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Quarta-feira, Outubro 27, 2021

Catástrofe humanitária oculta problema geopolítico

José Mateus
Analista e conferencista de Geo-estratégia e Inteligência Económica

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Quando toda a Europa Bem-pensante desatou aos “viva” à muito mal chamada “primavera árabe” (coisa de que não fazia ideia alguma do que seria) não imaginava que o grande fruto que tal “primavera” lhe iria proporcionar seria esta avalanche de milhões de fugitivos do caos em que a “operação primavera” transformou o mundo islâmico, do Afeganistão até ao Magrebe. Avalanche que ameaça continuar por um longo número de anos… Se, então, a Europa bem-pensante nada percebeu do que seria a “primavera árabe”, também agora mostra não perceber que esta catástrofe humanitária oculta um problema geopolítico de primeira grandeza e que, desta vez, é a própria Europa que se encontra no centro do furacão. Como me disse uma atenta e avisada fonte berbere (que procurei quando começou a loucura mediática da tal ‘primavera’, na Europa), “os europeus são uns ingénuos e só vão perceber que o que se está a instalar é o caos quando este lhes rebentar na cara, o que não demorará mais de uns três anos”. Já está… Merci, A.S.

Xi Jinping criou um ‘evento’ para mostrar o que até agora tinha andado a esconder

Pequim inventou uma parada militar para comemorar os 70 anos (um número assim redondo dá sempre muito jeito) da derrota do Japão… pelos americanos. Seguindo o pensamento do velho Mao, o objectivo real era, porém, outro: mostrar, pela primeira vez, alguns dos mísseis balísticos do arsenal chinês. A selecção balística alinhou com os melhores ‘craques’ chineses para as várias posições. Os Dongfeng (os DF-15 e DF-16) especialmente dedicados a Taiwan (mas também capazes de atingir a base americana de Okinawa, no Japão), os DF-21D, chamados “carrier-killer” e capazes de cobrir todos os alvos até à “segunda cadeia de ilhas”, o DF-26, o “Guam killer” (Guam é a ilha da grande base americana do Pacífico) já capaz de um alcance de 5.000 quilómetros, o CJ-10 que é um especialista do ataque ao solo e, last but not least, os intercontinentais DF-31 e DF-5B… Para quem tivesse dúvidas, Xi Jinping quis fazer a demonstração pública de que Pequim já detém os instrumentos essenciais das suas ambições estratégicas e para isso criou um ‘evento’ para mostrar o que até agora tinha andado a esconder.

A estudar os números da economia chinesa (que o Comité Central do Partido Comunista Chinês (CC do PCC) ‘fabrica’ para exportação…), uns bem-intencionados professores ocidentais de economia têm perdido horas e horas. E, de seguida, gastam muito mais tempo a imaginar “o que deve a China fazer”. Tudo tempo perdido, claro. Mais lhes valia perceber que a China vai fazer o que o CC do PCC entender que lhe convém fazer para se manter no poder. Mas, para isso, teriam de estudar o CC do PCC e não apenas os números que ele gosta de fornecer para os economistas ocidentais se entreterem em exercícios esotéricos que só eles tomam a sério. 

Os conflitos multiplicam-se e avolumam-se

Nunca o nome do Pacífico mentiu tantoCom a ascensão em potência da China e a emergência de novos quadros estratégicos, os conflitos multiplicam-se e avolumam-se, tanto nas águas como nas costas do maior oceano. A evolução dos orçamentos militares e a do investimento na área das tecnologias de segurança e defesa mostram bem essa realidade. Um outro indicador que nunca engana é o das evoluções e movimentações na muito discreta (e, portanto, difícil de acompanhar) área dos serviços de inteligência. Este Agosto foi fértil em decisões nessa área. De algumas, chegaram ecos. Na Coreia do Norte, Kim Jong-un está a passar o controlo (ou a permitir a passagem ou apenas a não a conseguir impedir…) dos “serviços” para as Forças Armadas. A China de Xi Jinping reorganiza tudo (com muitos escândalos e processos de corrupção à mistura) e coloca todo o controlo nas mãos de membros do Comité Executivo do  Secretariado Político do Comité Central do PCC. Em Taiwan, pequenas notícias dispersas sobre “escândalos” de infiltrações de Pequim indiciam reestruturações várias e procura de maior eficiência. No Japão, com a ajuda de australianos e ingleses, Shinzo Abe avança com a criação (pela primeira vez desde 1945) de um verdadeiro serviço exterior de informações, dotado de fortes capacidades de intercepção de comunicações… Tudo a afinar olhos, ouvidos e neurónios.

Obama não vem para as televisões perguntar desesperadamente “quem é que anda a ler os meus mails”

Obama Potência Digital… A Casa Branca digitaliza-se e fá-lo bem depressa e muito a sério (Obama não vem para as televisões perguntar desesperadamente “quem é que anda a ler os meus mails”…). A sede do Executivo americano transformou-se já numa potência digital onde, à frente de uma larga equipa especializada, abundam os Chief technology officerchief data scientistchief digital officer e, agora, mesmo um Director of product. Josh Miller, um jovem veterano ‘start-upper’, até agora gestor de produto no Facebook, entrou no início deste mês na Casa Branca com a missão de reaproximar os cidadãos americanos do seu governo. Miller mostra bem como domina os mecanismos da arte, ao contar porque salta de Silicon Valley para Washington, num post muitostorytelling, no seu site. 

 Contactar o autor: [email protected] 

José Mateus, Consultor intern. de Inteli. Económica

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