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Domingo, Outubro 24, 2021

Em Django Livre Tarantino conseguiu traduzir para o cinema o espírito da escravidão

Carolina Maria Ruy, em São Paulo
Pesquisadora, coordenadora do Centro de Memória Sindical e jornalista do site Radio Peão Brasil. Escreveu o livro "O mundo do trabalho no cinema", editou o livro de fotos "Arte de Rua" e, em 2017, a revista sobre os 100 anos da Greve Geral de 1917

Quentin Tarantino acertou em usar o faroeste para mexer com o imaginário e com a consciência americana. E ele foi longe buscando atores clássicos do gênero, como Franco Nero, a preciosa contribuição musical de Ennio Morricone e colocando o mocinho de Hollywood no papel de um terrível vilão, como Sergio Leone fez em Era Uma Vez no Oeste (1968).

Tarantino, ao que parece, entrou no rol das vinganças históricas. Depois do despeitado deboche com que tratou o nazismo de Adolf Hitler, talvez o maior crápula que a humanidade já criou, em Bastardos Inglórios (2009), em seu novo filme Django Livre, que se passa em 1858, dois anos antes da Guerra Civil nos EUA, ele esfrega na cara da sociedade estadunidense as aberrações que alcançaram a escravidão naquele país.

No Mississippi a exploração do trabalho escravo e a discriminação racial atingiram níveis escandalosos. Estado historicamente marcado por propriedades extensivas de terras, pelo grande contingente de negros, levados no contexto da colonização, e pela desigualdade social, o Mississippi é o maior (e pior) exemplo de apartheid dos EUA.

Mas, mais do que uma denúncia, a intenção do filme é expor o ridículo, absurdo e a falta de cabimento do fato de algumas pessoas (de origem branca e europeia) disporem de outras (negras e de origem africana) como bem quiserem, como se fossem coisas (e não pessoas) e, ainda, como se apenas o trabalho forçado não fosse o suficiente, descontando nelas seus ódios e rancores mal resolvidos.

Como Tarantino não é um cineasta dado a sutilezas, sua “crítica” ao trabalho escravo é curta e grossa. Quando os protagonistas chegam ao Mississippi, por exemplo, para que ninguém se engane sobre o que se está falando, o nome do estado perpassa a tela em letras garrafais.

E o filme segue assim: inteligente e bem-humorado, mas não polido.

Recheado de violência e sadismo, em muitos momentos de seus 165 minutos o telespectador é levado a se encolher na cadeira e, os mais sensíveis, a fechar os olhos. Não são as cenas de tiroteio, com mortos caindo por todo canto da tela, as que mais incomodam. Cenas pontuais, que envolvem crueldade e medo, e que mexem com nossos valores, são as que dão náuseas e arrepios. Com isto Tarantino conseguiu traduzir para o cinema o espírito da escravidão.

O cineasta acertou em usar o faroeste para mexer com o imaginário e com a consciência americana. E ele foi longe buscando atores clássicos do gênero, como Franco Nero (que fez o Django original), a preciosa contribuição musical de Ennio Morricone (autor de conhecidas trilhas sonoras dos western spaghetti) e colocando o mocinho de Hollywood no papel de um terrível vilão, como Sergio Leone fez em Era Uma Vez no Oeste (1968).

Django Livre (Django Unchained)

EUA, 2012

Direção: Quentin Tarantino
Elenco: Christoph Waltz, Don Johnson, Franco Nero, Jamie Foxx, Leonardo DiCaprio e Samuel L. Jackson


Texto em português do Brasil

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