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Quinta-feira, Janeiro 20, 2022

Downton Abbey chega ao fim com um britânico “happy end”

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A minha geração viveu as desventuras da criadagem e dos seus patrões na mítica série televisiva “Upstairs, Downstairs“, traduzida numa sempre muito livre interpretação lusitana por “A família Bellamy“. Os pontos comuns entre essa e a recente Downton Abbey são múltiplos e demonstram a importância que uma boa crónica de costumes tem para estes tempos modernos em que a serventia conhece outros adjectivos e a nobreza diferentes desígnios. Se a um naipe de excelsos actores juntarmos a qualidade técnica de uma ITV que em nada perde em relação à histórica BBC e uma extraordinária capacidade narrativa de uma novela bem escrita (mas que nunca belisca a capacidade analítica de um espectador médio), temos logicamente um sucesso de massas. E existem razões para além dos superlativos predicados técnicos.

Encontrar um cavalheiro superiormente educado, afável com quem aprecia, hirto contra os inimigos e submerso em graves questões como a honra e a palavra, não é fácil nos dias que correm. Existem alguns espécimen, inseridos numa democracia social, mas que tendem a subtrair as suas raízes e vastos conhecimentos sobre matérias apontadas como antiquadas, para evitar dar nas vistas, o que consideram um tremendo horror. Mudar de guarda roupa entre refeições é, nesta altura em que se sai do emprego já atrasado para o convívio, hercúlea tarefa, já para não mencionar a dificuldade em memorizar todos os graus e apelidos dos convivas. Por isso, é com uma certa inveja que assistimos ao desenrolar dos dramas familiares de uma família nobre mas singela que até tem nos seus empregados, fiéis depositários de grandes segredos, um espelho quase fidedigno no que respeita à sua imagem exterior e nobreza interior.

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Downton Abbey foi uma série realmente dramática. Cá por casa, fazíamos apostas em quem iria morrer tragicamente no final da época em curso, mas nenhum de nós ousou matar a matriarca do grupo, a extraordinária Maggie Smith que encarnou na perfeição a Condessa de Dowager, um pulmão jocoso e irascível que nos encantou ao longo dos anos. Habituado que estava ao desaparecimento de um ou mais protagonistas, foi com alguma emoção que percebi, ao longo do último episódio especial de Natal, que o happy end seria a tónica. Secretamente, apostei numa morte e quase que a vivemos na secundária figura de Lord Merton, salvo da má índole da sua nora e filho – e de uma doença – pela sempre justa Isobel.

Aliás, os pares são mais que muitos: para evitar um chorrilho de nomes ou personagens, basta dizer que só resta à Condessa Violet Crawley e ao novel mordomo Barrow encontrar uma cara metade. Ah, esqueci-me de Spratt e da relação amor-ódio que mantém com Miss Denker, mas não podemos negar que existe ali uma chama. Resumindo os pontos principais, o chauffeur catrapisca a editora, a reguila cede finalmente ao jovem iletrado, o professor pega a costureira, o velhote saca a gorducha, à mãe solteira calha o príncipe encantado, o velho Carson reforma-se na companhia da sua muy justa e finalmente companheira Mrs. Hugues, a mimada está feliz ao lado do ex-piloto e os lordes conseguem finalmente despachar as crias e renovar os votos de felicidade eterna. Deixei para último o par mais dramático de toda a história: o sempre-em-apuros Bates e a sua adorada Anna. É com eles que temos uma noção da justiça dos homens à época – e da própria fragilidade humana -, pois todos os outros estão acima dessas coisas mundanas. Numa nota ainda mais pessoal, tenho de confessar o meu apreço por John Bates imortalizado pelo actor Brendan Coyle: é que se assemelha muitíssimo à figura física do meu pai.

Downton deixa alguma saudade mas, na realidade, tudo está bem quando acaba bem. Mesmo que termine bem demais, num faustoso e um tanto ou quanto urgente final feliz, mesmo que os personagens que me marcaram mais, para além de John Bates e Violet Crawley tenham sido, curiosamente, dois dos tragicamente desaparecidos: Matthew e Lady Sybil. É que nunca resisti a caras larocas.

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