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Sábado, Dezembro 4, 2021

As “Knuas” e a importação de modelos para Timor-Leste

M. Azancot de Menezes
PhD em Educação / Universidade de Lisboa. Timor-Leste

A sociedade timorense obedecia a um tipo de organização baseada em tribos, ou melhor dizendo, em “Knuas”, regendo-se por tradições, usos e costumes. Após 22 anos da data do referendo, em 30 de Agosto de 1999, com a importação de modelos económicos e políticos, nomeadamente do ocidente, importa analisar em que medida está a acontecer a preservação da identidade cultural e o progresso socioeconómico em Timor-Leste.

A organização política e social de Timor-Leste remonta à época em que ocorreram as migrações no Pacífico. Segundo Luís Filipe Thomaz, a primeira vaga terá tido lugar há sete mil anos a.C. e a última na segunda metade do último milénio a.C., ora, independentemente de tudo se ter passado ou não neste horizonte temporal, há consenso generalizado no que diz respeito à existência de uma organização social e política ancestral em todo o território nacional.

Na opinião de Avelino Coelho da Silva, político timorense conhecido pelas suas posições intransigentes na defesa da preservação da identidade cultural do povo e do direito consuetudinário, problemática que abordou na sua tese de doutoramento em Direito Constitucional:

Cada Knua tinha a sua norma de convivência social e habitava uma certa área. Na Knua vigorava o conceito de propriedade colectiva e todos os membros da Knua tinham espaço para viver, trabalhar-produzir e passar o lazer.

(Avelino Coelho)

 

As relações sociais eram caracterizadas pelo respeito mútuo

A sociedade timorense, o seu povo, é consensual admitir, caracterizava-se pela organização em tribos/knuas, portanto, em consonância com o pensamento de Avelino Coelho, em Timor-Leste, já havia grandes avanços no domínio dos valores e da cultura, à excepção de avanços tecnológicos.

Casa sagrada (Uma Lulik) em Lospalos (Foto da autoria de M. Azancot de Menezes (2016))

No pensamento deste autor, e do povo maubere no seu todo, a casa “Lulik” tem um significado poderoso e magnânimo, com reflexos de enorme abrangência social, económica e política.

A nossa sociedade tem  a sua divindade (o seu matebian)  a quem professa a fé e da casa “Lulik” descem as regras de organização social, de convivência e de governação”.

(Avelino Coelho)

Como a sociedade timorense é de natureza colectiva, naturalmente, os meios de produção eram propriedade da Knua (em português: Cnua), na medida em que, apesar de cada um ter a sua horta ou várzea, era habitual o intercâmbio voluntário e recíproco de serviços de vária ordem e de recursos.

Efectivamente, como as relações sociais se caracterizavam pelo respeito mútuo, a questão da hierarquia familiar tinha (e tem) grande significado.

Apesar de haver hierarquia familiar, vigorava uma relação de harmonia entre os membros da Knua com o meio ambiente que o rodeava. Os trabalhos nas hortas, nas várzeas, na construção das casas individuais eram realizados de forma conjunta, a que se denominava por “troka liman”.

(Avelino Coelho)

Knuas versus modelos neoliberais

No âmbito de mais um aniversário sobre o referendo realizado em 30 de Agosto de 1999, passados 22 anos, tendo presente o significado histórico e social das “Knuas”, numa perspectiva de problematização, parece-me pertinente questionar:

Será que a destruição das Knuas (leia-se: modus vivendi), por substituição de modelos económicos, sociais e políticos, neoliberais, importados para Timor-Leste, contribuiu de forma significativa para o progresso social, cultural e económico do povo?

Se em Timor-Leste já havia valores como a solidariedade e o respeito mútuo, a significação da“Uma Lulik”, e a propriedade colectiva tinha reflexos directos nas relações sociais de produção, não será razoável aceitarmos que a sociedade organizada pelas “Knuas” já tinha modelos próprios de produção?

Nuno Cana Mendes, académico português que também reflectiu sobre a identidade cultural e social do povo timorense, ao referir-se à dimensão da “Uma Lulik”, na linha do que defende Avelino Coelho, alegava o seguinte:

“…casa –  a casa sagrada , como é designada  em Timor – é um conceito que, mais do que mera unidade familiar, simbólica e patrimonial, encerra uma cosmovisão dúplice, que confere  ao poder duas componentes que conformam o que se pode designar de oposição complementar dualista: uma sagrada/espiritual e a outra secular/política…”.

(Nuno Cana Mendes)

O processo de protecção do meio ambiente estava garantido pela “Uma Lulik” e pelo Lia Nain (o Senhor da palavra) porque,

os membros das Knuas ou de Knuas de uma mesma árvore genealógica obedeciam às regras impostas pelo Lia Nain, não porque tinham medo da repressão física, mas porque, conscientemente,  aceitavam as regras e sentiam ser parte responsável pelo equilíbrio ambiental e os seres vivos”.

(Avelino Coelho)

A dimensão cultural e os reflexos na sociedade, por exemplo, são muito visíveis no casamento (barlaque) que é regido por normas determinadas e que originam laços entre o casal e laços entre as famílias de tal dimensão que influenciam a realização social e económica e colectiva, totalmente incompatível com a importação de (estranhos) modelos económicos e sociais.

Assim, para reflexão de todos nós, principalmente quando se tem a pretensão de resolver problemas de ordem social, económica e política em Timor-Leste, atendendo a que o povo maubere estabeleceu há milhares de anos um mondus vivendi, com as “Knuas”, apesar de ter havido cruzamentos com outras civilizações e da necessidade de se produzirem mudanças e inovações, o processo associado ao desenvolvimento económico e social não deve passar pela importação de modelos alheios, pelo contrário, todo o processo, depois de analisado e discutido, deve ser adaptado ao contexto cultural e social existente, à realidade do país.

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