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Quarta-feira, Julho 6, 2022

Do simplismo e da surpresa I

Pedro Pereira Neto
Pedro Pereira Neto
Académico. Ensina comunicação e jornalismo.

Eleições americanas

As eleições decorridas recentemente nos Estados Unidos da América, sobretudo aquelas relativas à Presidência – pois decorreram igualmente eleições para dois outros orgãos de soberania, ambas vencidas pelo Partido Republicano, facto que tem sido amplamente subestimado nas análises dos resultados – produziram nas opiniões políticas e cívicas manifestadas considerável efeito, em dimensões muito diversas, aconselhando a uma reflexão com algum distanciamento. Tal distanciamento, numa era em que a rapidez substitui com demasiada frequência a qualidade da opinião manifestada, tem sido difícil de constatar. Tentarei, nos parágrafos que se seguem, contribuir para esse processo.

Do sexismo como substituto de uma explicação complexa

Donald Trump, mulheres

Uma das reacções observadas com maior frequência diz respeito à utilização do género como variável explicativa, quer para as motivações subjacentes ao voto, quer para o resultado por ele produzido. Sem um estudo empírico aprofundado, que aborde realisticamente a população para lá das limitações conceptuais (e muitas vezes cognitivas) do imediatismo superficializante das sondagens, não é possível afirmar com qualquer grau de garantia que ele, o género, desempenhou qualquer papel relevante. Existem, no entanto, alguns indicadores que convém ter em consideração, e neste caso em sentido contrário ao que tem sido afirmado neste plano.

Sem prova substantiva, a utilização do argumento ‘Hillary perdeu por ser mulher’ constitui uma afirmação tão sexista como o pretenso sexismo que tenta criticar. Em primeiro lugar, por reduzir ao género a conduta, como se a pertença a um obrigasse a pessoa a obedecer a uma espécie de imperativo nele baseado.

E na verdade são conhecidos indicadores que demonstram precisamente o contrário: muitas mulheres eleitoras habituais do Partido Democrata terão votado contra Hillary apesar do seu género, o que significa que não o consideraram razão suficiente para apoiá-la. Simultaneamente, foram vários os casos de homens que demonstraram publicamente o seu apoio a Hillary apesar de serem homens. Significa isto que, com grande probabilidade, o género não terá sido significativo na escolha

Da desresponsabilização pelo resultado obtido

Votação nas eleições americanas 2016

Na sequência do ponto anterior, podemos ao invés considerar que a colocação do argumento baseado no género constitui, certamente entre outras variáveis, uma manifestação de uma certa incapacidade de reconhecer defeitos e défices próprios, não do género mas da mensagem e do programa com que a candidata se apresentou. E neste plano, compreensivelmente, apenas os aspectos positivos do histórico de Hillary eram recordados por quem a apoiou, de que se destacava frequentemente a afirmação de se tratar da pessoa mais bem preparada. Na realidade, esta adjectivação não pode ser tomada como uma tautologia, requerendo a sua demonstração mais que a sua mera afirmação.

Diversos foram os problemas observados na demonstração destas qualidades, resultando do conjunto de iniciativas de campanha de Hillary sobretudo a fraca utilização dessa preparação: demasiadas vezes foi demasiado visível uma quase absoluta ausência de propostas concretas, nas quais pudesse ser observável não apenas a qualidade dessa preparação, o domínio dos dossiers e desafios mais complexos perante a condição do país, e até uma justificação plausível para a natureza pretensamente revolucionária associada ao facto de estar a preparar-se para o exercício destas funções toda a sua vida política.

Por outro lado, o que parecia ser absolutamente assumido, perante o silêncio observado nesse plano, era o incómodo suscitado pelos aspectos que, do seu passado, constituíam razões que conotavam Hillary, ora com uma atitude política excessivamente pragmática e ziguezagueante, obedecendo ao sabor da desejabilidade social circunstancial, ora com uma fuga em frente mascarada de respostas politicamente primárias, ora recusando-se a responder directamente a questões sobre aspectos melindrosos do seu passado – inclusivé em questões de género, como o apoio nunca recusado recebido da parte de regimes profundamente sexistas e iníquos, ou do sector financeiro junto do qual chegou a acusar as famílias norte-americanas pela conduta suicidária praticada por alguns dos principais fundos imobiliários –, ora respondendo com as evasivas com as quais se conota a política profissional no seu pior – para a qual, recordemo-lo, pretendia ser vista como alternativa –, ora ainda recorrendo a manobras de comparação baseadas no insulto a terceiros.

