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Segunda-feira, Setembro 27, 2021

Carbono zero ou quase… (uma abordagem)

Arnaldo Xarim
Economista

Na actualidade não deve haver político, ou a tal candidato, que num ponto ou outro do seu discurso na fala de “alterações climáticas” e do objectivo “carbono zero”. A determinação da sua importância relativa compete a cada receptor da mensagem e deriva do grau de informação pessoal sobre o tema.

A conversão de fábricas e de redes de transportes para energias limpas parece sedutoramente agradável, mas os custos de produção dessa “electricidade verde” (produzida a partir de fontes renováveis, como o Sol e o vento ou as marés) são ainda muito superiores às fontes convencionais e ditarão uma de duas realidades: ou os tecidos produtivos não se vão descarbonizar ou, para o fazerem vão ter de enfrentar um apreciável aumento dos custos de produção e a consequente redução dos lucros, algo que industriais e financiadores não estarão dispostos a aceitar facilmente.


Ler também Carbono zero ou quase… (enquadramento)


Um pequeno exemplo disto regista-se já na poderosa economia alemã com a decisão de suspender em breve (até 2022) a produção de electricidade a partir das suas centrais nucleares, mas ao abdicar de uma das redes de geração eléctrica consideradas mais estáveis e confiáveis do mundo industrial, a Alemanha está a tornar-se num dos produtores eléctricos mais caros do mundo e poderá até enfrentar rapidamente déficits de electricidade; além disso a pura e simples eliminação dos hidrocarbonetos como fonte de energia ditará o encerramento de indústrias tradicionais consumidoras intensivas de energia, como as produções de aço, vidro, produtos químicos básicos e a fabricação de papel e cimento, por via do crescimento dos custos ou a sua deslocalização, com a consequente destruição de milhares de postos de trabalho, seguros efeitos sociais e muito provável aumento do despovoamento das periferias.

Tudo isto recomenda abordagens ponderadas e ditadas por rigorosos critérios de avaliação de resultados, algo que o ruído produzido por grupos de negacionistas desinformados ou radicais do clima mal informados dificulta em extremo. E que essas abordagens não se fiquem pelas linhas gerais ou por perspectivas limitadoras ou demasiado focadas nas questões gerais e revelem capacidade para avaliar cientificamente os efeitos das alternativas em apreço, seja a médio e a longo prazo ou a montante e a jusante do ponto de foco.

Por outras palavras, a chamada energia verde (solar, eólica) poderá não ser tão verde como inúmeras vezes se garante quando se inserir na avaliação os custos ambientais da produção das estruturas (os painéis de células voltaicas e as torres eólicas) e da respectiva desinstalação e reciclagem ao atingirem o limite de vida útil, algo que se aproxima rapidamente nos parques mais antigos. Do mesmo modo os aguerridos defensores dos veículos eléctricos precisam responder à questão da pegada ecológica medida desde a mineração dos metais raros para as baterias até à reciclagem desse e de outros materiais usados na produção das viaturas, para além da origem da electricidade usada para o carregamento das baterias, da reduzida dimensão das redes de carregamento, da ainda insuficiente autonomia que a generalidade proporciona e da completa ausência de normalização das baterias, factor que originaria uma mais rápida descida dos seus preços de produção e até poderia potenciar um sistema de recarregamento mediante uma simples troca das baterias.

Tudo isto, a par com as novas “taxas de carbono” em preparação e cujo primeiro efeito garantido será o aumento do preço da electricidade, merece a adequada avaliação; não aquela que negacionistas climáticos ou ecologistas radicais regularmente realizam e com as quais procuram arregimentar seguidores, antes uma que tecnicamente sustentada, de domínio público e assegurada transparência, nos ajude, a todos, a avaliar vantagens e desvantagens e a escolher a via (ou as vias) que contribuindo para uma efectiva redução da poluição não aniquile os tecidos produtivos já suficientemente enfraquecidos (como o nacional) pela crónica escassez de capitais ou pelas mais recentes debilidades trazidas pela Covid-19.

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