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Quarta-feira, Julho 17, 2024

Como o papa Francisco virou o maior líder progressista do mundo

Jorge Bergoglio provavelmente não terá tempo nem força para derrotar dogmas católicos, mas deixa cristalizada mensagem de abertura e oxigenação da Igreja.

Ao completar dez anos de pontificado nesta segunda-feira (13), Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, evitou o tom de festa. Ao contrário: disse que não imaginava que seu papado coincidisse com o conflito entre Rússia e Ucrânia, ao qual chamou de “3ª Guerra Mundial”, já que “as grandes potências estão todas envolvidas”.

Os boatos sobre uma suposta renúncia voltaram, impulsionados, desta vez, pela debilitação de sua saúde. Aos 86 anos, ele já é um dos sete pontífices mais idosos na história. Bento 16, o antecessor, foi o primeiro papa a abdicar da chefia da Santa Sé em quase 600 anos. Francisco – que já chegou a negar peremptoriamente essa possibilidade – agora pondera. Segundo ele, o “cansaço” pode fazê-lo mudar de ideia, bem como “a falta de clareza, de saber avaliar as situações. Talvez um problema físico também”.

A sorte quase esteve lançada para Bergoglio oito anos antes, conforme uma reportagem publicada pela revista italiana Limes em 2005, pouco depois do conclave que definiu o sucessor de João Paulo 2º. Por aqueles anos, havia uma divisão interna na Igreja Católica entre duas alas: uma mais progressista, liderada pelo italiano Carlo Maria Martini, cardeal arcebispo de Milão; e uma mais tradicionalista e conservadora, encarnada por Joseph Ratzinger, braço direito de João Paulo. O Colégio de Cardeais se preparava para ver o racha refletido na definição do novo papa.

Só que Martini, com mal de Parkinson em estágio avançado, não estava em condições de concorrer. Assim, os votos anticonservadores no Conclave 2005 começaram a migrar para Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, que crescia a cada rodada da eleição e ameaçava o favoritismo de Ratzinger. No quarto escrutínio, porém, o cardeal argentino teria retirado seu nome da votação. O Vaticano jamais confirmou a história, mas é tudo como disse o “herege” Giordano Bruno: “Se non è vero, è molto ben trovato”.

Para ficarmos rigorosamente nos fatos, foi só no conclave seguinte que Bergoglio se tornou sumo pontífice. Em 13 de março de 2013, quando a fumaça branca subiu pela chaminé da Capela Sistina, na Praça de São Pedro, a História estava revirada. “Sou um grande pecador. Confiando na misericórdia e na paciência de Deus, no sofrimento, aceito (ser papa)”, disse o religioso argentino ao cardeal Giovanni Battista Re. A Igreja ganhou seu primeiro líder máximo nascido na América e no Hemisfério Sul, o primeiro papa jesuíta e também o primeiro papa a se chamar Francisco.

A escolha do nome já sinalizava os rumos do papado. A doutrina da pobreza radical e da simplicidade, propagada por São Francisco de Assis (1181/82-1226), foi a base de Francisco ao longo dessa década à frente da Igreja Católica. A reputação de “papa dos pobres” veio em boa hora.

Na visão de Francisco, a exemplaridade desses conceitos precisa estar presente não só nas palavras – mas nos gestos, no vestuário, nas acomodações, no entorno. Daí a troca da luxuosa residência no Palácio Apostólico pela casa de hóspedes do Vaticano. Daí os sapatos e os óculos que parecem ter anos e anos de uso a fio. Na Era Moderna, não houve pontífice tão distante do figurino convencional. Nascido na periferia de Buenos Aires a poucos dias do Natal de 1936, Bergoglio suavizou o pontificado.

A modéstia fora dos padrões recebeu críticas de setores da Igreja. Para esses detratores, a imagem “excessivamente humanizada” do Santo Padre lhe rende popularidade, mas é contraditória com o dogma da “infalibilidade papal”. A voz que ecoa da Santa Sé não poderia ser cercada de tamanho desprendimento, dizem as línguas anti-Francisco.

Pesa contra tais críticos, no entanto, a coerência entre o modo de vida pessoal tão sóbrio e a proposta de religiosidade que o papa oferece. Um ponto em comum às encíclicas assinadas por Francisco – Lumen Fidei (“A Luz da Fé”, 2013), Laudato Si’ (“Louvado Sejas”, 2015) e Fratelli Tutti (“Somos Todos Irmãos”, 2020) – é a preocupação com a natureza, o chamamento a uma “conversão ecológica” consciente dos fiéis. Não se respeita o meio ambiente, diz o papa, se o estilo de vida foi perdulário ou fútil.

“É previsível que, ante o esgotamento de alguns recursos, se vá criando um cenário favorável a novas guerras, disfarçadas sob nobres reivindicações”, enuncia a Fratelli Tutti. Embora ideias de Bento 16 estejam presentes nas encíclicas, especialmente na Lumen Fidei, é difícil dissociar as mensagens do “papa dos pobres”.

