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Sexta-feira, Outubro 22, 2021

Eu não andei enganado e aqueles que respeito também não

Carlos de Matos Gomes
Militar, investigador de história contemporânea, escritor com o pseudónimo Carlos Vale Ferraz

A propósito do lava-mãos do presidente da República nas toalhas e águas da “declaração de estado de emergência”. Vivemos tempos de aspergir responsabilidades. Mas não são os que trouxeram até aqui a minha geração. Curiosamente a mais vulnerável ao mal de que nos querem salvar. Eu prefiro a dignidade de ser como sempre fui.

Fui comandante de tropas em combate e em insubordinação. Conheci alguns dos melhores comandantes que Portugal teve durante a segunda metade do século XX. Comandantes nas situações mais criticas. O escritor António Lobo Antunes titulou um dos seus romances exatamente: “O que farei quando tudo arde?” Retirado de um poema de Sá de Miranda.

Essa é a pergunta para a qual, têm de encontrar respostas os chefes, os comandantes, aqueles a quem as circunstâncias históricas colocaram no centro de uma ação decisiva para aqueles a quem calhou dirigirem. São essas respostas que definem o caráter desses homens. Eu e os meus camaradas – aos vinte anos – sabíamos e soubemos o que fazer quando tudo ardia. Arcámos com as nossas responsabilidades. Pagámos por sermos nelas implicados, como diria o Salgueiro Maia.

Eu e os melhores dos meus camaradas demos sempre uma resposta e assumimos as responsabilidade cada uma delas. Na guerra, no fim da guerra, na construção de um novo regime, nenhum de nós necessitou de um decreto, nem de uma reunião do Conselho de Estado, nem de um concerto de violino, nem de uma apólice de seguro, nem de uma oração, nem de uma palmada nas costas para fazermos o que fizemos. Nenhum de nós exigiu um estado de emergência para ir combater ao estrangeiro, para voar sobre território para lá das fronteiras e enfrentar misseis ou antiaéreas, para navegar em águas traiçoeiras, para falar com os “inimigos” (como fizeram os capitães do MFA quando se ligaram com a Frelimo para evitar a continuação das ações de guerra em Moçambique, por exemplo).

O Fernando Salgueiro Maia não necessitou de uma declaração de estado emergência para vir de Santarém a Lisboa, nem, já agora, o general Costa Gomes necessitou do estado de emergência para negociar uma aliança com Savimbi, nem Mário Soares necessitou do estado de emergência para assumir a responsabilidade da adesão de Portugal à CEE… Não foi necessário o estado de emergência para acabar com a incipiente reforma agrária, nem para privatizar a banca e mandar vir os banqueiros (os beneméritos a quem pagamos os fundos de capitalização e os prémios de gestão), nem para estabelecer as PPP, nem para privatizar a rede de produção e distribuição de energia, nem para a venda da rede de telecomunicações, por exemplo.

Quando um comandante de um navio recebe o comando, recebe-o para navegar em situações de tempestade. Para navegar em mar de azeite basta o grumete do leme. Um comandante de um navio, de uma aeronave, de uma unidade de combate recebe uma “carta patente” para decidir em situações de emergência. Por isso havia, antigamente, Tribunais Marciais. Um comandante, como um presidente da república não é um funcionário administrativo. Não é um “moina” que patrulha a rua em situações normais. É aquele que, por inerência de funções, assume responsabilidades, decide e se sujeita ao julgamento das suas decisões.

Eu não me arrependo de ter tomado decisões. Mas entristeço-me de ter alguém que, em meu nome, e por força da Constituição que me rege e para a qual dei um modestíssimo contributo, seja um tíbio! A minha avó, que aos 18 anos atravessou a América no início do século XX, para ir ao encontro do seu marido e construírem um rancho no vale de São Joaquim, na Califórnia, designava estes tipos na sua língua em que misturava o inglês e o português como “trampas”, (era, além do mais, uma antecipadora), uns merdas. Um dos meus amigos, capitão de cavalaria, que morreu em combate na Guiné, quando nos encontrávamos em Santarém, na Escola de Cavalaria, colocou a questão ao seu primeiro-sargento, quando este lhe veio colocar mais um problema: “Ó Sousa, afinal você responde pelo esquadrão, ou pergunta pelo esquadrão?”

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, também hoje, mais uma vez perguntou pelo país em vez de responder ao país. Não passou de um esforçado primeiro-sargento que se coloca no seu papel de não decisor, de cumprir as suas tarefas para que os comandantes possam tomar decisões.

Eu e os meus amigos, aqueles que respeito e com os quais podia fazer uma grande lista, não necessitámos de declaração de estado de emergência para fazer o que entendíamos devíamos fazer e que fizemos.

Os fracos chefes fracas fazem as fortes gentes. Foi o caso. E este episódio de hoje entristece-me. Não me arrependo do que fiz. Nunca me escondi nem esconderia atrás de uma declaração de estado de emergência, nunca repartiria responsabilidades com um conselho. Nunca viria, por fim justificar a minha fraqueza com um discurso de “é para vosso bem”!

Não é.


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


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