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Domingo, Julho 21, 2024

O elogio do fundamentalismo (quase)

Alexandre Honrado
Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

Historiador, Professor Universitário; investigador da área de Ciência das Religiões

Hoje, o termo parece ter-se colado à fé islâmica como uma feia crosta de ferida sobre um enorme corpo saudável – e é repetido até à exaustão pelos órgãos de comunicação social.

A polémica, todavia, aparece quando se regista o facto histórico que desmente o equívoco: a noção de fundamentalista e de fundamentalismo é cristã; nasceu no seio do cristianismo.

Outra das afirmações que eriça a pele e a põe crispada como a das galinhas, é também um outro facto histórico, legítimo há mais de mil e quinhentos anos. É que não há religiões monoteístas que não apresentem grupos fundamentalistas, mais ou menos radicais, mais ou menos irredutíveis, mais ou menos cruéis.

Em análise abrangente e compreensão lata, não existiriam religiões sem os seus fundamentalistas – pelo que defendem do que lhes parece fundamental e fundamentador da sua crença.

Há fundamentalismo e fundamentalismos, é certo, e os que se apegam aos princípios fundamentais, ao fundamento, da corrente religiosa mantêm o fluxo activo dessa mesma corrente.

Existem fundamentalistas cristãos, judeus e muçulmanos. Na maior parte dos exemplos, nada neles equivale a extremismos compulsivos ou de carácter assassino. Por mais incómodos e radicais, estão distantes da massa assassina que age em nome do religioso. Aquilo a que chamamos hoje as frentes de intensidade assassina – onde se destacam o Daesh, a Al-Qaeda, os Talibãs, o Boko Haram , aparentemente as quatro frentes mais significativas de um projecto de poder imperialista-, não deve ser confundido com estes fundamentalistas, eles sim, religiosos.

fundamentalismo

O terrorista – aquele que espalha, promove, executa o terror – tem como objectivo prático aniquilar alguns, poucos, e como objectivo teórico disseminar efeitos de propaganda que façam acreditar que agem por princípios com algum fundamento filosófico (como a religião).

Nesse efeito de propaganda, procuram a elevação do descrédito. A opinião pública, que é pouco crítica embora assim se julgue, absorve da opinião publicada muitos traumas e directrizes por vezes a raiarem o absurdo. Hoje, o coro aumenta. A confusão instala-se. A verdade escapa-se-nos.

Já sabemos que o deus único destas frentes de intensidade assassina que agem em nome de fundamentalismos religiosos é o dinheiro, e que a sua fé passa pelas contas bancárias e que os seus entes de culto são o petróleo, o lucro, o capital, o excesso, o domínio dos mais fracos.

O conceito de terrorismo é europeu

Não se acredite, todavia, que entre os seus apoiantes não existam aqueles que agem por crença. É-lhes dada a causa e apontado um caminho. Normalmente, o efeito do que fazem é triste, também para eles e para os seus: a sua chegada ao céu não passa da altura a que as bombas erguerem os seus restos mortais – observados à distância pelos sorridentes patrocinadores das suas guerras diabólicas, dos seus atentados, da sua cobardia aparentemente festiva.

Agora, há quem pretenda ver o terrorismo atrelado ao povo islâmico (um quinto da população mundial que, a ser realmente composto por terroristas já teriam esmagado boa parte do mundo que não lhes agradasse).

É outro grave equívoco, pois a ideia de acto de terror aparece já consolidada através das actividades terroristas em países europeus no século XX que nos deixaram o embrião de tudo isto.

O conceito de terrorismo, em especial depois do 11 de Setembro de 2001, mudou na história do mundo – habituado aos terroristas europeus, como os do Ira (Exército Revolucionário Irlandês); os Baader-Meinhof, grupo nascido na Alemanha (liderados inicialmente por Andreas Baader (1943-1977), oriundo do movimento estudantil, Ulrike Meinhoff (1934-1976), jornalista e activista política, e Gudrun Ensslin (1940-1977), doutora em Filosofia.

Os três foram assassinados nas prisões onde cumpriam as suas penas, provavelmente por polícias, apesar de o governo alemão ter alegado que “os prisioneiros cometeram suicídio”); a Eta (Pátria Basca e Liberdade), de Espanha; as Brigadas Vermelhas, italianas; o grupo Annababi, que funcionava na Suíça em parceria com a organização anarquista AKO (Anarchistische Kampf-organization), fundada por jovens suíços em 1970… Entre outros assassinos que serviram, numa bandeja enfeitada, tantas gloriosas vitórias à extrema direita envergando a capa rota de super-heróis de extrema esquerda.

Li, há tempos, uma frase que me inquietou (proferida por Adam Lockyer, professor universitário, especialista em segurança internacional, inteligência e contra terrorismo): “Os meios de comunicação são o oxigénio do terrorismo. Sem eles, os terroristas seriam sufocados e morreriam”

Por isso, cabe-nos contrariar a tendência. Distinguir criminosos comuns e denunciá-los. Tirar-lhes o oxigénio – à nossa maneira.

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