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Segunda-feira, Setembro 27, 2021

Montepio continua a acumular prejuízos

Eugénio Rosa
Licenciado em economia e doutorado pelo ISEG

O Banco Montepio continua a acumular prejuízos e a sua administração mostra-se incapaz de reverter a situação. Virgílio Lima, copiando os procedimentos de Tomás Correia, continua a esconder aos associados as contas consolidadas da Associação Mutualista de 2020 o que agrava a falta de transparência que existe no Montepio.

Este estudo é fundamentalmente uma informação aos associados do Montepio sobre o banco e a Associação Mutualista. No entanto, a situação do Montepio, que é a maior associação mutualista do país com mais de 620.000 associados, e certamente abrangendo mais de um milhão de portugueses se incluir os seus familiares, deve merecer a atenção de todos os portugueses.

Utilizando apenas dados divulgados pela administração do Banco Montepio analiso não só a sua situação atual, mas também a sua evolução verificada com a atual administração que se mostra incapaz de reverter a situação de acumulação de prejuízos que continua a se verificar em 2021, contrariamente ao que se regista nos restantes bancos. É uma administração enorme (tem 16 membros, tantos como a CGD, uma entidade 4,8 vezes maior do que o Banco Montepio) mas que se carateriza, a maioria dos seus membros, por não ter experiência e competências na área da banca comercial de retalho, como é o Banco Montepio. E as consequências estão à vista de todos.

Incapaz de encontrar soluções, a agora, com o apoio do presidente da Associação Mutualista, escolheu a via “fácil” de fechar balcões e reduzir o número de trabalhadores, fragilizando ainda mais o banco e, consequentemente, também a Associação pois aquele é o seu principal ativo. Finalmente, peço a sua ajuda para que esta informação chegue ao maior número de associados.

 

Estudo

O Banco Montepio continua a acumular prejuízos e a sua administração mostra-se incapaz de reverter a situação. Virgílio Lima, copiando os procedimentos de Tomás Correia, continua a esconder aos associados as contas consolidadas da Associação Mutualista de 2020 o que agrava a falta de transparência que existe no Montepio

Em 2020, o Banco Montepio teve 79 milhões € de prejuízos. Em 2021, no 1º trimestre teve mais 15,9 milhões € de prejuízos que subiram para 33 milhões € no fim do 1º semestre. A administração do banco que tem o mesmo número que a CGD (16), com reduzida experiência de banca de retalho e comercial, como é o Banco Montepio, revela, passados mais de 2 anos após a entrada em funções, incapacidade para reverter a situação de prejuízos persistentes. O quadro 1, com dados referentes ao período 2019/2021 dos principais bancos, confirma que essa situação não se deve apenas às dificuldades que enfrenta o negócio bancário em Portugal, mas fundamentalmente à própria administração do BM.

 

Quadro 1 – Crédito concedido, depósitos e resultados dos 6 principais bancos – 2019/2021


Entre 2019 e o 1º semestre de 2021, o crédito líquido concedido por 5 bancos (exclui o BM) aumentou em 3,9%, mas no Banco Montepio apenas 1,7%. E os depósitos nos 5 bancos cresceram, no mesmo período,13,6%, mas no Banco Montepio apenas 0,8%. Se comparamos o Banco Montepio com o Crédito Agrícola, um banco com uma dimensão muito semelhante, conclui-se que no Crédito Agrícola, durante o mesmo período, o crédito concedido aumentou 8,1% e os depósitos 26,7%, portanto percentagens muito superiores às registadas pelo Banco Montepio. Como consequência desta evolução, o Banco Montepio tem perdido quota de mercado. A provar isso, entre 2019 e 1ºsem.2021, em relação aos 5 bancos (os valores do Crédito Agrícola são do 1º trim.2021), no crédito a sua quota diminuiu de 7,4% para 7,3% e, nos depósitos, baixou de 6,5% para 5,7%.

A conclusão de que o ponto fraco no Banco Montepio se situa na administração é reforçada pelo facto de que os outros 5 bancos, incluindo o Novo Banco, já apresentaram este ano resultados positivos, enquanto o Banco Montepio teve 33 milhões € de prejuízos. E é de prever que dupliquem até ao fim do ano porque estes resultados não foram auditados e certamente o auditor (a PwC), será mais rigorosa no cálculo das imparidades quando tiver de auditar as contas no fim do ano (o Banco Montepio tem 3.000 milhões € de créditos em moratória e ainda 1.100 milhões € de créditos improdutivos, os NPL).

