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Domingo, Outubro 17, 2021

Virgínia Woolf: Todo artista vai à guerra

Christiane Brito, em São Paulo
Jornalista, escritora e eterna militante pelos direitos humanos; criou a “Biografia do Idoso” contra o ageísmo.  É adepta do Hip-Hop (Rap) como legítima e uma das mais belas expressões culturais da resistência dos povos.

“Uma cobra abocanha um sapo, que fica entalado na sua garganta. A cobra é voraz, o sapo não se entrega, a cobra engasga e enjoa. O sapo agoniza.

Esta imagem real, que a escritora britânica Virginia Woolf presenciou com seu marido, Leonard, num brejo próximo a Londres, acompanhou-a até o final da vida, tornando-se uma cena de seu último livro, “Pointz Hall”.

Representa o imperialismo de todos os tempos, vitimando países e populações, além de culturas. E extirpa os valores humanos pela raiz a pretexto de salvar o homem”, (in Parte 1).

O desarmamento gera um debate sem consenso

Londres destruída após bombardeio, II Guerra Mundial
Londres destruída após bombardeio, II Guerra Mundial

O temor de Virginia Woolf de “estarem as coisas geralmente erradas no universo” coincidia com um aumento de tensões na Europa. Cada vez mais era óbvio ser inevitável a guerra. No anterior, a Liga das Nações Unidas contava com forte apoio popular, mas a conferência de desarmamento convocada por ela, que se iniciou em fevereiro de 1932, terminou num impasse, com vinte e sete planos incompatíveis sobre a mesa.

Assim extinguia-se a esperança de que a razão prevalecesse. Reportando-se à confusa posição da Grã-Bretanha sobre o desarmamento, o historiador A.J.P. Taylor menciona a vulnerabilidade de Londres aos ataques aéreos, o que deveria ter levado os delegados britânicos “a concordar plenamente com a abolição da guerra aérea. Mas eles fizeram uma trapalhada. As negociações sobre desarmamento, descendo a minúcias, geralmente revelam perigos que não tinham sido notados antes e deixam seus participantes ávidos de ainda mais armamentos. Essa conferência não foi exceção à regra”.

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Enquanto o nazismo avança, líderes ingleses dirigem com olhos fixos no retrovisor

Princesa Elizabeth faz primeiro pronunciamento em rádio, 1940
Princesa Elizabeth faz primeiro pronunciamento em rádio, 1940

A designação de Hitler alemão como chanceler em 30 de janeiro de 1931 não causara no exterior nenhum alarme excessivo. O Terceiro Reich se instalou com aparente falaz suavidade – as peças se encaixaram facilmente, a partir de ações bem planejadas e rápidas que não deixavam margem a resistência: o incêndio do Reichstag em 27 de fevereiro — pretexto nazista para solapar o governo parlamentarista; as eleições gerais de 4 de março — que consolidou o poder nas mãos de Hitler; e o ato institucional de 23 de março, que autorizou o dirigente alemão a governar por decreto.

Em menos de dois meses, Hitler havia subvertido a frágil República de Weimar e assumido poderes de ditador absoluto, disfarçando o golpe de Estado sob uma fachada de legalidade. Enquanto sucediam tais fatos, os governantes da Inglaterra, dirigindo com os olhos fixos no espelho retrovisor, mantinham suas noções obsoletas do que era politicamente vantajoso e aceitável – posição que Hitler explorou com habilidade.

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O colapso dos valores civilizados empalidece a perseguição aos judeus

Crianças comemoram Natal em abrigo subterrâneo na cidade de Londres
Crianças comemoram Natal em abrigo subterrâneo na cidade de Londres

O grande maestro Bruno Walter, ex-regente da sesquicentenária Gewandhaus Orchester de Leipzig, ele mesmo judeu, disse que a perseguição aos judeus chegava a empalidecer em comparação com o colapso geral dos valores civilizados. A mudança tinha ocorrido com uma velocidade impressionante.

