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Segunda-feira, Outubro 25, 2021

O amor obsidiante

Beatriz Lamas Oliveira
Médica Especialista em Saúde Publica e Medicina Tropical. Editora na "Escrivaninha". Autora e ilustradora.

Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória, é um verso escrito por José Régio num poema sobre a sua cidade adotiva, Portalegre.

Quando desenhei o retrato de um dos meus escritores preferidos fui reler pensamentos seus em textos que escreveu.

Ficou-me o eco vindo do mesmo poema sobre Coisas que terei pudor, De contar seja a quem for.

Todos temos uma intimidade a defender e só nos vamos deitar no sofá de Freud quando disso sentimos necessidade e quando o terapeuta nos ouve, nas nossa dúvidas e razões, nas nossas memórias, e aceita que aquelas coisas, coisas intimas que teremos pudor de contar seja a quem for, possam ficar ainda retidas pelo filtro da angústia e da apreensão.

O terapeuta não ama o doente. Respeita-o e respeita o fluxo de sentimentos, afetos, relutâncias, incertezas que afluem à consciência, dos quais alguns são verbalizados, outros se mantêm fora da inspeção.

Alias, o terapeuta ou um bom psiquiatra não faz a inspeção abusiva de quem ocorre a pedir ajuda. Aguarda que o cliente consiga dar voz aos temores, à náusea , a angústia que o levou a deitar-se para deixar cair as pálpebras e tentar entrar nas zonas sombrias de conflito interno.

Claro que o terapeuta ou o psiquiatra não vai julgar o doente. Vai tentar compreender, aceitar e adquirir a visão, a perspetiva pela qual quem sofre entrou  em via de sofrimento.

O oposto acontece com familiares e amigos dedicados que querem à viva força vergar a pessoa em sofrimento a reconhecer que sofre de uma patologia socialmente condenável que a pode levar a ser apontada a dedo como a louca. Porque se ainda fosse a original outro julgamento se faria.

Aí um familiar cheio de obsidiante amor acusa o amigo ou parente querido  de levitar nos Céus que lá em cima, estrelados, boiando em lua, ou fechados, nos seus turbilhões de trevas, que parecem engoli-lo.

Uso novamente linhas de José Régio mais sucintas e aceradas do que as minhas.

Fitando o amor suspenso nas palavras acusatórias, o alvo de tanto amor fica siderado de silêncio imenso, E sente o chão a fugir-lhe.

É muito difícil escapar ao amor e ao apego de quem nos diz que nos ama e quer proteger, quando sentimos que tanto amor obsidiante é uma carga que não ajuda, mas afunda, da qual só queremos fugir.

É impossível respirar em ritmo sereno quando nos tentam forçar a admitir que o nosso comportamento é aberrante sobretudo quando não temos memória disso.

Daquela Bela Varanda, Daquela Minha Janela que é a minha face exposta, quando inocente me rio, pode assomar o  escuro nos recantos, cheios de medo e sossego, de silêncios e de espantos, à qual quis como se fora tão feita ao gosto de outrora, como ao do meu aconchego e descanso.

Nem tudo sabemos sobre nós próprios, nem das vaga que nos agitam e trazem à praia da nossa pele, uma espuma que já deixamos de sentir.

Cada um de nós é uma ilha, que se sente tranquilamente sozinha, a menos que o amor obsidiante dos outros nos queira invadir, acusando, de não querermos reconhecer turbilhões de trevas esquecidas.

Não, nem amigos nem parentes cheios e sôfregos de amor asfixiante, podem trazer paz e consolo às dúvidas que nos atormentam o sono e os sonhos. Não não são eles que podem, com as suas dúvidas e temores obsessivos, preencher as lacunas das nossas dúvidas, náuseas e tormentos.

É melhor não tentar entrar ruidosa e inquisitorialmente na mente dos outros para os ajudar com um amor aflito.

Com José Régio, por aqui me fico.

Ilustração: José Régio, de Beatriz Lamas Oliveira


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


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