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Quarta-feira, Janeiro 26, 2022

Da erradicação da pobreza à erradicação dos pobres

Arnaldo Xarim
Economista

Ao longo da história registada da humanidade e ainda que possa parecer absurdo, os tempos de incerteza, como os que vivemos, são tempos razoavelmente normais. Não vão nada distantes aqueles em que a incerteza da sobrevivência diária era a norma; uma norma que o desenvolvimento industrial do Ocidente tornou possível esquecer nesta parte do mundo, mas que em boa parte dele se mantém, especialmente naquela que sistematicamente se vê dilacerada por conflitos e outras formas de catástrofes mais ou menos naturais.

Mas a incerteza que hoje grassa no Ocidente tem que ser vista e entendida além da que resulta da Covid-19; as tentativas de regresso a alguma da normalidade pré-pandemia, por mais frustrantes que possam ser, não podem esconder as reais e imaginárias ameaças que se vinham a fazer sentir. Há décadas que ouvimos falar dos “perigos” do mundo não ocidental apostado em destruir a “nossa identidade” e o “nosso modo de vida”, da crescente obsessão ambiental e o consequente abandono de um pensamento social e humanista, das crescentes dificuldades dos nossos sistemas sociais esmagados sob o peso de décadas de desinvestimento liberal, agravado pelo envelhecimento da geração dos baby boomers e pelos custos adicionais que a pandemia está a implicar, do progressivo distanciamento ocasionado pelo movimento de fronteiras e a dissolução de relações originadas pelos mundos virtuais e pelo controle da informação que relançou o processo clássico de desumanização do “outro”, do que é diferente ou pensa de forma diversa.

As incertezas e as inseguranças ocidentais, reais ou fomentadas, têm contribuído para a construção de cenários de declínio que tudo acompanham e que pressupõem, sem nunca o referir explicitamente, um declínio demográfico; este pessimismo assim instalado alimenta-se tanto pelo sentimento de crescente desconfiança para com os não ocidentais, como pela consciência que esse sentimento está a justificar a desumanização e o desinteresse pelos seus problemas e dificuldades, não sendo pois de estranhar o mais que provável grande crescimento do número de mortes, nessas áreas do planeta, pelas mais variadas razões, que vão do colapso dos sistemas sociais ao aumento das tensões geopolíticas que são já hoje uma realidade. Até no Ocidente um recente estudo da Universidade de Oxford calcula uma queda média na expectativa de vida em 29 países (principalmente da Europa e dos EUA) de pelo menos 6 meses entre 2019 e 2020 e segundo os autores naquele resultado nem tudo será explicado pela Covid-19.

As situações de fome voltaram a crescer, depois de duas décadas em que regrediram graças à redução da pobreza na China, com a UNICEF a estimar que a situação aflige quase 10% da população mundial no último ano e a ONU a contabilizar recentemente a existência de 45 milhões de pessoas no seu Programa Mundial de Alimentos, contra 27 milhões em 2019, devido a vários motivos que vão alem da Covid-19, como sejam os conflitos, as mudanças climáticas, a subida dos preços dos combustíveis, dos fertilizantes e das sementes.

Talvez a verdadeira dimensão deste problema tenha começado a ser revelada quando dados da OXFAM, de Julho deste ano, apontam para que as situações de fome no Mundo provoquem maior número de fatalidades que a Covid-19, embora sejam estas que continuam as fazer as manchetes da imprensa, ou não se dê o caso de a Covid matar indiscriminadamente enquanto a fome mata apenas os pobres… até ver!

A crise da cadeia de abastecimentos, potenciada pela pandemia e pelas interrupções na produção e na distribuição, será obviamente mais sentida e devastadora nos países pobres, mas até no Ocidente já vão havendo notícias de falta de produtos nas grandes superfícies, não sendo completamente absurdo admitir que a conjugação de uma subida na inflação, com interrupções no abastecimento e falta de alimentos possam conduzir a uma catástrofe humanitária até no “país mais rico do mundo”. Nos EUA a proporção de habitantes em situação de insegurança alimentar andará pouco acima dos 10%, enquanto na Europa, região que ainda beneficia de alguma rede de segurança social, estima-se em 7% a média da população assim afectada, mas a desigualdade na sua distribuição esconde realidades diversas, havendo países onde o valor não ultrapassa os 3,5% enquanto noutros atingirá uns preocupantes 20%.

Perante este futuro pouco risonho, a imprensa ocidental começa a antecipar um agravamento da crise alimentar que sistematicamente associa à crise climática, nunca às políticas de deslocalização da produção ou de cultura intensiva, contra a qual são apresentadas como soluções a redução da população e o empobrecimento geral que ajudem a financiar miríficos futuros tecnológicos desenhados pelos arquitectos das políticas e das soluções que nos trouxeram até aqui.

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