que perante a pressão continental mongol o Império Chinês cancelasse a sua expansão marítima, enquanto na Europa, a queda de Constantinopla em nada obstou a que Portugal se lançasse nessa expansão, exactamente porque nenhuma estrutura imperial de dimensão europeia o impediu.

Numa frase, na visão de Wallerstein, a força da Europa do século XV foi a sua fragmentação política. Naturalmente que isto não é transponível ipsis verbis para os nossos tempos, mas independentemente das vantagens e desvantagens dessa fragmentação política, a realidade é que essa fragmentação persiste.

Immanuel Wallerstein

Os ataques e ameaças russos a Leste e Norte da Europa são vistos com distanciamento a Sul, da mesma forma que a crise mediterrânica é vista como algo distante nessas paragens. Estes são os factos no terreno que nenhum sistema de defesa pode ignorar. O problema da defesa europeia não é um problema de estruturas burocráticas integradas, de orçamentos, de línguas ou de ‘vontade política’, o problema é o de não ter uma base popular real.

A fantasia da ‘defesa europeia’ é por isso a principal ameaça à defesa da Europa. E é também por isso que a defesa da Europa não pode dispensar a aliança atlântica. A forma como essa aliança foi incapaz de lidar com a transformação da Turquia de país em transição democrática para autocracia em busca de um Império é a prova da imperiosa necessidade da sua renovação.

Afirmar que o comportamento turco é uma certidão de óbito para a defesa atlântica – como se porventura a União Europeia tivesse sido capaz de lidar melhor com esse comportamento – é uma cegueira total.

Que os Emiratos Árabes Unidos, o Egipto e Israel tenham saído em defesa da Grécia e de Chipre, lado a lado com a França, é sem dúvida algo de positivo; mas não entender que isso só foi possível graças ao empenho dos EUA e que essa construção desabaria como um castelo de cartas no momento em que os EUA a deixassem de apoiar, é nada perceber dos desafios que temos pela frente.


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