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João de Sousa

Sexta-feira, Outubro 7, 2022

Do Ipiranga ao Isar

Paulo Casaca, em Bruxelas
Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Foi num comício eleitoral na capital da Baviera, a cidade banhada pelo Isar, que a chanceler alemã resolveu fazer a sua declaração de independência em relação aos Estados Unidos e ao Reino Unido

Declaração que foi rapidamente subscrita pelo principal candidato da oposição ao lugar que ela ocupa, que cada vez mais é abertamente o candidato a seu número dois.

Declaração de independência da Europa

Tudo na declaração soa a falso, a começar pela sua originalidade, dado que palavras semelhantes tinham sido pronunciadas há catorze anos atrás e têm sido repetidas com intervalos regulares, e a continuar pela sua genuinidade, dado que a declaração é mais de anexação de uma Europa que não lhe passou procuração para falar em seu nome do que de separação de quem quer que seja.

O cenário é linear e há muito que tem sido antecipado. Depois do Brexit – presente inestimável das elites britânicas – tivemos o presidente Trump. Este resolveu dizer alto o que os seus predecessores sempre disseram baixo: é inadmissível que a esmagadora maioria dos aliados da Aliança Atlântica falhem de forma crassa e repetida os compromissos que não menos repetidamente têm assumido no domínio do investimento em defesa e segurança. Juntou a isso a novidade de se divorciar dos compromissos de luta contra o aquecimento global.

Compromisso. Qual compromisso?

Qualquer das questões poderia ter sido alvo de trabalho bilateral para tentar chegar a compromissos mais aceitáveis por todas as partes e também mais adaptados aos desafios que enfrentamos, mas na verdade não existiu qualquer esforço nesse sentido exactamente porque não havia nenhum interesse em chegar a qualquer compromisso.

A carta do Atlântico firmada por Roosevelt e Churchill em Agosto de 1941 na Terra Nova, Canadá, estabeleceu os princípios de uma paz internacional e foi a base para a declaração das Nações Unidas do ano seguinte que fez o essencial da paz que viemos a desfrutar no ocidente até hoje.

Ao decretar a hostilização de ambos os seus autores, e ao envolver na sua acção todo o continente europeu, temos traçado um cenário que ameaça seriamente os pilares da construção ocidental.

Em matéria de estratégia, as autoridades alemãs tendem no entanto a confrontar-se com um problema recorrente, que é o da dificuldade em integrar nos seus cálculos a forma como a Rússia reagirá aos desenvolvimentos no Atlântico.

Como vimos com a guerra da Ucrânia, as autoridades europeias não entendem que uma ordem internacional não pode ser confundida com a procura unilateral de oportunidades de negócio, e a Europa tem como vizinho um poder que não se conforma nem adapta ao desenrolar dos acontecimentos posteriores à queda do muro de Berlim e está fortemente empenhada em os reverter a seu favor.

O fim da NATO?

Se é verdade que o desfazer da aliança atlântica é o objectivo mais consistentemente perseguido pelos dirigentes russos desde o final da segunda guerra, e que poderão estar tacticamente dispostos a concessões no teatro de operações europeus para ver os seus sonhos consagrados, ninguém de bom senso poderá imaginar que eles ficarão satisfeitos com isso.

Aquilo que estamos a ver é a destruição irresponsável das bases com as quais foi construída a paz no ocidente nas últimas décadas sem que ninguém pareça entender o que se passa.

Se nada haveria a esperar de personagens de segunda linha como o são Juncker e Tusk, se o recém eleito Macron tinha já demonstrado o que dele poderíamos esperar no patético beija mão à chanceler alemã, haveria talvez quem esperasse mais e melhor de quem está na posição, tem a bagagem e o currículo e deveria ser capaz de entender a dimensão dos problemas que enfrentamos.

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