A definição de temas menos constantes no mundo religioso é um dos meios pelos quais Francisco dialoga de modo mais próximo com seus contemporâneos. Hoje, apenas 17% da população mundial se professa católica – algo como 1,38 bilhão de fiéis num total de 8 bilhões de habitantes.

Francisco faz acreditar que a Igreja encolheu menos pela força de concorrentes como os islâmicos no mundo ou os evangélicos no Brasil – e mais pela dificuldade em se sintonizar com o século 21. Por isso, o papa tomou para si o desafio de tornar a Igreja o mais universal possível, a começar pelos cardeais.

A composição do conclave que o elegeu era uma amostra das assimetrias na cúpula católica. Entre os 117 cardeais eleitores, nada menos que 61 eram europeus (sendo 21 italianos). Os demais se dividiam em 19 latino-americanos, 14 norte-americanos, 11 africanos, 11 asiáticos e um da Oceania. Em dez anos, Francisco ampliou em mais de 50% a participação de não europeus.

Para o historiador Massimo Faggioli, o pontífice argentino chegou lá. “Está claro que Francisco é o primeiro papa realmente global. É um papa não ocidental que libertou a religião das ideias de uma classe média moralista burguesa que ainda definiam o que é catolicismo”, afirmou Faggioli à DW.

Num mundo onde a extrema-direita avança, Francisco desponta como o maior líder progressista. Um de seus primeiros feitos, ainda em 2014, foi mediar as tratativas entre Barack Obama e Raúl Castro para buscar a reaproximação entre Estados Unidos e Cuba, visando ao fim do criminoso bloqueio norte-americano. O acordo, iniciado com uma troca de prisioneiros, teve avanços, mas foi barrado quando Donald Trump chegou à Casa Branca.

Em visita à Bolívia, em 2015, Francisco fez seu mais contundente pronunciamento anticapitalista. Além de acusar o sistema de praticar uma “ditadura sutil”, ele disse que o capitalismo impõe “a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza”. O papa exortou “os mais humildes, os explorados, os pobres e os excluídos” a se organizarem: “Não se acanhem!”.

Francisco também é, de longe, o pontífice que mais estimulou o movimento sindical. Nos não tão distantes anos 1980, João Paulo 2º se engajou publicamente na luta para o fim do socialismo e criticou a luta de classes. “Devem unir-se (em comunidade) tanto aqueles que trabalham como aqueles que dispõem dos meios de produção ou que dos mesmos são proprietários”, afirmou em uma encíclica, que repudiava qualquer ligação dos sindicatos com partidos políticos.

Ao tratar da relação entre capital e trabalho, Francisco inverte esse ponto de vista e põe o sindicalismo como elemento-chave. “Não existe uma boa sociedade sem um bom sindicato – e não há um bom sindicato que não renasça todos os dias nas periferias”, disse o papa em 2017. Cinco anos depois, ele renovou o voto de confiança: “Não há sindicato sem trabalhadores e não há trabalhadores livres sem sindicatos”.

Da mesma maneira, não faltam momentos e citações para comprovar o legado avançado de Francisco. Seu papado provavelmente não terá tempo nem força para derrotar dogmas católicos, mas já deixou cristalizada uma mensagem de abertura e oxigenação da Igreja. Como resumi-la?

Há uma sequência de Dois Papas (2019) – o ótimo filme de Fernando Meirelles – em que Bento 16 (Anthony Hopkins) tenta convencer Jorge Bergoglio (Jonathan Pryce) a sucedê-lo no cargo máximo da Igreja Católica. A cena é ambientada no Vaticano, em 2013, pouco antes do surpreendente anúncio da renúncia do pontífice alemão.

“A Igreja precisa mudar, e você pode ser essa mudança”, diz o papa ao então cardeal argentino. “Eu não. Nunca. E você sabe por quê”, resiste Bergoglio. Há fantasmas que o atormentam – e o pecado maior ocorreu sob os horrores da ditadura argentina (1976-1983). Bergoglio era o chefe dos padres jesuítas num momento em que o regime perseguia, prendia, torturava e matava lideranças religiosas progressistas. “Deveria tê-los protegidos. Mas eu falhei”

Bento, no entanto, rechaça Bergoglio. “Todos sofremos de orgulho espiritual – todos nós. Mas lembre-se: você não é Deus”, afirma o papa. “Em Deus nos movemos e sobrevivemos. Vivemos em Deus, mas não somos tudo – somos só humanos. Então, se me permite, meu filho, precisa acreditar na misericórdia que prega.”

Como se sabe, esse encontro no Vaticano jamais ocorreu. Dois Papas é um filme de ficção, embora habilmente inspirado em discursos e encíclicas dos dois pontífices. Mas o hipotético sermão de Bento parece uma síntese do que Bergoglio tentou passar ao longo de sua trajetória religiosa e, em particular, de seu pontificado. Há pouca coisa mais revolucionária do que acreditar no que se prega – e, convenhamos, esse ensinamento é útil não apenas para os católicos.


por André Cintra, Jornalista | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

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