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Terça-feira, Maio 24, 2022

Precisamos de paciência para resgatar a gentileza necessária para mudar o mundo

Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Jornalista, assessor do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo

É muito bom encontrar na música popular brasileira os caminhos para a superação de todo o mal que aflige o Brasil. A sociedade brasileira está um tanto adoecida, mas com persistência, muita arte e uma boa dose de paciência o jogo pode ser virado.

  • Contra todo o desânimo, “Gentileza” de Marisa Monte nos remete à resistência ao capital destruidor de sonhos e vidas.
  • Contra todo desamor, “Do Alto”, de Xênia França resgata a alegria de viver.
  • Contra todo o desespero, Lenine traz “Paciência” como “uma virtude revolucionária”, frase dita pelo líder da Revolução Russa (1917), Vladimir Ilyich Ulianov, (Lênin, 1870-1924).
  • Contra todo o preconceito e rancor, Bia Ferreira canta que “Cota Não É Esmola”. E não é mesmo, é direito de quem nunca teve direitos.
  • Contra todo o niilismo, “Fábrica”, de Renato Russo para saber que a classe trabalhadora terá a sua vez. Com muita luta.
  • Contra toda indiferença, Paulo César Pinheiro e João Aquino trazem a poesia como forma de crescer e avançar.

 

Xênia França

A baiana Xênia França, radicada em São Paulo, teve o seu talento descoberto por Emicida. O olho do rapper não falhou e a cantora e compositora se destaca com sua voz, poesia e melodia no cenário contemporâneo da música popular brasileira.

Ela participou do grupo Aláfia e em 2017 lançou seu primeiro álbum solo. É preciso prestar atenção nas músicas de Xênia.

“Mal queria nada
Mas seu nego despertou
Deu-lhe um beijo na testa
A roseira roseou e a preta não quis festa
Regava um estio pra colher
Colhia mais que plantava
No plantio de cana amarga
Que amargava o seu langor
Quando o sol raiava
De que valerá o arrebol
De que servirá ser alada
Se a inocência lhe fez culpada”

 

Do Alto (2017), de Xênia França

 

 

Lenine

O pernambucano Lenine já está há anos na estrada num caminho singular com grande destaque. Sua singularidade já começa no nome porque é uma homenagem de seu pai comunista ao revolucionário e pensador Lênin ou Lenine (Vladimir Ilyich Ulianov). Suas canções são presença garantida no acervo da MPB para sempre.

“Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência

O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência”

 

Paciência (1999), Dudu Falcão e Lenine

 

 

Bia Ferreira

A cantora e compositora mineira Bia Ferreira canta as dificuldades enfrentadas pelos pobres, obrigados a trabalhar desde muito cedo. A sua revolta transborda em suas poesias e melodias fortes. Merece muita atenção.

“Opressão, humilhação, preconceito
A gente sabe como termina, quando começa desse jeito
Desde pequena fazendo o corre pra ajudar os pais
Cuida de criança, limpa casa, outras coisas mais

Deu meio dia, toma banho vai pra escola a pé
Não tem dinheiro pro busão
Sua mãe usou mais cedo pra poder comprar o pão
E já que tá cansada quer carona no busão
Mas como é preta, pobre, o motorista grita: Não!”

 

Cota Não É Esmola (2011), de Bia Ferreira

 

 

Legião Urbana

De Brasília veio o talento da banda de rock Legião Urbana, criada em 1982. A Legião durou até 1996 por causa da morte de sua maior referência, o cantor e compositor Renato Russo, que morreu nesse ano.

Renato se transformou num dos mais importantes compositores da música popular brasileira, sempre cantando contra a desigualdade e a opressão. Seu talento faz muita falta.

“Nosso dia vai chegar
Teremos nossa vez
Não é pedir demais
Quero justiça
Quero trabalhar em paz
Não é muito o que lhe peço
Eu quero o trabalho honesto
Em vez de escravidão

Deve haver algum lugar
Onde o mais forte não
Consegue escravizar
Quem não tem chance”

 

Fábrica (1986), de Renato Russo; canta Legião Urbana

 

 

Marisa Monte

Do Rio de Janeiro, Marisa Monte encanta o Brasil com a qualidade de sua obra há muitos anos. Não há ninguém que não reconheça seu talento nas composições e seu vigor na interpretação. Na canção “Gentileza” ela presta homenagem ao Profeta Gentileza (1917-1996), um morador de rua que ficou muito conhecido por escrever seus pensamentos nas pilastras do Viaduto do Gasômetro, na capital fluminense.

Algum prefeito desavisado, desses que existem muitos pelo Brasil afora, mandou apagar suas inscrições, tais como:

  • “Nunca é cedo para uma gentileza, porque nunca se sabe quando poderá ser tarde demais”.
  • “Nunca ofendas verbalmente o teu inimigo. Dói muito mais uma gentileza vociferada do que uma ofensa impensada”.
  • “O dinheiro destrói a mente da humanidade. O dinheiro coloca a humanidade surda. O dinheiro destrói o amor. O dinheiro cega. O dinheiro mata”.
  • “Gentileza gera gentileza”.

Por isso Marisa canta que apagaram tudo o que não deviam e a cidade perdeu um pouco de sua alma.

“Apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
Só ficou no muro tristeza e tinta fresca

Nós que passamos apressados
Pelas ruas da cidade
Merecemos ler as letras e as palavras de gentileza
Por isso eu pergunto a você no mundo
Se é mais inteligente o livro ou a sabedoria
O mundo é uma escola
A vida é um circo
“Amor” palavra que liberta
Já dizia o profeta”

 

Gentileza (2000), de Marisa Monte

 

 

Paulo César Pinheiro

Paulo César Pinheiro é um cantor e compositor carioca, que como Aldir Blanc (1946-2020), merece mais destaque que a mídia lhe dá. Muito porque grande parte de suas canções são gravadas por outros intérpretes. Com cerca de mil canções gravadas, ele tem parcerias, entre outros com: João Nogueira, João de Aquino, Francis Hime, Dori Caymmi, Raphael Rabello, Tom Jobim, Ivan Lins, Edu Lobo, Mauro Duarte, Guinga, Carlinhos Vergueiro, Toquinho, Eduardo Gudin, Luciana Rabello, Mauricio Carrilho, Cristóvão Bastos, Sergio Santos, Moacyr Luz, Danilo Caymmi, Baden Powell.

A sua canção selecionada é “Viagem” (primeira composição), composta por ele aos 14 anos, em parceria com João de Aquino.

“Mas pode ficar tranquila
Minha poesia
Pois nós voltaremos
Numa estrela guia
Num clarão de lua
Quando serenar
Ou talvez até quem sabe
Nós só voltaremos
No cavalo baio
No alazão da noite
Cujo o nome é raio
Raio de luar”

 

Viagem (1963), de João Aquino e Paulo César Pinheiro; canta Fabiana Cozza


Texto em português do Brasil


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