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Sexta-feira, Janeiro 21, 2022

“Una historia más de guerra”

José Cipriano Catarino
Professor (aposentado) de Português. Licenciado em Estudos Portugueses e Franceses pela Faculdade de Letras de Lisboa. Mestre em Linguística pela mesma faculdade.

Em 1975, durante toda uma noite, um soldado pronto, de alcunha o Portimão, infernizou o quartel de Torres Novas, disparando rajada sobre rajada sobre tudo o que mexia. E nós, resguardados nas esquinas, perguntávamos Porquê?

Una historia más de guerra
(Manuela, Patxi Andion)

Em 1975, durante toda uma noite, um soldado pronto, de alcunha o Portimão, infernizou o quartel de Torres Novas, disparando rajada sobre rajada sobre tudo o que mexia. E nós, resguardados nas esquinas, perguntávamos Porquê?, como se mau vinho e muita ruindade não fossem respostas suficientes. Gritava ele, enquanto recarregava a G3: havia de matar o comandante, o segundo comandante, o sargento da companhia…

Por volta da meia-noite saiu do quartel, paredes meias com a vila. Desarmou pobre polícia, que em pânico se atirou às águas gélidas e então imundas do Almonda, e a nado fugiu para a outra margem. Então o Portimão, não encontrando a quem perseguir na vila deserta, reentrou no quartel sem que o frio da noite lhe tivesse arrefecido a fúria assassina.

Da capital chegaram ordens para o abater. Perplexos, cruzámos olhares: ninguém com coragem para disparar sobre camarada de armas. Mas agora, com balas reais nos carregadores, já não era só fugir, respondia-se ao fogo, evitando atirar à figura. E pela fria madrugada o Portimão acabou por cair, atingido por estilhaços de rajada. Depois, Presídio Militar como destino. Para meu grande alívio, como adiante contarei.

— X —

Tinha sido destacado, com uma dúzia de camaradas, quase todos na foto, para dar uma recruta em Santa Margarida, campo militar em lugar ermo, com longa avenida entre numerosos quartéis, cada qual com a sua autonomia. Logo numa das primeiras noites, estava eu de sargento de dia, e chamam-me à caserna dos recrutas. O Portimão, bêbedo, ameaçava os  moços, a extorquir-lhes dinheiro, bebidas, enchidos, chocolates.

Cheguei-me às boas, a tentar levá-lo dali para fora. Recusou sair: queria o bagaço, que, dizia, os recrutas tinham escondido nos armários.

— Venha então daí, e peguei-lhe amigavelmente no braço, vamos ao bar, que lhe pago um copo.

Intempestivamente, libertou-se com um safanão, apontou-me a G3 à cara, a dois passos de distância, meteu bala na câmara, grunhiu ameaçador: — Sei usar esta merda!

Nem me apercebi do perigo que corria. Inútil a Walter de serviço, sem balas. Pistola e braçadeira eram meros adereços, distintivos da função.

Avancei para ele, desviei o cano da arma, — Oiça lá, meu sacana: é assim que me agradece por o safar das porradas quando está desenfiado do serviço, como aconteceu ainda no mês passado, você a dormir e o posto de sentinela vazio?

— Isso não é agora para aqui chamado, contrapôs, aparentemente desorientado.

— Aí não é? Eu faço-lhe bem e você aponta-me essa merda? É assim que me agradece?

Por entre palavrões e ameaças afastou-se e refugiou-se no quarto.

Queixa apresentada, o comandante do destacamento, major que havia feito a descolonização de São Tomé e Príncipe, chamou-o ao seu gabinete na minha presença. E o Portimão, que tinha cursado com distinção a escola de malandragem, desfez-se em falinhas mansas, tom humilde, confessou-se arrependido, tinha sido o vinho, blá, blá…

Continuou connosco até ao fim-de-semana, quando armou zaragata tal que o bonzinho do major teve de o devolver ao nosso quartel de origem, Torres Novas.  E eu só me não vi envolvido porque estava desenfiado…

— X —

O Portimão endireitara-se. Era o que dizia o comandante do destacamento, cheio de fé na bondade humana. Eu desconfiava.

— Aquilo foi o vinho, como ele disse. O raspanete que lhe demos serviu-lhe de emenda. Não volta a fazer asneiras. Veja como anda sossegado, envergonhado até.

Eu calava as discordâncias. Tinha apenas 21 anos, mas farejava a dissimulação. Via o Portimão como cobra que rasteja humilde, a evitar dar nas vistas, para melhor atacar à traição.

— Olhe, dizia-me o major, levando-me a passear de braço dado pela parada sob olhares escarninhos dos prontos, — Pediu-me uma pistola…

Atónito, interrompi o passeio, olhei-o nos olhos: — Meu major, ele é o armeiro, tem o quarto atravancado com G3! Até em cima de um dos beliches!

E o comandante, pacientemente: — Eu sei. Mas diz ele que se lhe aparecer alguém de noite ao postigo precisa de uma arma pequenina. Como você está de serviço este fim-de-semana e não temos mais Walters, damos-lhe a sua.

De sargento de dia, desarmado! Que figura a minha!

O major insistiu. E eu entreguei-lhe a pistola, que até já tinha três ou quatro balas no carregador, conseguidas com grande dificuldade depois do Portimão me ter ameaçado com a G3.

Os recrutas, em plenário dinamizado pelos SUV (Soldados Unidos Vencerão!), tinham aprovado medidas revolucionárias: não rastejar na prova de técnica de combate porque o chão estava lamacento e não fazer serviços, pelo que na sexta-feira à tarde o quartel esvaziou. Desabafei com o aspirante que ficou de oficial de dia: — Já viste a minha figura de palhaço, sargento de dia desarmado? E logo para dar a minha arma ao Portimão, que já tem duzentas…

Tranquilizou-me. Com o quartel deserto, não haveria novidades. — Olha, a minha mulher e o meu cunhado vêm ter comigo e dormem cá, não faltam quartos livres. Porque é que não vais para casa?

Sair do quartel, dormir em casa, com a minha mulher? Irrecusável. Portanto, desenfiei-me.

Regressei no domingo, antes do restante pessoal. E o pobre aspirante contou-me a toirada da noite anterior: o Portimão embebedara-se outra vez e não tendo ninguém com quem brigar na nossa unidade, foi armar desacatos para o bar dos sargentos de quartel vizinho. Chamado o nosso oficial de dia a repor a ordem, ameaçou matá-lo com a minha pistola… A custo, conseguiu levá-lo de volta, teve várias vezes a arma apontada à cara, bala na câmara, sem querer deixar o Portimão sozinho até que a bebedeira passasse, temeroso pela mulher e cunhado, escondidos na ala dos oficiais…

Não era possível abafar o ocorrido. O Portimão foi recambiado para o nosso quartel de origem, Torres Novas, onde, como contei, acabou caído na parada, ferido por estilhaços, um testículo a menos…



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