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Sábado, Setembro 18, 2021

De Trump a Giuseppe Verdi passando pela Babilónia

Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

DO AVESSO

A nova embaixada dos EUA em Israel, não sendo nova – toda a tralha dos arquivos é a mesma e, tanto quanto sabemos, até boa parte do pessoal se mantém – traz como novidade a sua localização, agora em Jerusalém, e sobretudo o ressuscitar de ideias perdidas e algumas moderadamente aplacadas.Naturalmente, no âmbito dos estudos académicos, ressurge o interesse por algumas coisas meio adormecidas e a pesquisa volta a virar os olhos sobre papéis antigos – e , com surpresa, a fazer novas descobertas.

Assim, a comunidade científica – coisa interessante, interessada, mas de um mundo à parte como os 69 satélites de Júpiter ou as novas luas de Saturno – está a debater uma descoberta recente, revelada agora mesmo: dois arquivos cuneiformes (a escrita cuneiforme foi desenvolvida pelos sumérios, sendo a designação geral dada a certos tipos de escrita feita com auxílio de objetos em formato de cunha e daí o nome) trouxe uma nova visão sobre os judeus na Babilónia. Trata-se de dois arquivos, recentemente publicados, onde se produz uma nova perspetiva de interpretação dos judeus exilados na Babilónia.

Um desses arquivos foi revelado por escavações do início do século XX, ficando todavia inédito durante quase um século. Reúne um conjunto de textos administrativos, onde é possível entender pormenores como as porções de ração entregues aos judeus exilados naquele território, e referem o rei Joaquim e a sua família, e membros da sua corte. Durante o reinado do rei Joaquim, Nabucodonozor II, rei da Babilónia, atacou Jerusalém. Joaquim rendeu-se e teve de pagar-lhe um tributo durante três anos.

A nós, a história chegou-nos de forma mais alindada, quando Giuseppe Verdi leva ao palco do La Scala de Milão a obra Nabucco, em 9 de março de 1842.  Uma ópera de êxito, que consolidou a fama de Verdi, e que o reconciliou, de certa forma, com a vida, pois foi o regresso ao trabalho depois de profunda depressão causada pela morte de Margherita, sua mulher, em 1840. Conta a lenda que as palavras da famosa frase do coro dos escravos hebreus – Va pensiero, sull´ali dorate – “Voa pensamento em asas douradas”  foram as que lhe deram força para superar a dor da perda da mulher e para compor uma das mais famosas tragédias líricas da história da música.

O segundo arquivo agora “descodificado” provem da antiga Al-Yahaud – literalmente: a cidade de Judá – , nome babilónico de Jerusalém, pelo que os textos provêm de uma cidade mesopotâmica, para ser fiel à verdade. São duzentas tabuinhas, cobertas por escrita cuneiforme, onde se registam episódios da vida quotidiana dos judeus exilados, desde a forma como pagavam impostos até a contratos de aluguer. Ora isto prova que não eram escravos  – como se tem admitido até agora – mas apenas dependentes do Estado babilónico, o que equivale a dizer que conservavam a sua identidade como grupo, sem restrições de maior.

Quem quiser saber pormenores de boa qualidade sobre esta época e seus temas, tem de deslocar-se ao Museu das Terras Bíblicas de Jerusalém e apreciar uma oferta cuidadíssima de uma história ponderosa, utilizando para isso recursos de multimídia inovadora e animações originais que aumentam a experiência do visitante.

No Museu das Terras Bíblicas de Jerusalém “A história da destruição, exílio e a procura de Sião” ” é contada através dos olhos de Haggai, filho de Ahiqam, um descendente direto dos exilados, e habitante da Judeia de quarta geração em Al-Yahudu. Haggai leva os visitantes pela exibição através de curtas-metragens (filmes de animação criados especialmente para a exposição). “

O documento mais antigo em exibição do arquivo de Al-Yahudu, escrito apenas 15 anos depois da destruição de Jerusalém, permite entender muito das vidas dos habitantes da Judeia no exílio, as suas relações com os governantes babilónicos, e a estrutura social da população judaica da Babilônia.

A arqueologia local do período do Primeiro Templo ilustra a destruição de Jerusalém, sendo que o exemplo mais forte é uma jarra grande e deformada que foi curvada pelo calor do fogo que queimou completamente a cidade em 587 a.C.

Imagem de destaque: Cena de Nabucco, de Verdi. Crédito: Marty Sohl/Metropolitan Opera

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90

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