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Quinta-feira, Dezembro 1, 2022

Desmistificar o conceito de democracia racial é fundamental para avançar no antirracismo

Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Jornalista, assessor do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo

Dois fatos chamam a atenção da luta antirracista nesta semana. Um estudo do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) confirma que a educação por si só não acaba com o racismo.

De acordo com o levantamento um homem branco ganha mais que o dobro que uma mulher negra com o mesmo grau de escolaridade. A mulher negra com ensino superior em instituição particular ganha em média R$ 2.903, por mês, enquanto o homem branco na mesma situação recebe em média R$ 6.627, se tiver concluído o terceiro grau em universidade pública, esse homem ganha R$ 7.892 ao mês, em média.

“Esse fato ressalta a necessidade de cotas raciais e sociais no país para impulsionar a igualdade de oportunidades”, afirma Mônica Custódio, secretária de Igualdade Racial da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB)”. Isso tudo aliado a políticas de combate ao racismo estrutural”.

Para ela, “o antirracismo não é apenas uma bandeira, é um dos fatores essenciais dos valores da liberdade e da justiça, portanto, da humanidade”.

Outro fato relevante é a criação de um guia prático contra o racismo feito pela psicóloga Mariana Luz, “Era Uma Vez Negritude”. O e-book “Era Uma Vez Negritude” está disponível por R$ 6,90. “A história é a forma que temos de nos conectar com o passado, saber das nossas origens e compreender como chegamos no ponto onde estamos hoje”, explica Mariana.

“Para pessoas brancas, é bem simples montar uma árvore genealógica de várias gerações. Para os negros, isso sempre esbarra no período colonial, onde nossos ancestrais eram escravizados e perdiam toda a referência de suas origens”, conta.

De acordo com ela, “na escola, aprendemos apenas uma versão da história”. Mônica concorda com Mariana e destaca a importância da realização de projetos que levem “conhecimento sobre o que é e como se apresenta o racismo em nossa sociedade”. A sindicalista carioca lembra também o “Pequeno Manual Antirracista”, da filósofa e ativista Djamila Ribeiro, o livro mais vendido da Amazon neste ano, como sendo importante para impulsionar o debate.

Para Mônica, é necessário compreender “as nossas condições definidas pela vivência e também pela compreensão das estratégias do conhecimento científico com estudos, dados e pesquisas”. Como é o caso das leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que instituíram o ensino da história e cultura dos negros brasileiros e da África – pouco implementados no país – para que “no contexto de identidade e na capacidade de afirmação a população negra possa compreender como o racismo foi forjado ideologicamente, como mostra o historiador Clóvis Moura (1925-2003)”, explica. Porque “já na escola tentam nos tirar esse lugar de humanidade”.

Cota Não É Esmola, de Bia Ferreira

São estudiosos como “Moura, Angela Davis, Kabengele Munanga, Lélia Gonzalez (1935-1994), Abdias Nascimento (1914-2011), entre outros que além do trabalho intelectual foram engajados no combate ao racismo e em nosso país na desmistificação do conceito nefasto de democracia racial”, acentua Mônica.

O movimento negro vem amadurecendo e qualificando seus conceitos comprovando que não existe democracia plena com a persistência do racismo”.

Por isso, “é muito importante debater a questão racial, reconhecendo a existência do racismo e a importância de acabar com essa chaga em nossa sociedade”, argumenta Vânia Marques Pinto, secretária de Políticas Sociais da CTB. “Como já disseram, não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”, define. Porque “o combate ao racismo significa o resgate do sentido de humano que os sistemas opressores tentam nos tiram”. Vânia acredita que “estudar a história é essencial para a compreensão do presente em todos os sentidos”.

Para Mônica, “temos a necessidade de um nova forma de viver e de se fazer e se apresentar na conjuntura política mundial em defesa da emancipação dos povos”. Para isso, “é edificante entender e fazer entender que a questão de raça e gênero, são ponta de lança na luta de classes”.


Texto em português do Brasil


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