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João de Sousa

Sábado, Setembro 25, 2021

Dalila Rocha

Helena Pato
Antifascistas da Resistência

1920 – 2009

Foi uma excepcional actriz cujo percurso se cruzou, sobretudo, com o do Teatro Experimental do Porto, nos primeiros anos, e com o da Cornucópia, na parte final da sua carreira.

Dalila Rocha era uma mulher de grande dignidade, que privilegiava a ética e que pugnava pela «verdade no teatro», recusando-se a adulterar o que considerava a verdadeira dimensão do teatro. Foi justamente aplaudida e aclamada pela crítica e nunca aceitou ser conivente com a situação política existente antes do 25 de Abril.

Teve alguns períodos de afastamento dos palcos para não pactuar com um “teatro” que condenava como “arte da mentira”.

«O seu teatro era uma arte de profunda devoção, de afã estudioso, de um aprofundar milimétrico da sua verdade, e não se compaginava com o efeito fácil, as palmas ignorantes e ganhos materiais substanciais. O seu teatro era um acto cultural e não um efeito de lazer ou de mentira pretensamente artística, para mais-valias financeiras. O seu teatro não era aquele que procurava o lucro fácil e a candidatura a “indústria”, mas aquele que subvertia criticamente o rame-rame de uma sociedade que era necessário mudar para melhor, e nunca deixá-la ficar como estava.»

Cidadã interessada nos problemas que, durante a Ditadura, se levantavam na Cultura e na vida do povo, integrou o Movimento de Unidade Democrática (MUD) e manifestou-se veementemente contra a censura e pela liberdade de expressão. Na Resistência, e até ao seu falecimento, foi militante do PCP.

Biografia

Dalila Ferreira de Sousa Rocha nasceu em São Pedro de Loureiro (Peso da Régua), em 24 de Agosto de 1920, e faleceu no Porto, em 28 de Julho de 2009. Era filha de Manuel Ferreira, e de Alice dos Anjos, uma professora que foi colocada na Escola Primária de S. Félix da Marinha (Vila Nova de Gaia), no final dos anos vinte. Por isso, Dalila foi viver para Gaia e depois para o Porto, para frequentar o Liceu Carolina Michaelis, onde viria a concluir o 5º ano.

Aos vinte anos foi trabalhar para os Correios como telefonista, no Porto, e aí permaneceu até à sua profissionalização no teatro, em 1955 (mais tarde, nos anos setenta, voltaria aos Correios, para não se submeter ao “teatro que combatia”).

Era ainda funcionária dos Correios quando se aproximou do Circulo de Cultura Teatral e frequentou o primeiro curso de teatro dirigido pelo grande Mestre António Pedro.

Foto de Fernando Aroso tirada no camarim do Cine-Teatro S. João, quando se preparava para a estreia de “É Urgente o Amor” de Luiz Francisco Rebello

Tinha 32 anos no dia da estreia do seu primeiro espectáculo no TEP. Sob a direcção de António Pedro, iria integrar a grande revolução estética que este operou no Teatro Português, com a introdução da encenação moderna e o sentido da unidade do espectáculo.

No dia 18 de Junho de 1953, fez parte do elenco que inaugurou a actividade do TEP, no Teatro Sá da Bandeira. A companhia dirigida por António Pedro (1909-1966) levou, então, à cena três peças e Dalila Rocha foi actriz em duas delas: A “Nau Catrineta”, na versão de Egito Gonçalves, e em “Um Pedido de Casamento”, de Tchekov.

Aí actuou entre 1953 e 1961, primeiro como amadora (1953-1957) e depois como profissional. Foi no TEP que teve a direcção mais apaixonante da sua carreira de actriz, a de António Pedro, e que formou com João Guedes o par mais relevante do teatro português do século XX, sob a direcção de António Pedro. Curiosamente, ambos haviam tido a sua estreia em 18 de Junho de 1953, no TEP.

Em 1961 António Pedro demitiu-se do TEP, mas Dalila Rocha prosseguiu a sua actividade na companhia até Janeiro de 1964, onde além de novas grandes criações se estreou, também, na encenação.

