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Quarta-feira, Dezembro 8, 2021

Carta à minha memória

Filipa Vera Jardim
Mantém o blogue literário “Chez George Sand” onde escreve regularmente.

XIII. Como as coisas me tocam.

Minha memória,

Como as coisas me tocam meu Deus… Por vezes, apenas numa carícia suave de uma pequena lembrança.

Foi há tanto tempo. Tanto, que os teus dedos firmes se transformaram nesta suavidade.

Já não me agarras a pele, simplesmente roça-la muito ao de leve. Já não me puxas os ombros vigorosamente, é apenas uma brisa que os segura pelas omoplatas, assim, tão devagar…

Lembro-me do teu abraço firme que hoje é uma sombra de uma pena minúscula a esbocejar no meu corpo. Como se o teu abraço se tivesse desatado por dentro do tempo e perdesse força a cada ano que o recordo.

Lembro-me da mão que me aconchegava o sono de criança e do peito firme e branco e leitoso da minha mãe, das pernas bamboleantes que me acompanharam os primeiros passos. Lembro-me das correrias e dos abraços. Dos puxões firmes nas brincadeiras de criança, dos empurrões, dos traços escritos a sangue, a lágrimas, a desespero de quem cresce e cresce e cresce todos os dias, num balanço e num compasso.

lembro-me tão bem dos dedos entrelaçados por dentro das madrugadas ao redor de uns cabelos longos, os meus cabelos longos e das despedidas em soluço. A boca apertada, os braços apertados, o riso apertado.

Lembro-me das mãos, as minhas mãos firmes, brancas e leves que varriam o mar nos Verões em braçadas de azul. Os dedos muito esticados como algas, a palma em concha, o nervoso  em passo crescente numa dança de alvorada e riso e sal.

Lembro-me dos serões aconchegados. O corpo aninhado, as pernas entrecruzadas, os seios desalinhados, o rompante da cavalgada dos acontecimentos na tela do cinema a encherem-nos o peito de choros, de sentimentos e mais abraços.

Lembro-me que havia o do toque das coisas que se passaram e se viveram. Um toque autentico, seguro, incisivo, pontuado a espaços de silêncios, de vento e de muitos sonhos.

Lembro-me… Hoje, apenas com brisas suaves, arremedos desses gestos porque o tempo desfaz os nós, desaperta os traços, desentrelaça os dedos e os abraços. O tempo desfaz-se a ele mesmo, na nortada violenta e plena que é a nossa vida. Restam me as lembranças em forma de carícias suaves a pontuar-me o resto da viagem.

Hoje, os gestos são apenas passos vagarosos, o riso condescendente, o Verão ameno e suave e sofrido . Já não há sol que me entrelace os cabelos. Os longos cabelos desapareceram. Levou-os um tempo qualquer, desses que nos espreitam na esquina de cada acontecimento terminado, de cada despedida, de cada Verão que se apressa agora, a passar.

O ar morno da tarde em final de si, envolve-me um pequeníssimo esgar ao canto dos lábios, talvez por ver o dia que assim termina. Um dia de horas descansadas, de segundos alinhados, de passos e passos marcados a escopro no meu relógio gasto.

Era um relógio luzidio, tu lembras-me minha memória, nesse Verão longínquo de braçadas firmes e abraços e cabelos longos e sol que redemoinhava sôfrego à minha passagem… Longa, tão longa será a noite que desce agora num instante, por mim abaixo.

 


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