Diário
Director

Independente
João de Sousa

Quinta-feira, Julho 7, 2022

Desigualdades salariais agravam crise económica e social

Eugénio Rosa
Eugénio Rosa
Licenciado em economia e doutorado pelo ISEG

Os baixos salários associados às enormes desigualdades salariais tornam as consequências da crise económica e social ainda mais graves em Portugal

Neste estudo utilizando dados oficiais recentes divulgados pelo INE analiso as enormes desigualdades que existem em Portugal quer a nível de salários líquidos, quer a nível de salários base brutos (antes de descontos e do IRS) entre os diferentes setores da atividade económica, assim como a profunda desigualdade que existe na repartição da riqueza criada em Portugal (PIB) entre o TRABALHO e o CAPITAL, que aumentou entre 2009 e 2019, o que determina que as consequências da atual crise económica e social sejam ainda mais graves.

Neste estudo utilizando dados oficiais recentes, divulgados pelo INE, analiso as enormes desigualdades que existem em Portugal quer a nível de salários líquidos (2.102.100 levavam para casa no 3º Trimestre de 2020, para viverem eles e a família,  menos de 900€ por mês), quer a nível de salários base brutos (antes de descontos e do IRS) entre os diferentes setores da atividade económica (há diferenças que atingem 460%). 

E mostro também, utilizando dados do INE, a profunda desigualdade que existe na repartição da riqueza criada em Portugal (PIB) entre o TRABALHO (para o qual reverte apenas 35% do PIB)  e o CAPITAL (para quem reverte 41% do PIB), que aumentou entre 2009 e 2019 (para o TRABALHO: +5.649,9 milhões €; para o CAPITAL:+ 12.225 milhões €), o que determina que as consequências da atual crise económica e social sejam ainda mais graves, pois os que menos têm maiores dificuldades enfrentam com a crise.

 


Estudo

Os baixos salários associados às enormes desigualdades salariais tornam as consequências da crise económica e social ainda mais graves em Portugal

Se se analisar a situação dos trabalhadores em Portugal com base na remuneração média, como é habitual, pode-se ficar com a ideia de que a maioria dos trabalhadores portugueses recebe em média, por mês, 1019€, pois foi este o valor divulgado pelo INE em set.2020 como sendo a remuneração bruta base mensal média. No entanto, isso é uma pura ilusão pois não corresponde à verdade.

 

2,1 Milhões de trabalhadores levam para casa menos de 900€ por mês

O quadro 1 com dados do INE mostra as profundas desigualdades salariais existentes em Portugal.

 

Quadro 1 – Trabalhadores por conta de outrem por escalão de rendimento salarial liquido – 3º Trim.2020

No 3º Trim.2020, 52,5% dos trabalhadores portugueses (2.102.100) levavam para casa menos de 900€ por mês e apenas 1,9% (76.000) tinham mais de 2500€/mês. Baixos salários e desigualdades é a norma no Portugal de hoje o que torna as consequências da crise atual ainda mais graves.

 

A diferença de remunerações entre setores da economia chega a atingir 460%

Mas as desigualdades salariais no nosso país ainda se tornam percetíveis e claras quando se analisa as diferenças existentes na remuneração bruta (antes do desconto para a Segurança Social e CGA, e do IRS) média mensal de setor de para setor de atividade económica. O quadro 1, com dados divulgados pelo INE em nov.2020, mostra as enormes desigualdades existentes.

 

Quadro 2 – Remuneração bruta base mensal média por setor de atividade- setembro/2020

Em set.2020, segundo o INE, a remuneração bruta base mensal média do conjunto de todos os setores de atividade económica era de 1019€ por mês. No entanto, não se pense que essa era a remuneração da esmagadora maioria dos trabalhadores de todos os setores de atividade económica.

Os dados do INE do quadro 1, revelam que se se a analisar a remuneração bruta base média dos diferentes setores de atividade económica  conclui-se que se verificam diferenças enormes entre elas. Por ex., se se comparar a remuneração bruta mensal do setor em que ela é mais elevada – eletricidade e gás com 2364€ por mês – com a do setor em que ela é mais baixa – atividade administrativas e serviços de apoio com 660€ por mês – conclui-se que a primeira é 3,6 vezes superior (é superior em 460%) à segunda.

Se a análise for feita tomando como base a remuneração bruta média total – 1019€/mês – conclui-se que na agricultura, que emprega 93,6 mil trabalhadores, ela era em média inferior 33,9% por mês; na industria extrativa  era superior em 1,2% por mês; nas industrias transformadoras, que em empregavam 675,8 mil trabalhadores, era inferior em 9,7%; na construção, que empregava 289,4 mil trabalhadores, era inferior em 23,4%; na restauração em -32,3%, etc..

 

Uma repartição da riqueza criada no país de uma forma muito desigual 

Os baixos salários praticados em Portugal e as desigualdades enormes que se verificam nas remunerações entre os diferentes setores de atividade económica são uma consequência do perfil da economia portuguesa (uma economia fundamentalmente de tecnologia média, média-baixa e  baixa  que cresceu até 2019 à custa de baixos salários) mas também de uma profunda desigualdade na repartição da riqueza criada no país (PIB). O gráfico 1 mostra com clareza essa realidade.

 

Gráfico 1 – Repartição da riqueza criada no país (PIB) entre o Trabalho e o Capital e % do PIB – INE

Em 2019, apenas 35% da riqueza criada no país revertia para TRABALHO (trabalhadores) que eram 4.009.600, sob a forma de ordenados e salários, enquanto 41% revertia para o CAPITAL sob a forma de Excedente Bruto de Exploração, que eram 224.700 (os que empregavam trabalhadores por conta de outrem).

 

A parcela que reverte para o “Capital” tem crescido muito mais do que a do “Trabalho”

O quadro 3 (INE), mostra que com crise ou sem crise a parcela da riqueza que reverte para o “CAPITAL” tem crescido nos últimos anos muito mais  do que a que reverte para o “TRABALHO”.

 

Quadro 3 – Aumento do PIB, dos Ordenados e salários e do Excedente Bruto de Exploração-2009/19

Entre 2009 e 2019, a riqueza criada (PIB), a preços correntes, aumentou em 29.767,7 milhões € (+21,6%), os Ordenados e salários subiram apenas em 5.649,9 milhões € (+13,8%), mas o Excedente Bruto de Exploração, que reverte para o CAPITAL cresceu em 12.224,9 milhões € (+20,8%), ou seja mais 116,4% do que reverteu para o TRABALHO.



 

 


Receba a nossa newsletter

Contorne o cinzentismo dominante  subscrevendo a Newsletter do Jornal Tornado. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.

 

Receba a nossa newsletter

Contorne o cinzentismo dominante subscrevendo a nossa Newsletter. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.

- Publicidade -

Outros artigos

- Publicidade -

Últimas notícias

Mais lidos

VER…

Boa pergunta

Além Tejo (1)

- Publicidade -