 

Uma análise detalhada da evolução da situação do Banco Montepio desde que entrou em funções a atual administração confirma a sua incapacidade

Observem os dados do quadro 1 divulgados pela administração do Banco Montepio.

 

Quadro 2 – Os valores das principais rúbricas do Banco Montepio – 2017/2021

Com a entrada em funções de Pedro Leitão para presidente da comissão executiva do conselho de administração, registou uma subida, embora muito reduzida, do crédito líquido, dos depósitos e do rácio de transformação, embora claramente insuficiente para se poder concluir que se iniciou um movimento de recuperação. Entre 2019 e o 1º semestre de 2021, o credito liquido aumentou apenas 194 milhões € (+1,7%), mas continua inferior ao de 2017 em 1.371 milhões €; os depósitos subiram com Pedro Leitão em 98 milhões € (+0,8%), sendo superiores aos de 2017 em 62 milhões €; o rácio de transformação, que dá o valor de credito concedido por cada 100€ de depósitos, aumentou de 91,5% para 92,4% (com Carlos Tavares por cada 100€ de depósitos o Banco Montepio concedia credito no valor de 91,5€, e com Pedro Leitão aumentou apenas para 92,4€), mas ainda muito inferior ao que se verificava em 2017( por cada 100€ de depósitos o banco concedia 103,7€ de crédito). Mas o mais grave é o que se registou, entre 2017 e 2019, com Carlos Tavares, o Banco Montepio perdeu 311 milhões € (-17,6%) dos seus Capitais Próprios em e, entre 2019 e o 1º semestre de 2021, com Pedro Leitão já perdeu de 101 milhões € (-6,9%), o que determina que, em junho de 2021, os Capitais Próprios do Banco Montepio sejam inferiores aos que tinha em dez.2018, em 412 milhões € (-23,4%). E sem Capitais Próprios suficientes o banco está impossibilitado de aumentar significativamente o negócio bancário (crédito concedido) e corre o sério risco do Banco de Portugal impor à Associação Mutualista nova recapitalização do banco. E o Banco Montepio não transfere há 14 anos quaisquer dividendos para a Associação Mutualista, ou seja, não remunera os 2420 milhões € que a AMMG tem aplicados nele.

 

O aumento do “cost-to-income” para valores insustentáveis, a redução dos rácios de capital, e o fecho de balcões e a diminuição de trabalhadores

Os dados do quadro 3, também divulgados pela administração do Banco Montepio, permitem completar a análise anterior sobre a evolução da situação do banco com a atual administração.

 

Quadro 3 – A evolução das rúbricas mais importantes do Banco Montepio entre 2018 e 2021

Um aspeto importante, que condiciona fortemente a evolução da situação do Banco Montepio, é de todos os indicadores de 2021 serem no sentido de baixa (as % do 1º sem.2021 são menos de metade dos valores de 2020), e a insuficiência do negócio bancário em 2021 com Pedro Leitão que é refletida na redução do Produto bancário (o do 1ºsem.2021 é apenas 40% do de 2020) o que determina que o “Cost-to-income”, que se obtém dividindo os Custos Operacionais pelo Produto Bancário, tenha aumentado, entre 2019 e o 1º sem.2021, de 57,3% para 81,1%, um valor insustentável também causado pelos custos da redução de trabalhadores. Apesar da administração ter reduzido, no 1º sem.2021, as imparidades para 60,9 milhões €, o ou seja, a apenas 27,6% (menos de 1/3) das constituídas no ano de 2020, correndo assim o risco de não preparar o banco para quando acabar as moratórias de credito (é de prever que uma parcela dos 3.000 milhões € de credito em moratória seja perdido devido ao desaparecimento de empresas devedoras e à não recuperação pelas famílias dos rendimentos que tinham antes da crise causada pela pandemia), mesmo com imparidades reduzidas, o Banco Montepio apresentou 33 milhões € de prejuízos no 1º semestre de 2021.

