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Quinta-feira, Janeiro 20, 2022

A derrota do sucesso

Mendo Henriques
Professor na Universidade Católica Portuguesa

Muita água correrá debaixo das pontes do Tamisa até surgir uma solução. Mas uma coisa é certa. Os critérios para explicar o fenómeno do Brexit não são económicos, nem financeiros nem sequer políticos mas sim culturais e vão até ao tutano do ser humano.

Faculdade de Ciências Humanas, Universidade Católica Portuguesa
Faculdade de Ciências Humanas, Universidade Católica Portuguesa

Desde 23 de Junho desenrola-se um espectáculo tão agitado quanto uma tragédia de Shakespeare, alimentado pelos demónios à solta da xenofobia, ganância, ressentimento e traição, e de uma falta total de bom senso e pragmatismo, tudo isto no país europeu que julgávamos corresponder a este estereótipo

O poema Waste Land de T. S.Eliot aplicou-se nos anos 20 a uma sociedade devastada pelos desastres da Grande Guerra. Um século depois, a minha percepção do que se passa em Inglaterra é que uma sociedade também é devastada pelo sucesso.

Nenhuma praça financeira é tão orgulhosa quanto a City de Londres onde trabalham mais de meio milhão de pessoas. A City só tinha a ganhar em ficar na Europa. Mas a City perdeu no referendo.

Nenhuma monarquia europeia parece tão legítima e enraizada quanto a britânica. Mas a rainha Isabel II arrisca-se a ser a última do Reino Unido se a Escócia quiser ser independente e europeia.

E, sobretudo, nenhum povo europeu tem a reputação de ser tão democrático quanto os britânicos. Contudo, o dia 23 mostra o pior da democracia como ditadura da maioria que vai buscar legitimidade ao grotesco abuso de poder da maioria conjuntural.

Se uma maioria – mesmo qualificada – votasse restabelecer a pena de morte, quem acharia legítimo? 75% dos jovens britânicos votaram pela Europa e claro que são contra o fim de direitos como a liberdade de circulação no espaço europeu.

A democracia nunca deve ser uma ditadura da maioria, seja na região da Madeira, na Coreia do Norte, ou no Reino Unido. Não pode sujeitar-se a decisões conjunturais que se contradizem. O 1º referendo ao Brexit disse Não. O 2º disse Sim. Quase 5 milhões já pediram um 3º referendo mas seria ridículo e gravoso seguir esse caminho.

Uma consulta popular com implicações constitucionais exige uma maioria qualificada. E as constituições democráticas restringem algumas opções legislativas a fim de proteger pessoas e minorias. Em nome do bem comum que não pode ser destruído por demagogos.

Mas foi isso mesmo que sucedeu no 23/6. Após uma campanha de mentiras e xenofobia do lado dos Brexiteers e após uma campanha mole do Remain, a apontar os males da saída e nunca os benefícios da União. Boas razões havia de ambos os lados. Há sempre. Chama-se política.

Creio que ainda ninguém assinalou que o 23 de Junho é o Midsummer’s night dream, o sonho de uma noite de S. João, com uma galeria de personagens dignas de Shakespeare.

A Midsummer Night's Dream - "The Reconciliation Of Oberon And Titania" by Joesph Noel Paton
A Midsummer Night’s Dream – “The Reconciliation Of Oberon And Titania” by Joesph Noel Paton

David Cameron demitiu-se na manhã de 24. Tem muitas culpas no cartório. No início terá sido um “Blair dos Conservadores”. Mas a ambição levou-o a propor um novo referendo para roubar votos ao UKIP. Agora vai atravessar o deserto.

O carismático Boris Johnson demitiu-se no dia 27. Após sair de mayor de Londres, passou-se em Fevereiro para o Leave. Seria o herdeiro de Cameron. Mas logo a 24, sem fazer declarações e vaiado percebeu que era um rato numa armadilha.

Nigel Farage, o ex-dirigente do UKIP da extrema-direita, mostrou um grau de irresponsabilidade total. No dia 24 começou a negar as promessas do Brexit. A 5 de Julho foi-se embora, com a sua fatiota bem engomada e o ar de palerma. Foi o tiro final no porta-aviões.

Jeremy Corbin, um dinossauro socialista que não aprende nem esquece nada deixou que o seu eleitorado trabalhista, farto de sofrer, desse a vitória ao Brexit. Deverá ser o próximo a demitir-se.

Michael Gove, Teresa May e outros talibans Conservadores que traíram o seu líder, David Cameron, irão disputar a liderança. São verdadeiras bruxas de Macbeth a preparar o cálice de veneno.

Caso o Brexit avance, fica à vista o desastre: o desinvestimento, a queda da libra, a independência da Escócia, os problemas das fronteiras da Irlanda, de Gibraltar, de Calais, a montanha de nova legislação… a lista é grande.

O resultado do referendo não é vinculativo. O Parlamento pode decidir de outro modo. Quem vai despoletar a granada do artigo 50? Quem quererá fazer o harakiri britânico ?

Quem mais depressa entendeu que nem tudo estava decidido em Inglaterra foi a chanceler Angela Merkel. Desmentiu as declarações duras e estúpidas da reunião dos Seis no Luxemburgo e veio abrir a porta a um estadista razoável em Inglaterra.

Há quem goste de esquecer que a Alemanha actual é a nação europeia que bebeu até ao fim, com Hitler, o cálice do populismo. Por isso proíbe os referendos na sua Constituição e recusa a ditadura das maiorias.

Neste momento, resta esperar que se erga alguém do Partido Conservador com a coragem de dizer que o Brexit é um crime contra a história da Inglaterra e contra a Europa das nações.

Os ingleses hão-de recuperar mas têm pela frente o ano mais longo das suas vidas. Apesar de tudo é o país de Churchill e de Shakespeare. De estadistas capazes de decisões corajosas e anti populistas e de gente capaz de parar para pensar, como só a cultura é capaz.

O Brexit não foi bom nem mau: foi a consequência de uma sociedade degradada até ao tutano pelo sucesso aparente, da sua libra orgulhosa, das suas instituições tradicionais. Mas nada disso vale quando desaparece aquele espírito de sacrifício, abnegação e bem comum que faz as nações viver.

A finalizar. O lado bom deste mal inglês, desta derrota do sucesso, foi ter alertado para o outro mal crónico da Europa: o pangermanisno. Mas esse fica para o próximo artigo.

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