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João de Sousa

Sábado, Novembro 27, 2021

Bacurau, um filme que dá vontade de parar de ver

Bacurau tem muitas cenas que mereceriam ser destacadas pela ironia ou por lembrarem cenas de outros filmes de forma até divertida.

Vi Bacurau, o filme de Kleber Mendonça Filho, na “live” acontecida no YouTube e promovida pelo Telecine. Realmente, fiquei com a impressão de que não temos aí uma obra política – mas um filme feito para o mercado e utilizando a ironia como elemento principal de contextualização. Tudo isso com muita inteligência. O filme ganhou essa dimensão política por causa da atual situação brasileira de estarmos sujeitos a um governo inominavelmente burro.

Na verdade, Bacurau tem uma estrutura inteligente, mas não tem profundidade. Começa com um ritmo e termina com o mesmo ritmo. Mas todo o trecho entre essas duas pontas cai de ritmo – o ritmo é solto e os atores se perdem enquanto movimentação de representação. O que tem expressão correta nesse trecho é somente o trabalho do ator Udo Kier, enquanto os demais parecem mal dirigidos. Dá vontade de parar de ver. A própria estória perde significado – e isso porque os personagens são colocados como meros “bandidos”, que parecem estar se divertindo.

Se olharmos esse filme como mero produto de “mercado”, poderemos, inclusive, nos divertir. Mas dizer que é um filme político é bobagem. Na sessão promovida pelo Telecine, no final teve uma sequência hilária: a última cena acontece e a tela fica totalmente no escuro, mas com diálogos ainda sendo pronunciados e termina com a música. Enquanto isso, o Telecine vendeu o escuro para que a Samsung colocasse o nome durante os cinco minutos do final. É realmente uma maldade para quem pensava estar assistindo a um filme de dimensão política.

Bacurau tem muitas cenas que mereceriam ser destacadas pela ironia ou por lembrarem cenas de outros filmes de forma até divertida. Destaco apenas a cena final em que os habitantes de Bacurau saem de um esconderijo e isso lembra o que acontecia no Vietnã, durante a guerra, quando os vietnamitas faziam isso: eles se escondiam em um buraco e saiam lançando bombas e destruindo os americanos.


por Celso Marconi, Crítico de cinema mais longevo em atividade no Brasil. Referência para os estudantes do Recife na ditadura e para o cinema Super-8  |   Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 

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