Em 1964 foi convidada por Amélia Rey-Colaço para integrar o elenco do Teatro Nacional, mas foi impedida pelas autoridades por não ser afecta ao regime.

Tendo começado aos 33 anos uma carreira teatral exemplar (com António Pedro), foi-lhe muito difícil, após a saída do TEP, prosseguir com a sua actividade regular até encontrar Luís Miguel Cintra e a Cornucópia. Modesta na profissão, anti-vedeta, fez grandes protagonistas no teatro, mas, também, pequenos papéis, sempre que reconhecia o valor dos encenadores que a dirigiam.

Dalila Rocha com Luís Miguel Cintra em A Ilha dos Escravos de Marivaux, no Teatro da Cornucópia. Fotografia de Paulo Cintra

De uma grande verticalidade, nunca pactuou com aquilo a que chamava a “vigarice teatral”, ou seja, a falta de ética de alguns dos seus fazedores. Só se sentia bem “no seu TEP” e, anos depois, “na sua Cornucópia”, que só abandonou em 1985, quando se reformou da actividade teatral – após fazer a Duquesa de York, do Ricardo III, de Shakespeare – e foi viver para o Porto, num isolamento assumido e raramente interrompido.

Em 1996 foi nomeada Sócia Honorária do CCT/Teatro Experimental do Porto. No dia 18 de Junho de 1998, data em que se completavam 45 anos sobre a estreia do primeiro espectáculo de Dalila Rocha e do TEP, e no mesmo teatro em que ele acontecera – Teatro Sá da Bandeira (Porto) – teve lugar uma homenagem à actriz. Nesse dia, foi apresentado publicamente o livro “Dalila Rocha – Homenagem” –  Uma edição coordenada por Júlio Gago, com fotografias de Fernando Aroso, depoimentos de 46 personalidades, e edição da Fundação Eng. António de Almeida. Para a edição deste livro, Júlio Gago recolheu depoimentos de figuras relevantes da Cultura Portuguesa. (Ver notas 1 e 2)

Deixou-nos personagens memoráveis, inesquecíveis, tais como: Linda Loman, em “A Morte de um Caixeiro Viajante”, de Arthur Miller; Antígona e Artemísia, nas duas versões de “Antígona”, de António Pedro; Lady Macbeth, em “Macbeth”, de W. Shakespeare; Sevadilha em “Guerras do Alecrim e Manjerona”, de António José da Silva (O Judeu); Maria do Mar, na “Promessa”, de Santareno; Mary Cavan Tyrone, na “Jornada Para a Noite”, de Eugene O’Neill; Branca em “É Urgente o Amor”, de Luiz Francisco Rebello; Pôncia do Rosário em “O Morgado de Fafe Amoroso”, de Camilo Castelo Branco; Temple Drake, no “Requiem”, de Faulkner.

Entrou ainda nas peças: “Gota de Mel”, de Léon Chancerel ; “Mar”, de Miguel Torga; “A Mordaça”, de Alfonso Sastre; “Todos Eram Meus Filhos”, de Miller; “Jorge Dandin”, de Molière.

Dalila Rocha na interpretação Mary Cavan Tyrone, de “Jornada para a noite” de Eugene O’Neill- Foto de Fernando Aroso

Dalila Rocha encenou três peças no TEP, num espectáculo que foi considerado apenas um, dado serem todas de um acto: “A Sombra da Ravina”, de J. M. Synge; “Falar Verdade a Mentir”, de Almeida Garrett; e “A Lua e a Outra”, de Isabelle Schreiber (peça que foi estreada depois, mas incluída neste espectáculo).

Entrou em três filmes: – “Fragmentos de um Filme – Esmola”, de João César Monteiro; – “Brandos Costumes”, de Alberto Seixas Santos (o segundo, estreado em 1975, embora tivesse filmagens em 1973, que vieram a ser alteradas na sequência do 25 de Abril). – “Novas Perspectivas”, de Solveig Nordlund ( a partir do espectáculo da Cornucópia, com texto de Franz Xaver Kroetz, desempenhando o papel da Senhora que falava sozinha com os passarinhos – estreado em 1984).

