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João de Sousa

Segunda-feira, Dezembro 6, 2021

Emicida, em posição de ativista, faz um excelente filme

Em “Emicida: AmarELO – É Tudo pra Ontem”, Emicida é o narrador da estória que vai se desenvolvendo entre apresentações de músicas e histórias da luta negra pela verdadeira emancipação.

Emicida

Emicida: AmarELO – É Tudo pra Ontem é um excelente filme feito a partir do show que o rapper Emicida (Leandro Roque de Oliveira) apresentou no Teatro Municipal de São Paulo. Sentimos que há bastante diferença entre o show e o filme. Não é questão de qual dos dois é melhor. Cada um é um.

Confesso que conheço muito pouco da música de Emicida. Mas o que vi agora no filme, que foi produzido pela Netflix e está sendo exibido lá, me agradou bastante. O filme foi dirigido por Fred Ouro Preto e produzido por Evandro Fióti. Não conheço nenhum dos dois. O que vi, porém, me mostrou a competência deles. Conseguiram elaborar um excelente show cinematográfico sem realmente simplesmente documentar o que foi apresentado no Municipal. Eles, certamente, com total participação do Emicida, criaram então um novo trabalho. Emicida é o narrador da estória que vai se desenvolvendo entre apresentações de músicas e histórias da luta negra pela verdadeira emancipação. Há momentos que são apresentados dentro do show no palco. E outros são criados na parte cinematográfica. São referidos Abdias do Nascimento, o baterista Wilson das Neves, Ruth de Souza e muita gente mais.

Há uma participação da atriz Fernanda Montenegro – Emicida diz que gostaria de tê-la numa presença com Ruth de Souza. Como isso não pôde acontecer devido à morte de Ruth, Fernanda faz uma homenagem declamando um poema. A posição de Emicida é realmente a de um ativista. Inclusive a escolha da apresentação do show no Municipal foi feita como forma de ocupação de um espaço nobre que era/é ocupado quase totalmente pelos brancos. Afinal, temos um documentário fundamental sobre uma tomada de visão da cultura negra. Vejam.

(Olinda, 24. 12. 2020)


 

Cinema Pernambucano em Curso

O crítico e professor Luiz Joaquim começou na quinta-feira, 7 de janeiro, um curso em que irá abordar o Cinema Pernambucano, desde os filmes mudos dos anos 30 até o filme Bacurau, dos dias atuais. As aulas acontecem em sete quintas-feiras e têm o apoio da Lei Aldir Blanc. Luiz Joaquim tem experiência de ensino e é o coordenador do setor de audiovisual de uma faculdade aqui de Olinda. Certamente, teremos análises objetivas para explicar a quarenta alunos ao vivo o quê e como tem acontecido o cinema nas terras pernambucanas.

(Olinda, 6. 1. 21)


 

Norwegian Wood, de Haruki Murakami

O título é uma referência à música dos Beatles, mas é um dos primeiros romances do japonês Murakami, que conseguiu fazer bastante sucesso popular. Eu o reli nos últimos dias de 2020, provocado por uma questão sobre se Watanabe ficara ou ficou com Miori como companheiros permanentes. É uma questão talvez indisponível para resposta, pois todos os personagens do romance Norwegian Wood são pessoas que não chegam a uma realização integral.

Os principais personagens são jovens de 17 a 21 anos e o único mais velho, que é Reiko Ishida, tem perto de 50 anos. Assim Haruki Murakami se mostra alguém que conhece o seu mundo, isto é, os jovens do Japão. Pelo menos aqueles que não são ‘normais’ e se destacam de alguma maneira. Murakami procura sempre nos seus escritos deixar claro que não é mais do que a normalidade. É apenas alguém que escreve romances.

Esse romance Norwegian Wood tem uma parte que vai até o suicídio de Kizuki, e nessa o relato é em cima da amizade extrema de Watanabe pelo casal Naoko e Kizuki. Pelo que se informa, todos os acontecimentos daí são em cima da própria vida de Murakami. Ele utiliza sua própria vida como elementos para a escrita. É escrevendo cartas para Naoko que ele aprende a escrever romances.

São duas partes. E na primeira temos uma excelente trama mostrando o quanto os jovens sofrem com suas frustrações. Ninguém consegue se integrar. E chega ao ponto de Kizuki se suicidar quando ninguém pensaria nisso. A trama maior fica sendo o drama entre Naoko e Watanabe. Depois do suicídio, temos uma narrativa que a cada três ou quatro páginas tem a estória de uma “relação” com muitos detalhes. Mas ao mesmo tempo o sentimento de frustração ainda é total.

Haruki Murakami é um best-seller famoso no mundo literário. Mas não quer dizer que seus romances sejam superficiais. Esse mesmo, Norwegian Wood, que é um dos primeiros escrito por ele, já mostra um senso de profundidade. Quem narra é alguém que conhece o ser humano em profundidade. E mesmo que ele mostre um Japão extremamente invadido pela música ocidental – todas as músicas citadas são de autores norte-americanos ou ingleses ou brasileiros e só tem um japonês – mostra pessoas com alma nipônica, na forma de se comportar e de aceitar as exigências dos outros seres.


por Celso Marconi, Crítico de cinema mais longevo em atividade no Brasil. Referência para os estudantes do Recife na ditadura e para o cinema Super-8  |   Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 

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