Como era possível que a Alemanha com sua música, sua cultura, tivesse sucumbido a esse pavoroso império da intolerância? Intolerância contra judeus, democratas, socialistas, comunistas, ciganos, eslavos, e todos aqueles que não aceitavam o credo de Adolf Hitler.

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Hitler executa os camisas-pardas, entre os quais o mais próximo que teve de um amigo

Em 1º de julho de 1931, os jornais noticiaram que Hitler ordenara a matança de centenas de camisas-pardas, seus seguidores, entre os quais o comandante dessas forças de assalto, Ernst Roehm, a coisa mais parecida com um amigo que ele teve. Foram todas execuções sumárias, só justificadas pela alegação infundada do próprio Hitler de que as vítimas tinham planejado um golpe contra ele

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Imprensa manipula: num dia decreta o fim do mundo, no seguinte, volta a banalidades

Mussolini saúda tropa que foi para a Etiópia (Abissínia)
Mussolini saúda tropa que foi para a Etiópia (Abissínia)

Em 4 de setembro de 1931, com a Liga das Nações prestes a realizar, já sem grandes esperanças, uma última reunião sobre a Abissínia (a Itália de Mussolini queria incorporar esse país africano, vizinho e enfraquecido), Virgínia Woolf observou em seu diário que os jornais diziam ser esse o dia mais crítico desde que o Rei George V declarara guerra em 1914.

Na véspera, quando a escritora foi a Londres, viu slogans pró-fascistas pintados nas paredes: “Não lute por estrangeiros. Bretão que cuide do que é seu” e depois um símbolo num círculo, a insígnia do raio circunscrito da British Union of Fascists, de Mosley.

Na manhã seguinte, caminhando com Leonard, o casal deu com uma agonia: uma cobra engolindo um o sapo, engolido até o meio e sugado bem devagar. Leonard, com uma vara, mexeu no rabo da cobra. Virginia teve a impressão de que a presa estava sufocando seu devorador, numa explosão de violência em câmera lenta que se gravou a fundo em seu íntimo. “A cobra enjoou com o sapo esmagado”, escreveu, “e eu sonhei com homens cometendo suicídio, pude ver um homem se atirando à água”.

Tais imagens – a Itália postada para engolir o indefeso vizinho, os slogans fascistas, a cobra e o sapo, depois um corpo na água, convergiam. Nessa noite, ouvindo no rádio, entre chiados, um programa sobre a recusa de Mussolini em negociar, Virginia sentiu um tremor de medo por seu país – reação inesperada já que não acreditava em patriotismo.

Na manhã seguinte, os jornais estavam menos melodramáticos, prevendo que a crise se arrastaria por algum tempo e hostilidades não eram iminentes, Sobre o tempo ventoso e o sombrio clima político, Virginia fez esta observação: “Vento violento e chuva; sol violento e luz, e eles continuam conversando, ameaçando, avançando e recuando em Genebra”.

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Homens confusos e as boas intenções que resultam em desastres

Atrizes do Teatro Windmill, Londres, nos bastidores após espetáculo, II Guerra Mundial
Atrizes do Teatro Windmill, Londres, nos bastidores após espetáculo, II Guerra Mundial

Virginia pensou na cobra e no sapo depois de assistir ao congresso anual do Partido Trabalhista, em 1º de outubro. O clímax do congresso surgiu com a discussão quanto à Inglaterra preparar-se, ou não, para apoiar sanções econômicas à força, se Mussolini invadisse a Abissínia.

O líder do partido, George Lansbury, falando pela velha escola de socialistas internacionais, apoiou nominalmente a Liga das Nações e seu sistema de segurança coletiva, mas se opôs ao mesmo tempo a sanções à Itália, que a seu ver aumentariam as possibilidades de guerra.

Leonard Woolf descreveu-o como “um desses homens bons, sentimentais, confusos e ligeiramente insinceros que, em teoria, têm pretensões tão boas e na prática fazem tanto mal”.

(…)

 
A autora escreve em português do Brasil
 

Leia a Parte 1/3

Leia a Parte 3/3, a publicar amanhã

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