Trabalhou no Teatro Villaret, de Lisboa. Actuou em diversas peças nos estúdios da TV, em Lisboa e no Porto.

Foi homenageada pelo FITEI (1990) e no XXI Festival de Teatro de Almada (2004); Jorge Silva Melo dedicou-lhe “Coriolano”, de W. Shakespeare (1998); recebeu a Medalha de Mérito Municipal – Grau Ouro, da Câmara Municipal do Porto (2004), no mesmo dia em que o CCT/TEP recebeu igual galardão.
Faleceu no Porto a 28 de julho de 2009.

Notas finais de Júlio Gago, Director do TEP e grande amigo de Dalila Rocha

  1. «Uma mágoa me ficou para sempre – a de não ter havido o texto do meu querido e sempre lembrado amigo José Cardoso Pires, igualmente amigo da Dalila. Na véspera da data em que me comprometera a entregar a planificação do livro, telefonei-lhe, à noite, dizendo-lhe: – “Zé, preciso do teu depoimento amanhã ou não o poderei inserir”, ao que ele me respondeu: – “Está descansado; amanhã, envio-te por fax”. Infelizmente, nunca chegaria… No dia seguinte, soube do internamento dele, do qual já não voltaria à vida activa…»
  2. «Propus-lhe, dias antes, um jantar que reunisse gente que cruzou o seu percurso com o dela, amigos e familiares e o então elenco do TEP, o que recusou. Sugeri-lhe, em alternativa, um jantar apenas com a família dela. Também, não quis, afirmando que o jantar teria apenas duas pessoas – eu e ela; depois, iríamos para o teatro. Perguntei-lhe, então: – “Qual o restaurante que preferes?”. Claro que fomos ao Abadia, deixar cair algumas lágrimas, pois aquela porta em frente, já não tinha o Teatro António Pedro, que fora de Algibeira, e, também, de Bolso.»
  3. «Conheci a Dalila em criança, fomo-nos encontrando ao longo da vida sem nunca trabalharmos juntos, mas, acompanhei-a, mais de perto, nas duas últimas décadas da sua vida, até surgir aquele dia 28 de Julho de 2009. Foi um dos momentos mais tristes da minha vida. Dois dias antes, tinha estado a visitá-la na Ordem da Trindade, no Porto, e ainda conversámos um bom bocado, em partilha de confidências. Mas, no dia que citei, logo pela manhã, telefonou-me o Raúl, o seu único filho, dizendo: “Acabou!”, nunca me esquecerei dessas palavras» (…) Foi uma grande honra para mim, a amizade da Dalila, as longas conversas que fomos tendo, na Rua de S. Tomé ou pelo telefone, e a confissão que me fez, anos antes de partir: – “Tu e o Luís Miguel Cintra são os meus amores”. Sei que era de nós os dois que ela esperava sempre uma palavra, um gesto, um telefonema, um carinho, para além dos que lhe davam o filho, a nora e os dois netos. O Mário Bonito, o grande amor da sua vida, falecera em 1976… ».
  4. «Faz hoje, dia 25 de Fevereiro, dois anos que escrevi esta nota, na minha cronologia, sobre uma das melhores actrizes portuguesas dos últimos 100 anos; uma das minhas melhores Amigas, com uma Amizade que se foi fortalecendo cada vez mais nos últimos anos da Vida dela; uma cidadã integra, sempre firme na luta antifascista (amando o seu Partido Comunista Português, até aos últimos minutos) e preferindo sempre trabalhar em projectos que lhe interessavam, a sujeitar-se a qualquer regra que ultrapassasse o que defendia como Cultura e Cidadania. (…)»

Biografia da autoria de Helena Pato, a partir de:

Pessoas que fizeram História – Dalila Rocha
Dalila Rocha
Lembrando Dalila Rocha
Lembrando Dalila Rocha

As fotos que integram esta biografia pertencem a Júlio Gago bem como as respectivas legendas.

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