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João de Sousa

Quinta-feira, Dezembro 9, 2021

Chumbo(s)

Paulo César
Professor e escritor galardoado.

Num passado não muito temporalmente distante, vi-me, praticamente de um dia para o outro, perante uma mudança na minha vida que muito me agitou, confundiu e até me deixou angustiado por lhe desconhecer as reais consequências.

Confesso a inquietude e a apreensão, não no momento de parar o carro junto à bomba de gasolina, desligar o motor, abrir o depósito de combustível e enchê-lo, mas no momento seguinte, quando tive de dar à chave na ignição e verificar o que aconteceria ao motor do meu carro e à potência do mesmo, após ter abastecido com a nova gasolina de 98 octanas sem chumbo. Tinha desaparecido das bombas de gasolina a minha adorada “Super”, obviamente com chumbo, e que insuflava de energia os 150 cavalos do meu automóvel, pujantes, altivos, velozes, o que não acontecia quando abastecia com gasolina “Normal”, pois, em vez de 150 cavalos, o meu carro parecia movido a 150 burros. Arranquei e, para minha surpresa depois de dois minutos de viagem, o meu carro rufava pela estrada, os meus cavalos pareciam ter levado injecções de esteróides e estavam imparáveis. O carro “puxava bem” e ainda estava a contribuir para a melhoria do ambiente e da saúde da população, já que, desde então, com a eliminação do chumbo, o ar passou a estar menos poluído, o buraco de ozono começou a fechar, a temperatura média do planeta começou a baixar e as calotas polares voltaram ao seu estado sólido, revertendo um processo de liquefacção que parecia irreversível e evitando que o nível médio das águas não subisse mais e pudéssemos ter, em todo o mundo, mais extensos areias, pois a água do mar até regrediria.

Com a gasolina sem chumbo houve uma evidente diminuição das doenças de pele e das vias respiratórias, melhoria suportada pela pureza e benignidade do fumo expelido pelos carros a gasolina depois da abolição do chumbo no início do século XXI. Tal pureza e benefícios da combustão chegaram até aos defumadoiros praticados por curandeiros e bruxos. Em vez de defumarem o possuído por alma maligna através da queima de placas de incenso ou ervas purificadoras numa frigideira, consta que alguns terão passado a defumar os seus pacientes na parte de trás dos seus automóveis, expondo-os ao salvador fumo da gasolina sem chumbo expelido pelo cano de escape. A tosse provocada confirmava a natural expulsão do demo manipulador de vontades e causador de doenças e de estados de fadiga e tristeza incapacitantes.

Quero penitenciar-me por esta talvez hipoteticamente extensa introdução e dizer que a lamento, mas considero-a imprescindível para a discorrência seguinte. O meu verdadeiro alvo é um círculo com várias linhas circulares chamado presente. No presente, ainda me incomoda muito que haja muita gente (sobretudo professores, tão ignorantes que não perceberam ainda que tal medida contribuirá, também, para a melhoria da sua saúde) que esteja contra o fim dos chumbos nas Escolas. Ainda há gente que parece desconhecer que o chumbo é um metal perigoso e tóxico, muito pesado e muito adverso à saúde dos seres em geral, incluindo humanos, com evidentes indesejáveis efeitos, como o aumento da pressão sanguínea, danos nos rins, abortos, alterações dos sistemas nervosos, modificações nos comportamentos das crianças, gerando agressividade, impulsividade e hipersensibilidade.

