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Quinta-feira, Dezembro 9, 2021

Deixem as crianças sossegadas! II

Rogério V. Pereira
Estudou Engenharia Química no Instituto Superior de Engenharia de Lisboa. Começou a trabalhar como Técnico de Organização Industrial e terminou no topo da carreira, como sénior manager, nas áreas da consultoria em organização e gestão.

Não há muito tempo atrás, dava eu conta de que uma organização privada, agora aceite pela nova competência autárquica (municipalização da educação), desenvolve em sala de aula uma converseta marada, de introdução ao deus-nos-valha e a introduzir as crianças no ideário do neo-liberalismo.

E confessava ter-se-me arrepiado a espinha por a tal entidade privada ir levar ao ensino público, a crianças do 3º e 4º anos, temáticas como “a importância da moeda e dos bancos, meios de pagamento, crédito, seguros e planeamento e gestão de um orçamento familiar. Desta forma, procura sensibilizar as crianças para as questões da sustentabilidade e cidadania.”

Passaram poucos dias e eis que outra entidade privada entra pela escola pública adentro e às crianças do 1º ciclo do ensino básico, também das escolas lá do meu sítio, estão distribuindo kits.

Kits de quê e para quê? Para recuperar os jogos tradicionais? Levar para o recreio os jogos de rua? Para desenvolver o prazer lúdico de jogar em grupo? Para aprender a esperar até chegar a sua vez de jogar? O kit mágico que ensina o respeito pelo outro na descoberta da sua própria individualidade?

Não, nada disso! O que a autarquia está a financiar é um kit que visa a promoção do empreendedorismo nos estabelecimentos de ensino com o objectivo de formar, educar e sensibilizar as crianças e os jovens para uma cultura do empreendedorismo e a desenvolver competências e atitudes diferenciadas ao nível da criatividade, autonomia, cooperação e capacidade de adaptação perante situações novas.

Não podia a escola esperar pela idade da adolescência, período onde a individualidade do ser se afirma? Ou até esperar um pouco mais, naquela idade em que está desenvolvido o estar social e também a compreensão das regras da repartição do trabalho, da cooperação organizada?

E, já agora, empreendedorismo… o que é que é isso? A pergunta não é despropositada pois lembro que na última sessão da  XXV Cimeira Iberoamericana, Lina (da Colômbia) e Alejo (de Cuba) partilham a leitura pública do “Manifiesto – Iberoamérica Emprende Desde La Universidad”, elaborado por 22 jovens, estes rejeitavam conceitos, não só ultrapassados como perigosos. Traduzo, a ilustrar isso mesmo, a passagem:

«Estamos empenhados num empreendedorismo inclusivo, sustentável e social, numa equipa de empreendedorismo, longe dos modelos individualistas e egocêntricos do passado. O velho estereótipo do empresário solitário contra as adversidades do mundo deixou de ser válido. O Empreendedorismo no século XXI se faz em equipas multidisciplinares, multiculturais e intergeracionais.»

(texto do “Manifiesto“)

Quanto às crianças, deixem-nas sossegadas! E pensem que a escola pode ser outra coisa, como eu lembrava num vídeo colocado lá no meu lado e que reproduzo

Nota do Director

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