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Quinta-feira, Setembro 23, 2021

E via navios. Mas onde os navios?

Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Honorário de Filosofia da Educação. Professor Universitário. Investigador. Escritor.

Nasci num recôndito silêncio bem longe do mar. havia frio e catadupas de estirpes como osgas e as paredes eram um quarto para mil, parafusos e esqueletos de tempo ainda lá dentro como se a vida fosse um eterno recomeço.

Anos decorriam, entretanto, vozes deambulavam corredores imensos, uma festança extrema pois, havia nascido o sacerdote das estepes, aquele que apenas surgiu para inventar o seu próprio desencanto num canto qualquer da cidade. E essa cidade foi crescendo também, transformando-se cada vez mais em mundo, um mundo indiferente, pois, apenas sorvia o cântico dos pássaros pisados num longe tal que só quem soubesse escutar os rios da vida entenderia.

Ouvia o bradar calmo das ondas bem ao fundo onde só a cabeça oscilava, escutava o bramir doce do colo do tempo ali, bem junto a mim como se fossem viagens de nuvens sobre as telhas da casa velha onde possuíamos todos os saberes do campo. Foi onde nasci. Bem longe do mar. repleto de árvores numa cantoria de sinos da igreja onde o capelão fazia relatos de existências metafísicas como se a ciência soubesse navegar os corredores mais parados daquele olimpo frio e chovia, era tão breve tudo aquilo, e foi sempre assim, tudo tão breve.

Já tinha ouvido falar do mar antes de ter nascido, havia quem o conhecesse tão bem que conseguia mesmo em imagens não fotográficas explica-lo como se a verdade fosse a fantasia mais real para todos os costumes. Ouvia na barriga do vento o rugido glorio da saudade, havia descoberto entretanto que saudade já existia mesmo antes de nascer, essa coisa é horrível, a gente ter de perceber muito antes de nascer que já os homens se flutuavam para templos de glórias solitárias, arremessavam pedras contra as paredes da casa dos esquimós que existiam apenas nas suas cabeças frias e repletas de tédio, coisa que a fotografia não consegue relatar, mas, assim ficamos e nasci entretanto, num recôndito silêncio que nem sequer palavras conseguia proibir, era feio agir assim, aprendi aí.

E via navios. Mas onde os navios?

Era um acumular de tantos entretantos que se preenchiam nas vaidades mais cobardes daquele tempo, tinham de descobrir antes a estrada que os levasse a Atenas para conversar com Messias, um forasteiro também que já na altura diziam existir, mas nunca o vi ou senti, mas acumulava num embrião de nozes as conversas ácidas dos presentes que apenas pretendiam cansar-me, mesmo antes de nascer e aprendi, ou ia aprendendo a entender o sol.

Ela gemia dores caladas e falsas, fazia parte do regime imposto, sei porque aprendi com o tempo, agora que já nasci, mas em nada serviram, eram falácias numa masmorra de máscaras coloridas, sim, as cores embelezam o transcendente e a gente sentia como ele se rodopiava no meio das maratonas que a tripa sangrava para evitar o derrame do sangue da família que se enlutava cada vez que alguém nascesse.

Por isso nasci sozinho naquele quintal da Maria, servidora obtusa de todas as razões impostas pelas leis vigentes. O menino será meu, senhora, e assim foi, sou dela.


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