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Sexta-feira, Setembro 17, 2021

Educação “QUEER”

José Preto
Jurista.

A enunciação programática da pretendida “Educação para a Cidadania” é de uma vastidão absurda, como costuma ocorrer com os pretensiosismos.

Fica-se até surpreendido por ali não figurarem a didáctica dos regulamentos dos caminhos de ferro e a lei do protocolo de estado.

Pareceria importante – em geral falando – uma focagem escolar dos Direitos Humanos e, designadamente, daqueles cuja garantia constitui obrigação internacional do Estado Português.

Ao invés, vem a história do “discurso de ódio”, indefinido porque indefinível, onde se escoram já os pretextos futuros de todos os arbitrios contra a liberdade cidadã, na descoberta da expressão infamante que há-de “legitimar” ideologicamente a perseguição da liberdade pessoal de gostar ou não gostar, aceitar ou recusar, aderir ou repudiar, criticar, ou protestar.

Num estado como este, onde a liberdade de protesto e crítica deu já origem a dezenas de milhares de processos criminais por pretensa injúria – fenómeno que tenho designado por hecatombe e cujo balanço é urgente – num estado onde as condenações em Estrasburgo não são simplesmente respeitadas (não se fazem desaparecer os problemas que deram origem às condenações), num estado assim nunca seria lícito admitir que pudesse haver, logo na educação, uma ruptura com as suas práticas aberrantes. Elas vieram – e tardou bastante – procurar o controlo de mais este terreno.

E lá está o “discurso do ódio” a dizer que os novos comissários chegaram. Anuncia-se mesmo a coisa com as expressões “prevenção e combate”. Estranhas palavras para educadores.

Prevenção e combate definem todavia – e perfeitamente – as tarefas dos pais diante disto e de tal gente.

Em segundo lugar vem o problema da educação sexual e da educação para a saúde, onde talvez se pudesse fornecer o elenco das patologias induzidas por algumas práticas. Por exemplo, os números anuais do cancro do cólon-rectal, das fístulas anais, das comparências em urgências hospitalares com garrafas enfiadas no recto e os das demais disfunções, provocadas por práticas de inteligência análoga, a exigirem intervenção cirúrgica, seguidas das doenças infecciosas, da sífilis à sida, passando pelas hepatites e até pelas endocardites… Isso seria útil, claro, do ponto de vista prático. Duvido que as demais questões devam ou possam ser objecto da didáctica escolar (a não ser talvez em História das Mentalidades e na Literatura).

Mas o que eles querem, pelo que escreveram, é a obrigatoriedade programática de uma caricatura. Querem o macaquear das Filosofias da Existência pelos “queer people” onde projectam, falaciosamente, a velha conclusão em cujos termos um homem ou uma mulher se fazem e desfazem a si próprios todos os dias, o que evidentemente é verdade. Construímo-nos todos os dias. Mas não é verdade que a definição sexual esteja ao alcance das nossas decisões. As práticas estão ao alcance das nossas decisões. O género, não. Isso é definição genética e decorrência fisiológica dela.

É uma barbaridade – programaticamente assumida e formalizada – porem-se a dizer a pequeninos de seis anos que eles não são meninos ou meninas e que serão nessa matéria o que decidirem ser. Para mais examinando-os sobre isso, nessa e noutras idades, como “posição adoptada”. Era o que faltava.

Esta abominação repulsivíssima, tanto pelo que imediatamente representa, como pelo que futuramente propicia – justifica evidentemente a reacção mais veemente e o protesto popular mais extremado que, aliás, espero venha a ocorrer.

Mais? O estado não pode programar a educação alinhando-a com directrizes filosóficas, religiosas, estéticas ou político-ideológicas. E também não o pode fazer com caricaturas de quaisquer posições nesses domínios.

A colagem de Cavaco, Coelho e Clemente parece encomendada para enfraquecer o protesto e traduz obviamente um oportunismo execrando.

A semi-ideia a cuja luz isto seria uma conspiração do “marxismo cultural” serviria apenas para deixar a rir as pessoas de educação regular, impedindo-as de intervirem.

Esta pretensa ideia parece um complemento da presença de Clemente.

Note-se: o reconhecimento, como direito, a um menor, da possibilidade de efectivar a pretensa mudança de sexo (como se fosse possível mudar de sexo), sem qualquer intervenção protectora do pátrio-poder, não poderia deixar de saldar-se numa grande porta de saída para quem tem gerido essa outra grande catástrofe nacional que são os asilos religiosos de menores (porque não dizê-lo?) torturados. Também existem os outros asilos, bem sei. O país da casa pia não se deixa esquecer.

Há uma convergência objectiva de interesses entre os “sacerdotes” de sodoma e o “ps da casa pia”. E aparecendo o corifeu dos primeiros, mais a múmia e o catedrático da Ajuda, é evidente que tais presenças afastam os muitos outros que os não suportam e, por isso, tais presenças enfraquecem o protesto. Por outro lado, qualquer dos três ganhará sempre, qualquer que seja o desenlace e se isto lhes for permitido, quanto mais não seja retirando visibilidade à direcção que o protesto popular fará nascer e estes se imaginam no direito de cavalgar, ambicionando delirantemente – e quanto mais não seja – a mera imagem de serem eles “as principais figuras”. É gente sem nada para dar seja a que causa for. É importante notá-lo e não o esquecer.

