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João de Sousa

Sábado, Outubro 23, 2021

Eleições em rede

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As redes sociais são uma importante ferramenta nas estratégias de comunicação destas eleições legislativas, mas são simultaneamente um ecossistema onde co-habitam profissionais, “influenciadores” e utilizadores comuns. Com os habituais elevados níveis de abstenção em Portugal e a iliteracia digital como denominador comum, que influência podem ter os streamings de conteúdos nas redes sociais, disseminados pelos seus actores dominantes, na decisão final dos eleitores?

Os media e os políticos descobriram, no mês de Junho de 2009 com as eleições presidenciais no Irão, o potencial e o poder do Twitter enquanto rede de comunicação e informação. Durante o ano de 2010, a hashtag #iranelection esteve muitas vezes nos Worldwide Trending Topics do Twitter. O Facebook foi a ferramenta que se seguiu, para atingir audiências maiores e significativamente (à época) mais passivas. Um like não vale um voto, tal como um comentário não significa muito. Mas a era das partilhas alterou a forma de utilização desta plataforma. Os actores centrais das redes que se agregam nesta rede única perceberam rapidamente isso. Partilhar e depois verificar é uma ferramenta indispensável porque induz opiniões mediadas ou fabricadas.

Em ambientes colectivos como o Facebook e o Twitter, os utilizadores relacionam-se entre si, mas também com significados, interacções e contextos sociais. Nasceram novos gatekeepers com poder de influência e acesso directos aos meios e às audiências. Alguns são utilizadores comuns, mas a maioria são corporativos e/ou especializados. Nesta campanha eleitoral, as redes sociais foram o palco para as máquinas partidárias profissionalizadas em estratégia digital mas também para os novos gatekeepers, ou os ditos “influenciadores”.

As redes sociais foram utilizadas em duas perspectivas: a dos streamings de conteúdos indexados no Twitter e a interacção e promoção de conteúdo visual (estático ou dinâmico) no Facebook. As restantes plataformas foram essencialmente repositórios de conteúdos, como o YouTube. O epicentro da campanha foi, à semelhança de outras eleições e do que geralmente acontece na Europa, o Facebook. No entanto, a utilização do Twitter foi crucial na medida em que dá acesso a grupos mais pequenos mas com maior influência (muitas vezes superior à das próprias máquinas partidárias) porque conseguem gerir conteúdos naquela plataforma e disseminá-los massivamente noutras, o que permite ampliar significativamente as audiências. As máquinas partidárias profissionais apostaram em força no Twitter e na indexação de conteúdos. No Facebook, a presença de todas as forças políticas foi óbvia. No entanto, apenas parte dos partidos/coligações/candidatos conseguiu disseminar efectivamente a sua mensagem. Neste capítulo, os influenciadores profissionais tiveram um papel muito relevante: tornar virais conteúdos e gerar buzz em torno dele.

 Hashtags, conteúdos virais e distorção da realidade offline na esfera online

Os pontos mais altos da campanha nas redes sociais foram seguramente os debates (televisivos e na rádio), assim como os principais comícios. Desde o início da campanha, foi possível seguir no Twitter, com uma frequência de publicação muito activa, hashtags como #Legislativas2015, #Eleições2015, #costabem, #costamal, #passosmal, #passosbem, #portugalàfrente, #pedropassoscoelho, #costa2015, #debate2015. Os partidos fora do denominado “arco do poder” não conseguiram entrar nos trending topics  do Twitter, mas Livre/Tempo de Avançar e Bloco de Esquerda mantiveram uma presença constante, com conteúdos multimédia, nas várias plataformas. A coligação PSD/CDS evitou sistematicamente referências na rede a Paulo Portas e às siglas dos partidos. A CDU, à semelhança do que tem feito desde 2010, ignorou o Twitter. Os partidos mais pequenos tentaram personalizar as campanhas em candidatos, mas a maioria manteve-se fora da rede de microblogging.

A aposta em grande foi a plataforma criada por Mark Zuckerberg. O Facebook foi o espaço de todos os partidos e candidatos, com uma enorme dispersão de páginas, perfis e eventos. Sem esquecer as afirmações regionais, que geralmente repercutiam apenas o que estava publicado na página principal da candidatura.

Na rede social que podia ser o terceiro maior país do mundo, a mensagem distorcida é mais fácil de disseminar. E nesta plataforma não faltam hashtags para indexar conteúdos. No entanto, a sua utilização dispersa identifica mais os conteúdos do que os indexa. Se no Twitter a estratégia socialista foi mais inteligente, no Facebook Portugal à Frente e Partido Socialista conseguiram uma verdadeira campanha multimédia: vídeos, imagens, textos, coerência das hashtags (#costa2015 e #euconfio ou #somosmais e #portugalàfrente), evitando as redundâncias cometidas por outros partidos/coligações. Indexar conteúdo a #Legislativas2015 é perder conteúdo num streaming cheio de informações. No entanto, é interessante verificar que as interacções directas (que ultrapassam os likes e as partilhas) parecem ser maioritariamente positivas, o que é totalmente contrário ao que aconteceu nas eleições europeias em 2014.

A CDU utilizou o Facebook de uma forma consistente, sendo a primeira campanha em que evidenciou ter uma estratégia digital. Já os partidos/coligações mais pequenos como Agir, PAN, PDR ou PNR foram publicando essencialmente textos e imagens, apelando ao voto e apostando numa estratégia de fragilização de outros partidos. Refira-se, ainda assim, que o papel de Joana Amaral Dias nas redes sociais (na sua página pessoal, essencialmente) foi determinante para uma interacção tão ou mais elevada do que em coligações como Livre/Tempo de Avançar. O Bloco de Esquerda manteve a estratégia da página Esquerda.net, associada ao site homónimo, e da dispersão pelas páginas regionais.

