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João de Sousa

Sábado, Outubro 23, 2021

Carta à minha memória

Filipa Vera Jardim
Mantém o blogue literário “Chez George Sand” onde escreve regularmente.

XXXIV. Da justa medida.

Minha memória,

É de uma absoluta justa medida tudo o que me reenvias. O passado calça-me inteira. Não há outro número que se me ajuste tão bem, apesar das falhas, dos compromissos nunca assumidos, dos dias que se partiram sem deixar nenhuma mágoa, da raiva incontida pela ausência. Houve muita ausência, tu sabes, mas até essa me foi justa.

Podia ter acontecido tudo ou, apenas algumas coisas, de forma diferente, mas se assim fosse não estaria eu aqui a reviver e a traçar o meu futuro por causa disso, desta maneira. Seria possivelmente uma projecção completamente diferente apoiada em factos que nem sequer imagino.

Gosto do conforto desta justeza que me calça. Das coisas que foram assim porque efectivamente, só poderiam ter sido assim. Gosto de pensar que de muitos inevitáveis se reconstrói agora, através das recordações, uma vida inteira.

Uma soma de inevitáveis que alinhavaram tudo.

Talvez me sinta melhor agora, porque já não tenho que pensar, já não tenho que escolher nem tenho que decidir. Em relação ao passado e a tudo o que me envias é assim. Os acontecimentos há muito que pensaram tudo, que escolheram tudo, que decidiram tudo, no tempo próprio de cada um deles.

Sento-me confortavelmente e deixo que o tempo me invada lentamente. O riso cristalino da criança que fui, o destempero da juventude que me habitou, o rasgar da cortina de um passado para outro, de um passado para outro em cada segundo da minha existência  e numa cadência que me lembra agora, o avançar paulatino para a frente, sempre para a frente  seja lá aonde tenha sido o lugar dessa frente tantas vezes inóspita e selvagem.

A paisagem feita de recordações que me aconchega nem sempre é azul. Por vezes, vem envolta em muito nevoeiro. Não vi nada na altura e continuo com muita dificuldade, apesar de querer continuar a focar os olhos com força no lugar do meu horizonte.

Todos temos um horizonte. Um lugar de ambição e de conquista. Ele existe e é necessário para o tempo de construção. Nas memórias, não. Nas memórias já não há horizonte. Só lugares por onde ele passou e que descansam agora no embalo dos meus braços. Cheiros que o horizonte teve e passos que se envolvem agora de uma doçura. Na altura foram difíceis eu sei mas até a dificuldade dos passos se reveste agora, na memória, de dança.

És sempre benévola minha memória quando trazes a tua justeza para me calçares à medida. Podia ter-se passado tudo de uma outra forma? Podia, certamente, mas se se tivesse passado, não seria esta a minha vida e não seriam estas as minhas memórias, feitas da justa medida dos meus passos e do tempo que me permite dança-los assim.

 


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