O “marxismo cultural” – retomando o fio – é um disparate de propaganda dos arautos do evangelho (que se reconhecem por andarem vestidos de arlequim com botas de montar). Custa a acreditar – mesmo ponderando toda a desinformação – que as pessoas possam ir atrás disso. Mas têm ido. Então o Gramsci, pobre homem, passou a ser o diabo. Gramsci é apenas um homem brilhante. Com reflexões brilhantes. Digo é um homem brilhante, porque continua vivo no que escreveu, como todos os outros que continuamos a ler. E o problema dos “queer” – cuja influência o Ministro da Educação quis impor, suscitando o protesto social e político no plano da resistência ao abuso de poder – não tem nada a ver com ele. E nada a ver com Marx, embora possa relacionar-se com uma estratégia parva, que bebeu semi-ideias em gente que, há décadas, imaginou compagináveis os pressupostos da Psicalálise e os do Marxismo, pregando a correspondente mestiçagem. Coisa inviável, ao menos do ponto de vista dos fundadores de ambas as Escolas.

Mas para a oposição à pretendida aberração da educação “queer” não é preciso qualificar a posição filosófica de escola dos “queer”, se puder existir. Porque lhes basta serem “queer”. (E nunca precisaríamos de mais que isso). Essa oposição é para formular e conduzir sem quaisquer transigências. Levando-a ao extremo, sendo disso caso, como o exige o normal amor aos filhos e a defesa do futuro que há-de caber-lhes.

ET O que vemos na actuação em curso resulta nitidamente do abastardamento – claro abastardamento – de perspectivas críticas, em si mesmas muito interessantes, de homens muito interessantes, enunciando pró-vocações importantes. Não se pense que os olho com menosprezo. Três nomes são de referência obrigatória:

  • O primeiro – por razões de simpatia intelectual – será talvez Monsenhor Ivan Ilich, papista croata de origem judaica, que a igreja da colina vaticana não conseguiu manter em esquadria apesar dos esforços que fez – a focagem por Ilich da perversão como destino das organizações institucionais, é de uma genial lúcida e ímpar utilidade – esteve Ilich sedeado nos USA por muito tempo;
  • Marcuse, homem monumental, também de origem judaica, de pensamento explosivo mas de conhecimento imprescindível – o jovem Marx polariza parte importante da sua reflexão crítica – foi um analista de informações no organismo que precedeu a CIA, parecendo especialmente importante o tratamento que deu à tolerância, onde não exclui, como apontam os seus preocupados e honestos detractores, a queima de livros e a dissolução violenta de reuniões públicas (o que evidentemente deixou marcas no radicalismo europeu e norte-americano e há-de ser, como tem sido, um dos problemas que aqui teremos, porque repetidamente o temos tido… a crónica violação por organizações de esquerda radical – às vezes apenas na forma tentada – do direito alheio de reunião pacífica, está provavelmente aqui assente);
  • E Erich Fromm – de formação psicanalítica, mas em afastamento de Freud – para quem os problemas sexuais não são o motor da dinâmica psicológica, mas o efeito das condições sócio-económicas de vida. E destruída a pretendida universalidade do “complexo de Édipo”, Fromm estava pronto a fazer, como fez, a Psicanálise da Sociedade Contemporânea (nada menos que isso). A sua Psicologia centra-se na liberdade pessoal, focada no contexto da relação com o mundo. Para quem o queira estudar, sublinha-se o horizonte teológico no desenvolvimento de Fromm, uma vez que teve formação hassidica, com estudo intenso e marcante do Talmud e o tema sobre o qual produziu obra (a primeira obra se me não falha a memória) foi a expulsão do paraíso (o problema da liberdade, portanto). A liberdade é pois o primeiro tema com que se confronta e jamais abandonará, se bem o olho.

A estes três notáveis, misturam os “queer” uns pós de Lacan (congénere de Fromm, mas odiando simplificar o que não pode ser simples, complica até me fazer rir, embora isso expresse, naturalmente, a sua riquíssima e complexa prospecção intelectual) e umas páginas picadas de Sartre, levando tudo ao misturador do – bem patente – desarranjo mental, imediatamente obedecido pelos funcionários-médios do ensino, que papagueiam qualquer manual, ou mais exactamente qualquer coisa (seria hilariante se não fosse trágico) nos exactos termos em que os mandarem papaguear, reprimindo e desclassificando tudo o que não corresponda às exactas formulações enunciadas. O que em História Social e Política, por exemplo, dá azo a grandes complicações (porque há referências erradas nos manuais). É preciso focar não serem raras as criaturas que nada fizeram alguma vez na vida e começam pela autoria de um compêndio escolar… São os milagres do sistema nacional de ensino.


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