Como consequência da perda de Capitais Próprios (entre 2017 e 2021perderam-se 412 milhões €) devido à acumulação de prejuízos, e apesar da diminuição dos Ativos ponderados pelo risco (RWA), um aspeto positivo, tem-se assistido a uma redução continua dos rácios de capital (CET 1, Tier 1 e Rácio Total) o que cria obstáculos crescentes ao aumento do negócio bancário (concessão de crédito) sendo cada vez mais difícil a recuperação do banco. E isto apesar de apresentar um rácio de liquidez (LCR) de 261% no fim do 1º semestre de 2021, que é 2,6 superior ao mínimo exido pelo Banco de Portugal, o que é positivo, pois significa que, apesar de tudo, continua com uma situação confortável a nível de liquidez. A redução que se verificou nos créditos improdutivos com Pedro Leitão para 9,3% do crédito bruto, é ainda insuficiente pois corresponde a mais do dobro da do mercado, e representa cerca de 1.100 milhões € de NPL, que não produzem rendimento, mas que “comem” uma parcela importante dos Capitais próprios, reduzindo os rácios de capital, e criando dificuldades adicionais à concessão de crédito. E tanto a administração do Banco Monteio como a administração da Associação Mutualista, praticamente o único acionista, têm revelado uma incapacidade total para resolver este grave problema resultante de uma gestão irresponsável no passado, e as soluções que tem apresentado não têm qualquer viabilidade de aplicação. O adiamento da resolução deste grave problema torna cada vez mais difícil e onerosa a sua solução.

Perante esta incapacidade clara de encontrar soluções e medidas para ultrapassar os problemas que enfrenta o banco, a atual administração do Banco Montepio, com o apoio do presidente Associação Mutualista, entrou na via de fechar balcões e de destruir empregos, e de reduzir o número de trabalhadores Entre 2018 e o 1º semestre de 2021, foram encerrados 53 balcões e afastados do banco 283 trabalhadores. E esta destruição do banco e do emprego não para. Em agosto de 2021 está previsto o fecho de mais 16 balcões e a maioria dos seus trabalhadores ficarão em casa sem trabalho. Desta forma vai-se preparando as condições para fazer um grande despedimento após as eleições, se a atual administração da Associação Mutualista ganhar as eleições. O encerramento deste número de balcões e a redução de um número tão elevado de trabalhadores só agravará a situação do banco pois destrói a capacidade de recuperação e torna-o ainda mais frágil perante a concorrência. É uma ilusão pensar que se resolvem os problemas que tem o banco fechando balcões e destruindo emprego (despedindo trabalhadores).

 

Virgílio Lima já começou a sua campanha eleitoral para se manter como presidente visitando os balcões e escondendo aos associados as contas consolidadas da Associação Mutualista de 2020

Embora a administração do Banco Montepio tenha enviado a todos os trabalhadores um comunicado onde os proibia de intervir na campanha eleitoral nos locais de trabalho, ameaçando-os com sanções no caso de violarem tal determinação, no entanto há informações que Virgílio Lima, violando tal determinação, anda a visitar os balcões a fazer marketing pessoal junto dos trabalhadores. A confirmar-se isso, é estranho este comportamento do presidente da Associação Mutualista, que tem dado total cobertura à administração do Banco Montepio, para destruir emprego e lançar no desemprego centenas de trabalhadores, que certamente continuará e se intensificar se ganhar as eleições. A confirmar-se tal informação isso representaria também uma grave violação das regras de igualdade de tratamento de todas as listas que devem presidir à campanha eleitoral, pois isso certamente não será permitido aos membros das restantes listas, e também uma violação da determinação da administração do Banco Montepio. A administração do banco, se permitir isso, e fechar os olhos está a ser conivente e será acusada, com razão, de procurar condicionar a campanha e os resultados eleitorais tomando partido por um candidato a presidente já assumido.

À semelhança do que Tomás Correia fazia, e copiando os seus processos, Virgilio Lima continua a esconder aos associados as Contas consolidadas da Associação Mutualista de 2020, certamente com o propósito de ocultar as consequências da sua gestão que se tem caraterizado pela inercia e pela incapacidade em encontrar soluções e em tomar medidas para enfrentar e resolver os graves problemas herdados de administrações anteriores a que se junta a não aprovação repetida pela ASF do Plano apresentado pela AMMG, o que era importante para os associados pois garantiria maior segurança para as suas poupanças. Virgílio Lima espera passivamente, como é seu hábito, que um “milagre” resolva os problemas do Montepio, o que não acontecerá. Os graves problemas que enfrentam as empresas do grupo Montepio continuam por resolver, tornando ainda mais difícil a tarefa da futura administração e restantes corpos sociais da AMMG que os associados irão eleger este ano segundo os Estatutos.


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