Diário
Director

Independente
João de Sousa

Quinta-feira, Julho 7, 2022

Caetano e Gil cantam: Haiti

Carolina Maria Ruy, em São Paulo
Carolina Maria Ruy, em São Paulo
Pesquisadora, coordenadora do Centro de Memória Sindical e jornalista do site Radio Peão Brasil. Escreveu o livro "O mundo do trabalho no cinema", editou o livro de fotos "Arte de Rua" e, em 2017, a revista sobre os 100 anos da Greve Geral de 1917

O racismo, a herança macabra da escravidão africana, o abismo social, a violência policial são temas que se tocam e se confundem.

Isso fica claro na música Haiti. Emblemática, complexa, simbólica, muito estudada por sua gramática, por seu ritmo, por sua poesia e por seu conteúdo político, a música é, antes de tudo, uma denúncia da miséria, em seus múltiplos sentidos, fincada na hipocrisia de um mundo assimétrico.

O Haiti é uma ideia. Ela dispensa discursos longos e rebuscados. Frases encaixadas neste rap ousado falam dos pretos que apanham da polícia no mesmo lugar onde os escravos eram castigados, de políticas que se desdobram privação do ensino básico, da incoerência entre defender a pena de morte e condenar o aborto, da aceitação passiva da morte violenta de 111 presos indefesos.

Assim, a ideia do Haiti, país mais pobre das Américas, é evocada onde todo tipo de violência contra pretos e pobres é naturalizada. Ela se expressa onde persiste a herança macabra da escravidão africana, o abismo social, a violência policial.

Haiti

Composição: Caetano Veloso e Gilberto Gil/1993
Interpretes Caetano Veloso e Gilberto Gil

Quando você for convidado pra subir no adro
Da fundação casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária
Em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada:
Nem o traço do sobrado
Nem a lente do fantástico,
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
Se você for ver a festa do pelô, e se você não for
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino do primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco
Brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui

 


Fonte: Centro de Memória Sindical   |   Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial Rádio Peão Brasil / Tornado

 

Receba a nossa newsletter

Contorne o cinzentismo dominante subscrevendo a nossa Newsletter. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.

- Publicidade -

Outros artigos

- Publicidade -

Últimas notícias

Mais lidos

VER…

Boa pergunta

Crónica de Trump

- Publicidade -