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Terça-feira, Maio 24, 2022

O Banco Mau-Mau Maria

João Vasco AlmeidaO Governo quer criar um banco “mau” para lá pôr as dívidas todas que a banca não consegue cobrar aos clientes. A ideia é juntar todas as dívidas num só banco e, nesse momento, a banca comercial livra-se desse crédito malparado. A seguir, quem paga somos nós, eu e tu. Pagamos porque o Estado assume aquelas dívidas, que tentará depois revender nos mercados às instituições financeiras que ganham dinheiro a revender a dívida.

Fatiemos.

1 – A ideia de que há bancos “bons” é de coça-barriga. Tirando o BPI, que veio dizer estoicamente que não quer isso do banco mau a não ser que ganhe dinheiro com a esmola, os outros estão caladinhos à espera que o Estado os livre de buracos e buracos. Por má gestão e facilidade de crédito a empresas e pessoas que, sem tusto, levavam milhões para comprar carros de luxo e férias em Varadero, os verdadeiros bancos maus encostam-se agora ao Estado de joelho em terra.

2 – A concessão de crédito é responsabilidade dos bancos. Não do Estado. O princípio da reciprocidade não funciona. A banca é um dos sectores de negócio que paga menos impostos e mais ajudas tem da República. Nenhum cidadão é tão ajudado, nenhuma PME tem tanta cobertura como os bancos têm. Isto desresponsabiliza a gestão bancária, que anda espampanante de mão dada com os piores defeitos da sociedade capitalista que permite a concentração de riqueza.

antoniocosta3 – A banca tem, segundo o Banco de Portugal, 17.984 milhões de euros em crédito malparado. Mais os 12 mil milhões que já foi emprestado, somado dá 30 mil milhões de euros entregues nos últimos cinco anos. Somamos 4,9 mil milhões de euros no Novo Banco, mais 2,2 mil milhões no Banif e 5,2 mil milhões no BPN às ajudas dadas e estamos com 42.3 mil milhões de euros.

4 – O valor é metade do Orçamento de Estado anual. Nada, nem a Segurança Social ou a Saúde, a Educação ou a Polícia custaram tanto aos portugueses. São os impostos que pagam este desmando, com dinheiro emprestado ao Estado a juros elevados e que somos todos que pagamos.

5 – O problema está na desregulação absoluta do mercado financeiro. Com a suspeita de um alçapão na Caixa Geral de Depósitos e da periclitante situação do Montepio Geral, o cenário não se torna fácil. A conclusão é simples. Durante mais de década e meia, através de governos de todos os partidos representados hoje na Assembleia, tirando o PAN, a banca brincou ao mercado com o nosso dinheiro. Ou seja, acreditou sempre que seria salva de desmandos, ficando ainda mais crente disso depois de em 2008 a AIG, o Lehman Brothers, as Freddie Mac e Fannie Mae terem sido resgatadas pelos Estados Unidos.

Banco, banca

6 – A ideia de limpar os bancos portugueses do crédito malparado tem um mérito: dar-lhes liberdade para voltar aos mercados de crédito em melhor condição de ajudar a economia real e emprestar mais e em melhores condições.

7 – Os problemas da boa ideia, porém, estão a montante da ideia. Enquanto não se regular de forma apertada a banca, enquanto a supervisão não funcionar e enquanto os bancos forem uma espécie de estágio para políticos ou acoito de políticos reformados, a banca terá sempre confiança no Estado e na salvação própria.

8 – Nada disto será feito porque a política está invadida de interesses bancários e precisa da banca. Se o actual Governo pode dar esperanças, com a ala esquerda do PS, o PCP e o BE a insistirem em juízo e bom senso, o plano em marcha para as “imparidades” é, apenas, um risco que Portugal, neste momento, talvez não possa aguentar.

9 – Entregar os 17 mil milhões directamente à economia real, através da velha ideia de um banco de fomento estatal, regulado e independente, podia ser melhor. Pior para os bancos, mas melhor para todos nós.

 

 

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