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Quinta-feira, Dezembro 9, 2021

As linhas tortas que escrevem a história em “O homem que copiava”

Carolina Maria Ruy, em São Paulo
Pesquisadora, coordenadora do Centro de Memória Sindical e jornalista do site Radio Peão Brasil. Escreveu o livro "O mundo do trabalho no cinema", editou o livro de fotos "Arte de Rua" e, em 2017, a revista sobre os 100 anos da Greve Geral de 1917

A dura realidade, as linhas tortas que escrevem a história e o inusitado final demonstram que a felicidade, quando “roubada”, não é a que vale.

Em O Homem que Copiava, André é operador de fotocopiadora em uma papelaria de Porto Alegre. Enquanto copia, ele lê fragmentos e coleciona palavras, frases e trechos dos mais diversos tipos e completamente desconexos. Logo no início do filme, André explica com sarcasmo, todos os mecanismos de seu trabalho, ou seja, como funciona a máquina de xerox.

A limitação de seu salário de R$ 290,00 (o salário mínimo, em 2002, era de R$ 200,00) fica demonstrada logo na primeira cena do filme, quando, no caixa de um supermercado, ele resolve o que vai e o que não vai levar.

Angustiado com suas limitações ele começa a xerocar notas de cinquenta reais. Trata-se de uma ironia sobre tirar algum benefício pessoal mesmo do mais alienante dos trabalhos.

Por trás da história de André e Sílvia apresentam-se muitos desafios que se colocam para a juventude: o emprego alienante, a carga de responsabilidades com a família, famílias desagregadas, separações, aliciamento, o convite ao tráfico de drogas e a possibilidade de perder os horizontes.

O filme mostra de maneira despretensiosa que o mundo do trabalho, na feroz sociedade do capital, costuma ser cruel com os jovens. Eles são obrigados a renunciar a seus anseios nesta fase de sonhos, aspirações e de ebulição hormonal, e se enquadrarem na “livre competição” que, com sorte, os enquadrará em algum tipo de trabalho.

Mas, mesmo em situações difíceis, a juventude tende a preservar uma dimensão lúdica e imaginativa da vida, o que muitas vezes leva a comportamentos inesperados e soluções criativas. A alegórica “reprodução de capital” de O Homem que Copiava é sua válvula de escape e passaporte para a vida. Mas isto não passa de fantasia.

A dura realidade, as linhas tortas que escrevem a história e o inusitado final demonstram que a felicidade, quando “roubada”, não é a que vale, mas que, por outro lado, a realização neste mundo não é impossível. Ela é um bem a ser conquistado.

O Homem que Copiava
Brasil, 2002

Direção: Jorge Furtado
Elenco: Lázaro Ramos, Leandra Leal, Luana Piovani, Paulo José e Pedro Cardoso


Texto em português do Brasil

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