A última demonstração disto mesmo é, sem surpresa, a atribuição da principal responsabilidade de uma derrota própria à conduta do FBI, a quem, recorde-se, tinha elogiado aquando do arquivamento inicial do processo em que se via envolvida por tratamento indevido e potencialmente criminoso de correio electrónico de Estado.

Do insulto pessoal como substituto de um programa de campanha

Donald Trump, islamofobia

A par destes défices, uma outra manifestação de considerável impreparação não apenas para o exercício do cargo mas sobretudo para a própria campanha a ele conducente – e recordemos que se trata de alguém que havia já disputado diversas eleições – foi visível e, até certo ponto, surpreendente: a forma como aceitou basear a sua mensagem política precisamente na mesma prática de que por diversas vezes acusou os seus adversários, quer intrapartidários, quer no principal partido da oposição – o insulto pessoal. Mal parece acreditável que alguém que apresentava a si própria – e promovida por terceiros – como imune a pressões, impassível de ser desviada do seu trajecto e inatacável no seu espírito de missão tenha recorrido com tamanha frequência ao insulto directo e pessoal, seja a Bernie Sanders, seja a Donald Trump. Se algo ficará desta campanha é a distância entre a representação de Hillary e aquilo que a sua conduta permite atribuir-lhe: alguém que, à semelhança do seu principal adversário, substituiu políticas por insultos, projectos por adjectivos, futuros por passados.

Neste particular, e considerando que uma das principais críticas feitas ao Partido Democrata e à sua candidata era precisamente o facto de serem movidos pela preservação do seu privilégio, é incompreensível a incapacidade demonstrada em tornar clara a sua mensagem, as suas ideias ou o seu carácter de transformação da qualidade de vida da cidadania, os projectos de consideração dos seus interesses particulares e da forma como deles é feita a nação – em limite, tudo aquilo de que um programa político bem sucedido normalmente se faz. Também neste plano é visível a falência – ou a fraude – que a aparente preparação política de Hillary constituiu, sobretudo quando uma das tónicas da política norte-americana é a continuidade de políticas de que costuma revestir-se.

E neste plano, pode colocar-se a possibilidade de Hillary, até por uma aversão histórica a algumas das ideias de Obama – basta recordar a forma como terminou a campanha eleitoral para as primárias ganhas por este último em 2008 –, querer em alguma medida distanciar-se do legado do Presidente cessante: mas tal implicaria necessariamente a oferta de um programa alternativo e esse, parece cada vez mais aparente, ou nunca existiu verdadeiramente, ou foi miseravelmente promovido.

Do papel dos media

Se é verdade que o aparente desinvestimento na criação ou na transmissão bem sucedida de um programa político pode ter desempenhado um papel importante neste resultado, não é menos verdade que Hillary não pode propriamente queixar-se de falta de apoio na transmissão das suas ideias: provavelmente nenhum outro candidato desde Kennedy teve tamanho amparo mediático, desde os media que declararam publicamente o seu apoio até aos diversos espaço de entretenimento cujos guiões se demonstraram incansáveis na desvalorização cómica dos erros e défices da sua campanha, ao mesmo tempo que praticaram algum do spin mais descarado relativamente às atitudes de todas e todos as/os que se apresentaram contra Hillary, quer nas eleições primárias, quer nas gerais.

Diversas foram as circunstâncias, aliás, em que eram os próprios mediadores de substituição de uma consciência política própria, estabelecendo paralelos implícitos entre as incontornáveis qualidades de uma uma e os intoleráveis defeitos ou limitações das/os outras/os, sendo que o contrário raramente foi observado.

Também por essa razão, o que resultou em grande medida da cobertura e acompanhamento mediáticos foi insuflação crescente de um balão de inevitabilidade eleitoral, que nunca verdadeiramente contemplou a possibilidade democraticamente plausível de uma derrota, tão seguros pareciam as/os profissionais dos media de que a sua representação do mundo corresponderia necessariamente à realidade subscrita pela população.

Num plano paralelo, também a selecção de participantes ou especialistas em programas mediáticos parece ter contribuído para essa ilusão de realidade incontornável, como se toda a população fosse função meramente passiva dos seus juízos e convidada a subscrever, senão explicitamente pelo menos de forma implícita, a impossibilidade de qualquer outro resultado que não a entronização de Hillary.

 

NB: A segunda parte deste artigo publicado a 15 de Novembro

Nota do Director

As opiniões expressas nos artigos de Opinião apenas vinculam os respectivos autores.

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