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João de Sousa

Domingo, Outubro 17, 2021

Coisas tão giras que não cabem nelas

Eduardo Águaboa
Escritor, Ensaísta, Comentador político especializado em ideias gerais

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– Se este bar é sócio do «outro» deve haver aqui gajos bons. Pensou Anita antes de se decidir entrar.

Mas o que melhor conseguiu foi um rapaz feio, mas mesmo assim o mais bonito que vira desde que se licenciara em Coimbra. Foi ela quem o abordou ao qual ele respondeu com muitos sins.

No Bar Malquerida dança-se em cima do balcão e os cabelos parece que ardem.
Então Anita corre para o fogo, corre sem nada prendido, não é? E o cabelo arde?
Distintas espécies vegetais com rigor a acaso dos dias a fazer arder o cabelo, não é?

Anita passa pelo Passeo De Los Heroes carregando a escada e corre, não sei bem o que vê, mas corre dias, corre semanas, arde.

Espalhadas pelo chão que pisa, as nozes e as castanhas, que trouxe e guarda para ir espalhando e recolhendo, dando pasto à imaginação.

Chegada a madrugada, dorme como uma criança descuidada, pois, pequena e frágil como um Colibri, a hora que lhe resta passa depressa.

Anita mora naquilo que se pode chamar a Estrada das Lágrimas, onde se abrem todas as portas da infância que começa a distanciar-se com os cabelos a arder.
Portas tão cheias de ausências que não caberá a dela.

É nesse “Bairro Alto” tão inocente durante o dia e tão culpado de noite que Anita mastiga daquelas coisas que criam rancor durante anos.
Ao namorado que não ama, apenas pede: dá-me braços para eu abraçar!
Ele assim faz com o rosto tão emocionado como um ponto de interrogação.

Anita, o namorado que não consegue deitar-se com ele, Tijuana, os cabelos que ardem por arder, os silêncios duros de aguentar, os dolorosos e canalhas sons que saem do saxofone que acompanha o piano e duas guitarras que põem aquela juventude toda a dançar em cima do balcão do Bar Malquerida junto ao rio, e a rua onde ela se ama a dormir, as castanhas e as nozes, são tudo frutas da pátria tão distante e “onde não podem pôr os pés”, segundo os escritores e pensadores de teimosia idealista e de quem ela tanto gosta.

*Crónica baseada na canção de Pedro Abrunhosa, Quero Voltar para os Braços da Minha Mãe.

Nota do Director

Os artigos de Opinião apenas vinculam os respectivos autores.

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