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Sexta-feira, Dezembro 2, 2022

Um conceito de saúde e prazer

Beatriz Lamas Oliveira
Beatriz Lamas Oliveira
Médica Especialista em Saúde Publica e Medicina Tropical. Editora na "Escrivaninha". Autora e ilustradora.

Quando falamos dos centros de saúde criados entre 1979 e 1980 estamos a falar de unidades concelhias com extensões nas diferentes freguesias. Os médicos deslocavam-se diariamente. Quem estava à nossa espera era os doentes.

O utente do serviço não era a família, era a criança, a grávida, a mulher com problemas ginecológicos que podia desejar engravidar sem o conseguir, ou a mulher que não queria ter mais filhos de imediato, isto é, queria espaçar o tempo das gravidezes. O sofrimento das mães e da avós que tinham tido ranchadas de filhos estava estampado na memória e criara raízes  nas histórias familiares contadas mais ou menos abertamente à lareira.

Todos os meninos vinham uma vez por mês no primeiro ano de vida. Não vinham por estarem doentes, mas sim para avaliar o desenvolvimento e a alimentação. Eram, por rotinas estabelecidas como seguras, medidos e pesados , o crescimento era comparado com o das tabelas que estavam, quer na parede do gabinete médico, quer no Livrinho de saúde onde também eram anotadas todas as vacinas do Plano Nacional de Vacinação português. Estes exames programados detetavam muita patologia incipiente. Atraso do desenvolvimento psico motor, problemas de audição, fraqueza muscular, etc, considerados sinais de alarme e então era marcada consulta de pediatria hospitalar, ou seja os meninos e meninas passavam dos nossos cuidados básicos para os cuidados diferenciados. Seguiam com um carta dirigida ao colega da especialidade hospitalar e a consulta era marcada pelo telefone a partir da nossa periferia.

Fácil é de intuir que as grávidas eram seguidas mensalmente a partir do momento (por vezes não desejado) em que as análises confirmavam a suspeita de que vinha aí um futuro rebento. Não havia ecografia. Mas nós e as enfermeiras sabíamos medir e avaliar o desenvolvimento intra uterino dos meninos  que, muitas vezes, já tinham sexo desejado mas desconhecido. Por exemplo “E se for menina há-de chamar-se Custódia”.

Se o progresso da gravidez não se mostrava o desejado e o nosso exame detetava a possibilidade de uma patologia, lá ia a nossa grávida devidamente sossegada, com uma carta em que contávamos os nossos receios, para o colega dos cuidados diferenciados hospitalares.

O planeamento familiar, que as autoridades centrais receavam que pudesse provocar distúrbios e incómodo na população rural, começou e a afluência às consultas excedeu em muito as expectativas.

Foi essa a consulta onde mais surpresas surgiram em termos de confidências que de facto deixaram o confessionário do senhor abade para passarem a  cair nos nossos atentos ouvidos. Que isso tenha causado irritação e prurido nas purpuras episcopais não nos surpreendia. Agora aquelas mulheres alteravam com uma mudança de cento e oitenta graus a sua perspetiva de quem é que realmente as ajudava em escolhas pessoais e intimas. Connosco não havia o receio de ser repreendida nem menorizada por querer ter rédea na sua vida. O espaçar das gravidezes trazia a segurança de que o aleitamento materno podia ser mantido por mais meses, e trazia também um erguer de costas que deixavam de se curvar à aspereza de vidas sem conforto nem alento. Havia mais tempo para cuidar do filho, sem ter de repartir o cansaço das múltiplas noites perdidas e sobretudo sem que o cansaço se traduzisse em impaciências, gritos, repelões e discussões que tornavam tantos ambientes familiares pobres em cenas de fado miserável, onde a faca e o alguidar serviam tanto para matar o frango como para esfaquear a mulher desobediente que não tinha feito a comida.

Aos adultos íamos, à medida que os  conhecíamos, entendendo qual o problema maior que os afligia. Foram criando grupos:diabetes, hipertensão, obesidade, ansiedade e perturbações afetivas, doenças pulmonares crónicas, doenças cardíacas.

Formaram-se grupos de ensino sobre alimentação e grupos sobre higiene intima feminina, estes últimos com muitas frequentadoras mais velhas umas, mais novas outras, onde pela primeira vez descobriam que a boca do corpo era por nós chamada de vagina.

Muitas mulheres, tantas que eu diria a maioria, nunca tinham tido qualquer prazer sexual e isso foi-se tornando tema frequente nas conversas da consulta. O colega do Concelho mais próximo do nosso era um Delegado de Saúde, especialista em saúde Pública como nós, mas era também psiquiatra, especialidade que tinha abandonado para ir para a periferia. Não digo o nome, muitos se lembrarão dele ainda. A ele enviávamos as mulheres que pediam para ir tratar do sexo, ou seja que queriam descobrir se o orgasmo era uma fantasia do cinema ou uma coisa boa que lhes podia animar a vida.

E dava resultado! Ao fim de umas poucas semanas parecia que a vida lhes sorria quando a lua subia nos céus da noite que muito encobre.

E depois, o nosso trabalho, foi sendo lentamente menorizado e destruído. Mas ainda é lembrado, neste caso é um passado onde as perspetivas eram melhores do que o futuro que aí vinha.

Ilustração: A Sonhadora, de Beatriz Lamas Oliveira


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


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