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João de Sousa

Sábado, Setembro 18, 2021

Associação Cívica Democracia Solidária sobre o “Brexit”

No dia 25 de Junho, a Associação Cívica Democracia Solidária tornou pública a sua tomada de posição no que respeita o resultado do referendo no Reino Unido quanto à saída ou permanência da União Europeia.

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Transcrevemos, na íntegra o documento que nos foi enviado:

“Desde o Tratado de Maastricht que os directórios burocrático-políticos de Bruxelas tudo fizeram para impedir que a decisão democrática dos povos tivesse a mínima influência sobre as etapas daquilo a que se chamou «construção europeia». Não se podia correr o risco de esclarecer democraticamente os cidadãos e de os auscultar quanto a uma agenda política que, na verdade, lhes iria negar alguns dos seus direitos mais elementares. Em especial neste Sul da Europa, onde a abdicação da soberania monetária e orçamental foi feita à revelia de qualquer referendo e conduziu à erosão do frágil Estado Social que fomos construindo.

Tudo isso aconteceu porque muitos cidadãos, hipnotizados pela ideologia europeísta e globalista, foram consentindo na entrega da soberania nacional a uma cúpula de serventuários de interesses, em nome de uma cada vez maior união política destinada a anular por completo a capacidade de autodeterminação dos povos. Aliás, se há mensagem a reter da bárbara punição infligida à Grécia, é a de que o discurso europeísta de reinvenção da União Europeia constitui hoje a pior das ilusões.

A maioria dos britânicos recusou a permanência num espaço institucional que se tornou uma prisão dos povos e da democracia, e isso impõe-nos a tarefa de avaliar muito bem que oportunidades essa recusa abre a uma política genuinamente democrática.

Em primeiro lugar, há uma forma superficial de analisar o “Brexit”, centrando-se apenas nas motivações primárias que determinaram o voto de uma parte importante do eleitorado britânico. É verdade que o voto do abandono pode ter sido decidido por muitos cidadãos sob a influência de ansiedades e impulsos instrumentalizados pela direita. Mas isso revela, antes de mais, que o mal-estar vivido por largos sectores da sociedade, em particular o descontentamento face à União Europeia, foi ignorado pelos partidos da esquerda. Tivesse a esquerda a clarividência de romper com o europeísmo neoliberal e não seria a direita a erguer a bandeira dos direitos espezinhados das populações. Tivesse a esquerda reconhecido as tensões identitárias associadas ao aumento da imigração, e formulado as propostas que a complexidade das diferentes situações exige, e não teríamos hoje a extrema-direita a crescer à custa de um eleitorado que, em percentagem significativa, antes votava à esquerda.

Muitos cenários são agora formulados. Os catastrofistas apontam para o fim do mundo: fragmentação do Reino Unido em nações independentes (como se isso fosse, por si só, um mal), a tomada do poder em vários países da UE pela extrema-direita, o aumento da violência devido a tensões inter-identitárias. Como se estas não estivessem já presentes entre nós, como se as políticas da UE não tivessem contribuído para a generalização do emprego com baixíssimos salários e precariedade, o brutal crescimento do desemprego, em particular dos jovens, e a consolidação de desigualdades obscenas, como se a UE não tivesse pesadas responsabilidades nos conflitos que propiciam o negócio das máfias com refugiados e imigrantes.

Mas outros cenários são concebíveis. Um deles é o reconhecimento do fracasso da UEM, acompanhado da decisão de dissolver/reconverter as suas instituições a fim de recuperarmos a Europa das nações soberanas e democráticas – a fórmula institucional do capitalismo que permitiu construir diversos modelos de Estado-social –, e o relançamento de uma genuína cooperação multilateral em vários domínios. Sim, outra Europa é possível, mas primeiro é preciso enterrar a distopia do mercado e da moeda únicos, e o seu projecto de união política supranacional, a versão da ideologia neoliberal que hoje constitui a maior ameaça à paz na Europa e no mundo.

25 de Junho de 2016

A Direcção da DS”

Manifesto DS – Democracia Solidária, Associação de Dinamização Política

 

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