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Segunda-feira, Setembro 27, 2021

Carta à minha memória

Filipa Vera Jardim
Mantém o blogue literário “Chez George Sand” onde escreve regularmente.

XLIII. A fotografia.

Minha memória,

Fiz-me fotografar ainda agora. Estou sentado e a lua debruça-se na minha janela a rir. É uma lua nova e feliz. Se eu deixar, ela sentar-se-á no meu colo por toda esta noite. O que faremos depois eu não sei. Pode ser só um balanço, ficar assim de rosto colado ao seu riso. Pode ser uma conversa sobre o tempo que ainda não chegou e é certamente o dela.

Sou eu minha memória e, mando-me assim para ti, para que me recordes sempre de cada um destes instantes em que eu me sinto tão plenamente eu.

Nunca na minha vida me senti tão próprio, tão completo, com as acções executadas, os pensamentos pensados, a carne assada impecavelmente cozinhada em cima da mesa de jantar e o lugar da lua, à espera dela.

Pus na mesa um prato para mim, outro para ti, o da lua e deixei um outro vago para algum futuro que passe por aqui ainda hoje…

Gosto de pensar que um dia qualquer, o futuro entrará por esta janela de mãos dadas com a lua e se sentará também à minha mesa. Nesse dia falaremos de tudo o que se passou, de como eu era e de como tu me recordas e, também de como o futuro me possa ele imaginar. Sei perfeitamente que com o futuro sentado à mesa, não passarei de um breve pensamento, uma imaginação, um projecto mas será o bastante para nos animar esse serão. Até lá minha memória eu envio-me assim como sou, neste preciso instante que se fez já passado.

Todos os instantes se fazem passado no preciso momento em que acontecem.

Uma fotografia é exactamente isso, um instante plasmado e logo feito passado. Um lugar, uma urgência, um momento e uma nesga da história de cada um.

Se a cor não se for embora desta fotografia, minha memória, doravante recordar-me- ei com esta camisa imaculada e a felicidade de disfrutar o sorriso franco de uma lua nova debruçada na minha janela. Sei no entanto que é pouco provável que dure. As fotografias passam também elas pelo tempo e tendem sempre a desbotar. Depois, depois, restará apenas uma camisa pálida a lembrar vagamente a brancura e a felicidade do sorriso de uma lua descolorida e sem tamanho algum.

Seja como for minha memória, as fotografias são importantes. Espero por isso que a guardes e que ma tragas de vez em quando. Sobretudo,  nos dias em que eu não for tão eu.

Há dias assim minha memórias, dias em que não sei exactamente quem sou, porque não me reconheço na tristeza que me invade ou porque não sei nada da lua que me visita.
Nesses dias minha memória, traz-me então esta fotografia que agora te mando. Poderei olhar para ela tantas vezes quantas as necessárias para me reconstruir exactamente como acho que quero ser.

Reconstruir-me exactamente como acho que quero ser não é tarefa simples. Passa por um processo que não te sei explicar. Tem alguma coisa de incontrolável, alguma coisa de irreal,  talvez de um sonho, também.

Sei apenas minha memória, que preciso absolutamente disso, de me reconstruir exactamente como acho que quero ser. É a minha vontade. E ela prevalece mesmo depois de chegar o sol do meio-dia que ilumina a realidade e faz desaparecer todas as luas.

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