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Quarta-feira, Agosto 10, 2022

E Marcelo faz regressar o soarismo

João Vasco AlmeidaEstamos prontos! Há mais de duas décadas que a presidência da República sofria de anemia do soarismo. Marcelo promete recuperar, finalmente, todas as qualidades e defeitos do mais amado Presidente da História recente do país.

Só no dia da posse já cantam Abrunhosa, José Cid e Mariza, numa festarola ribeirinha em frente à Câmara de Lisboa, depois de uma celebração religiosa que se diz ecuménica, mas na verdade é trans-religiosa, porque se assoma uma cristandade numa mesquita.

Marcelo Presidente, ei-lo enfim em stereo: para o povo será, sempre, um boneco de Santo Aleixo, coberto de palavras doces, alegria e sentimento positivo.

Na rua, um senhor que pode ir lá a casa jantar, que mais um prato não fará mal. Não terá sequer de fazer campanha em 2020, que serão os portugueses a pedir-lhe que fique e a depositar o voto muito antes de haver eleições.

O soarismo no seu esplendor, mais aguçado e mais novo, mas temperado com o mesmo populismo. Tudo isto vai entreter-nos. Falará ao país, falará às massas, fará figura, desfilará quando tiver que ser. Até os militares irão gostar de Marcelo.

Mas depois há o outro lado do stereo, que não é o agudo. É o grave.

MarceloA paisagem política vai mudar à força de um político escritor que sulcará a sua marca no panorama partidário, sindical, sociológico e ideológico. Marcelo não será Cavaco nem Sampaio, muito menos o ingénuo  e bem intencionado (às vezes) Eanes.

Estamos na presença de um prodígio que, finalmente, tem poder e o tempo na mão.

Acusarão Marcelo de intriga. Errado. Nunca será intriga. Será apenas táctica numa estratégia maior, senhorial e lúcida para o próprio.

Marcelo vai dispôr de tempo para corrigir os partidos todos e mudar a sociedade como entende que ela deve arrumar-se. O seu ódio aos acéfalos e a sua predisposição para a grandeza remeterá para as masmorras os hipócritas – Marcelo é cínico mas, acima de tudo, sarcástico, duas excelentes qualidades.

Daqui a dez anos o país político e social não será o mesmo. Florescerá em todo o seu brilho o grande esquema do neo-marcelismo, cumprindo-se o primado da política sobre tudo o resto.

Tenho pena de discordar das ideias que Marcelo tem, da sua apatia perante os sonsos e os copos de leite, da sua animosidade à greve e ao povo trabalhador, dos tiques serôdios perante os costumes.

Senão, até estava feliz.

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