Os media profissionais, as sondagens, a abstenção e o aproveitamento da iliteracia

As hashtags entraram nos cartazes e t-shirts e esta terá sido a primeira campanha eleitoral portuguesa em que o digital liderou de facto. A velocidade de transmissão da informação e integração de audiências com redes múltiplas obrigaram os media profissionais a uma estratégia mais dinâmica. Os media, agora audiências dos outros actores profissionais nas redes sociais, seguiram a tendência com a criação de liveblogs para acompanhar debates, comícios e acções de campanha; análises ao minuto por comentadores numa lógica de Twitter; criação de hashtags associadas à sua marca para indexar comentários na rede sobre a campanha; facts checking quase em tempo real, para confirmar as afirmações dos candidatos.

As sondagens, veiculadas praticamente de forma diária, criaram um buzz muito significativo em torno das redes sociais dos media profissionais, e as interacções directas passaram a ser essencialmente sobre os números que iam sendo veiculados. Também neste campo, os influenciadores tiveram uma relevância enorme, deixando que as máquinas partidárias mantivessem o velho argumento de que “as sondagens valem o que valem”. As redes sociais que se geram na Internet promovem a participação do público, mesmo que a discussão crítica ainda não seja um fenómeno efectivo. Mas o poder de mobilização da Internet enquanto possibilidade latente é, em simultâneo, também uma evidência. Neste sentido, a ligação dos media profissionais aos utilizadores comuns fica muito marcada pelas informações publicadas e amplamente partilhadas sobre as sondagens.

A abstenção, que habitualmente tem números elevados em Portugal, foi um das “cruzadas” dos utilizadores anónimos no Facebook. Apesar de existirem alguns grupos a favor da abstenção, o número de grupos criados propositadamente contra a abstenção nestas eleições foi muito significativo. Esta “novidade” pode contrariar as sondagens ou, pelo contrário, mostrar que a massa crítica das redes sociais não tem reflexo directo na decisão final dos eleitores. Por outro lado, associada ao fenómeno da abstenção está a complexa questão da iliteracia digital.

As redes sociais são naturalmente um importante termómetro social, seja de audiências nacionais ou locais. Mas a sua apropriação pelos vários actores que actuam na e em rede induz, mesmo que involuntariamente ao receptor, a transmissão de conteúdos/opiniões mediadas. A distorção da realidade é comum. Disseminar em massa conteúdos com mensagens deturpadas ou falsas é prática regular na Internet. A partir de 4 de Setembro e até à penúltima semana da campanha, José Sócrates foi trending topic no Twitter com assiduidade, e a quantidade de posts partilhados no Facebook foi, provavelmente, idêntica ao dia da sua prisão. Factos inventados como o da pizza que afinal não tinha sido encomendada deram espaço para os influenciadores se centrarem num único assunto (aproveitando-o politicamente com diferentes abordagens ideológicas), enquanto as máquinas partidárias continuavam as suas acções.

A quantidade de links partilhados no Facebook para notícias publicadas há mais de quatro anos foi uma das grandes estratégias dos ditos influenciadores. Um exemplo, fugindo ao tema da campanha eleitoral, prende-se com o caso dos refugiados: circula uma imagem de 1991 que mostra centenas de cidadãos albaneses a tentarem entrar em barcos para fugir para o norte de África como se fosse uma imagem de refugiados da II Guerra Mundial. Voltando à campanha, o Canal Q publicou um vídeo com entrevistas de rua cujo objectivo era saber se as pessoas votariam no PSD ou CDS. A edição do vídeo é toda no sentido de não, mas sendo na coligação Portugal à Frente então a hipótese era bem mais elevada. Naturalmente que é um vídeo cómico, mas tem praticamente 100 mil visualizações únicas no YouTube e 200 partilhas no Facebook – mais do que a maioria das páginas das máquinas partidárias conseguiu, em média, por cada post. Surgiram também vídeos e fotografias “repescadas” de outros tempos e apresentadas como actuais, com justificações e partilhadas centenas de vezes. E é neste aspecto que a iliteracia mediática e digital atingem o auge e são, obviamente, aproveitadas pelos influenciadores ou até cidadãos comuns interventivos. São estes novos gatekeepers que completam as estratégias das máquinas partidárias que, apesar de terem começado a trabalhar há muito tempo nesta campanha, estão presas ao estigma evidente da cor dos partidos. A informação centrada em fontes não confirmadas é bem mais comum do que a que é publicada pelos media profissionais. Vários estudos mostram que centenas de links são partilhados no Facebook sem sequer terem sido abertos. No Twitter, em 2010, num só dia mais de 200 utilizadores fizeram retweet de um tweet publicado sobre declarações de Noam Chomsky no MIT a propósito do escândalo Wikileaks. O tweet, reduzido a 140 caracteres, eliminava espaços pelo que @MIT surgiram juntos quando a intenção inicial era escrever “@ MIT” – no MIT. O resultado foi simples: uma empresa japonesa de produtos tecnológicos recebeu tantos retweets e novos seguidores que vendeu a conta ao MIT.

O poder de influência das redes sociais na decisão final dos utilizadores só saberemos este domingo, ainda que seja impossível  esquecer a ligação directa aos media profissionais. E, se importa desmistificar a ideia de que o online está desligado do offline, também é relevante referir que o que acontece no Facebook já não fica no Facebook. E que os influenciadores sabem também manipular a iliteracia. Como Thompson (1995), “a experiência mediada é sempre experiência recontextualizada”.

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