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Domingo, Outubro 24, 2021

Cenários europeus para os coletes amarelos

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

A passagem do movimento para a Bélgica começou por contágio comunitário, no Sul da Bélgica, francófono, e saltou para Bruxelas de forma ainda difusa, como se pode ver das declarações recolhidas pela imprensa belga, mas em que sobressaem as preocupações com o poder de compra, tal como em França.

Existem notícias um pouco por toda a Europa – incluindo Portugal – da tentativa de réplicas, sendo difícil de prever neste momento ainda quais irão ser as consequências de um movimento em que qualquer pessoa pode dizer que actua em seu nome.

1. Um esboço de trajectória

Recordemos primeiro que a força política italiana com mais votos e que domina o Governo, o Movimento Cinco Estrelas M5S, foi criada há menos de uma década por uma figura pública televisiva e um perito em comunicação em rede com base num programa ambientalista e na democracia electrónica.

Os coletes amarelos franceses são um movimento ainda mais horizontal que o M5S, sendo difícil dizer onde e com quem começou, e ninguém conseguiu ainda a legitimidade necessária para falar em seu nome.

A passagem do movimento para a Bélgica começou por contágio comunitário, no Sul da Bélgica, francófono, e saltou para Bruxelas de forma ainda difusa, como se pode ver das declarações recolhidas pela imprensa belga, mas em que sobressaem as preocupações com o poder de compra, tal como em França.

Depois de uma primeira manifestação em que se deu uma verdadeira batalha campal que passou pelo incêndio de veículos policiais – visível do meu gabinete – a manifestação deste fim de semana foi muito mais controlada, com a polícia a prender a maior parte dos manifestantes logo nas principais gares da cidade antes de ela começar.

Sendo Bruxelas uma cidade com cinco parlamentos, o de Bruxelas, o da Flandres, o da Comunidade Francesa, o da Bélgica e o Europeu, e sendo a palavra de ordem mais ouvida o pedido de demissão do Primeiro-Ministro belga, é sintomático que tivesse sido o Parlamento Europeu o edifício mais visado.

O movimento foi parasitado em França e na Bélgica, desde logo pelos amantes da violência sendo que surpreendentemente isso não levou a uma baixa no apoio público ao movimento, que se mantém acima dos 70% em França.

Existem notícias um pouco por toda a Europa – incluindo Portugal – da tentativa de réplicas, sendo difícil de prever neste momento ainda quais irão ser as consequências de um movimento em que qualquer pessoa pode dizer que actua em seu nome, mas penso que poderemos traçar os seguintes três cenários possíveis.

2. Os três cenários de base

  a) Dissipação


Di Maio

A heterogeneidade de interesses, a ausência de estruturas e a facilidade da infiltração por provocadores podem levar à dissipação do movimento.

É isso no fundo o que se espera que aconteça mesmo em Itália onde toda a opinião pública minimiza a importância do M5S e o seu líder Di Maio e diz que este se vai limitar a ser a ponte para o reforço da Liga Norte de Salvini, movimento que começou por ser regionalista mas que se tornou no grande partido da extrema-direita.

Temos aqui que ter presente que a comunicação social tradicional sempre travou e continua a travar uma guerra total ao M5S por que sente que este lhe disputa o lugar de intermediário entre o cidadão e a política, e que se sente mais confortável com o enquadramento político tradicional.

  b) Absorção

Várias forças políticas apoiam em França os Coletes Amarelos, da extrema-direita à extrema-esquerda passando pelo PS francês.

Le Pen

A absorção do movimento por partidos extremistas será tanto mais facilitada quando os opositores ao movimento o classificarem como ‘fascista’ ‘comunista’ ‘nacionalista’ ‘populista’, dando aos seus membros um incentivo para apoiar esses movimentos ou partidos.

Em França, a esquerda tradicional está extremamente debilitada, com os partidos socialista e comunista reduzidos à expressão mínima e com um movimento populista criado por um dissidente socialista – ‘A França insubmissa’ – a dominar a paisagem da esquerda. O problema principal dos ‘insubmissos’ é a de não terem uma expressão à escala europeia.

À direita, o partido de Le Pen aparece como o que tem melhores condições para capitalizar o descontentamento do movimento, nomeadamente porque tem agora uma importante rede internacional de parceiros. No entanto, os passos que tem dado para a normalização e inscrição no quadro tradicional de direita, nomeadamente a mudança de nome, poderão retirar-lhe o élan ‘antissistema’ de que beneficiou no passado.

  c) Afirmação

Aqui, teríamos um cenário italiano à escala europeia. A proximidade de eleições para o Parlamento Europeu facilita essa projecção, que poderia ser feita, tal como em Itália, por uma parceria entre peritos de comunicação em rede e figuras públicas, que poderiam ser mesmo do futebol, a actividade em que a comunicação europeia se faz com mais facilidade.

Caso fossem levantados obstáculos à participação eleitoral de um movimento novo desta natureza, poder-se-ia mesmo assistir a um movimento pelo boicote, que poderia ser ainda mais devastador do que o da participação.

3. Um movimento que vai marcar o futuro político e social

A curto prazo, creio que poderemos assistir ao desenvolvimento de qualquer destes cenários, ou de uma combinação entre eles mas o movimento vai deixar marcas profundas independentemente da sua evolução a curto prazo. Convém lembrar aqui que o ‘Maio de 1968’ foi esmagado nas urnas com o General De Gaulle a reforçar a sua maioria nas eleições de Junho de 1968, mas isso não impediu que esse movimento se tornasse a referência para grande parte das mudanças sociais a que assistimos nos últimos 50 anos.

O que me parece é que estamos a ver aqui a fermentar tendências que vão marcar a política nas próximas décadas, nomeadamente a democracia directa, a flexibilização das estruturas políticas e sociais e os valores que nos determinam.

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