Num ambiente maioritariamente composto por crianças e jovens (onde se incluem muitos Professores, menos em Escolas de Lisboa, Setúbal e Algarve, e muitos Assistentes Operacionais, menos em todas as escolas do país), quem é que ainda não percebeu que a eliminação do chumbo nas Escolas evita a exposição desta comunidade ao mesmo e o aparecimento das doenças associadas à sua inalação? Se calhar, os professores estão a ser egoístas porque sabem que 5 a 15% do chumbo é absorvido em adultos no tracto intestinal e há sempre a possibilidade de as futuras doenças atingirem os colegas vizinhos em vez deles próprios e que nas crianças essa mesma absorção chega aos 50%,mas eles já não são crianças. Puro egoísmo, Srs. Professores: embora o chumbo praticamente não vos afecte, nas crianças o efeito pode até ser mortal. Além disto, a eliminação dos chumbos nas Escolas permitirá a poupança de 250 milhões de euros ao Estado. É caso para dizer que, nesta situação, o Governo socialista dá 10 a 0 aos professores insensíveis e inconscientes. Aliás, atrevo-me a dizer que a goleada aumentará em breve, porque este atento, humanista e defensor das crianças Governo, agora que decidiu acabar com o perigosíssimo chumbo, e tendo em conta a poupança de 250 milhões de euros, não tardará a usar este dinheiro na Educação e a remover o cancerígeno amianto que muito pesa sobre a cabeça de todos aqueles que estão debaixo das telhas danificadas e que muito ameaça, devido às fibras libertadas para o ar, os pulmões dos seres vivos.

Parece que, despertos para a perigosidade e para os perigos da existência de chumbos nas Escolas, finalmente terá o Governo decidido cumprir a Directiva 1999/77/CE da União Europeia que proibiu a utilização de todas as fibras de amianto a partir de 1 de Janeiro de 2005 e que ordenava a monitorização de todas as instalações que usaram placas de amianto, como as Escolas, e que mostrassem sinais de degradação. Ora, este vigilante Governo, através dos muito céleres e competentes Ministérios da Educação e do Ambiente, determinará, já de seguida, a remoção do amianto das Escolas, acção que deveria ter acontecido até final de 2018, mas compreende-se a morosidade, pois o Governo percebeu a urgência de eliminar os chumbos na Escola, tão perigosos como anteriormente mencionei. “Sem chumbos e sem amianto”, assim é a Escola do futuro, dirá, em breve, um qualquer ministro.

A medida proposta pelo Governo, a de acabar com os chumbos na Escola, teve um efeito também bastante positivo noutras áreas do reino animal. Motivada pelo conhecimento de tal proposta, uma associação de animais caçados, a “Chumbai-vos!”, composta por lebres, tordos, perdizes, javalis, veados, faisões, entre outros, cujo líder é Lebrão Jaime (nome posto por seu pai lebre que era fã de basquetebol americano), lançou uma petição que conta já com um número significativo de assinaturas (não são bem assinaturas, são mais patas digitais) e que visa acabar com os chumbos de caçadores e com a actividade lúdico-depredatória da caça. Contestam os caçados, e bem, que os chumbos lhes são muito prejudiciais, provocam perdas irreparáveis no seu ecossistema, atentam contra a sua vida, lhes provocam morte rápida, lenta ou demorada com muito sofrimento, lhes causam muita ansiedade e até são geradores de muitas depressões e frequentes ataques de pânico e muitos deles passam uma vida inteira (até serem chumbados) numa situação de stress pós-traumático. Lebrão Jaime, num comunicado enviado para a agência Lusanimalia, confirmou que a petição já conta com mais de vinte mil patadas digitais e espera que a Assembleia da República aprecie este diploma e que acabe, também, como nas Escolas, com os chumbos.

Esta louvável acção dos animais caçados serviu de inspiração para uma nova iniciativa que já circula nas redes sociais. Decidi lançar uma petição, que farei chegar a Deus ou ao seu Secretário de Estado para os Assuntos Climatéricos, S. Pedro, através de missas ofertadas e rezas intermináveis oferecidas por mim e por resistentes beatas à maré ateia e agnóstica, pedindo o fim do “céu plúmbeo”. O céu plúmbeo é uma ameaça constante à nossa saúde e ao nosso bem-estar. Envolve-nos numa nostalgia outonal que parece não ter fim, enche de humidade o ar que respiramos, associa-se à descida da temperatura, escurece os dias e às vezes, servido por chuva, parece que nos alaga a alma com tempestades interiores melancolicamente fundeadas. Peço, pois, que me ajudem a acabar com o céu plúmbeo, assinem a petição e façam com que Deus ou S. Pedro só nos faça ver dias de sol luminoso e quente sem chumbo e noites iluminadas por lua sem amianto, propícias a serenatas e a namorados escondidos pela luz suave e macia do satélite natural.


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