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Segunda-feira, Setembro 20, 2021

“Estamos com medo de todos”

Christiane Brito, em São Paulo
Jornalista, escritora e eterna militante pelos direitos humanos; criou a “Biografia do Idoso” contra o ageísmo.  É adepta do Hip-Hop (Rap) como legítima e uma das mais belas expressões culturais da resistência dos povos.

Na música citada, Lennon, eterno militante da paz, chama atenção para o medo irracional que leva ao isolamento do indivíduo e à militarização da sociedade. A tal ponto que toda violência policial se justifica.

Christiane de BritoNeste sábado (16), o funcionário de shopping, Roberto Prado Ribeiro (36 anos), morreu depois de ter sido baleado no rosto por um policial militar na quarta-feira (13). O militar queria sair do estabelecimento comercial, localizado na zona norte do Rio de Janeiro, sem pagar o estacionamento. A vítima foi atacada pelas costas, segundo mostrou o vídeo de segurança.

Não é um caso isolado e reflete o Brasil atual — mais paranoico e com preconceito de classe exacerbado como nunca — em que Educação, Cultura e Saúde estão relegadas a um segundo plano, enquanto o investimento em segurança pública é redobrado.

A imprensa não noticia:

Examinei os números que os jornais nunca divulgam. Em Segurança, gastaremos (em 2016) oito vezes mais que em Metrô. Só em cadeias, cinco vezes mais que em Cultura”, conta Raquel Rolnik, arquiteta e professora, em seu blog.

Rolnik argumenta que o orçamento público geral, no Estado de São Paulo, é praticamente o mesmo de 2015. A mudança de prioridades, no entanto, é desestabilizadora:

A crise das escolas públicas, onde faltam condições básicas para um ensino-aprendizagem de qualidade, e das universidades públicas estaduais, onde muitos funcionários, estudantes e professores estão em greve; o lentíssimo ritmo de expansão da rede de transporte coletivo de massas, que faz com que os sistemas do Metrô e da CPTM operem com muitos problemas de superlotação e desconforto para os usuários, sem contar o alto custo da tarifa; a grave crise habitacional que atinge especialmente a população mais pobre são apenas alguns exemplos que mostram os efeitos das escolhas de prioridade do governo. Mais do que nunca, em momentos de crise, é necessário discutirmos abertamente a priorização dos gastos públicos”, explica Rolnik.

A questão da segurança pública é muito complexa, porque — insuflada pela imprensa — a população brasileira está demandando mais policiamento e punição.

Medo

Não raro, escuto os nostálgicos da “ditadura militar” elogiarem a “ordem” vigente no regime.

Não era ordem, era repressão. Não era proteção do povo contra a violência dos bandidos, como não é o caso agora.

Neste mesmo sábado (16), uma operação militar na chamada Linha Vermelha, rota do aeroporto para o centro do Rio de Janeiro, gerou o pânico na via. As pessoas abandonaram os carros para se protegerem de tiros, que os policiais negaram ter ocorrido. Disseram que apenas invadiram comunidades para investigação.

O aumento do policiamento é preocupante, especialmente porque, além de facilitar confrontos crescentes como esse, entre policiais e “bandidos” (no qual muitos inocentes perdem a vida) e a violência policial contra a população mais pobre, facilita a repressão da insatisfação popular nas ruas, acirrada pela precarização dos serviços públicos e pelo retrocesso nos direitos sociais.

Não basta colocar o interino Michel Temer para fora do governo. Nem mesmo a saída (ou prisão, duvidosa) do deputado Eduardo Cunha pode reverter o quadro de repressão e corrupção que o brasileiro enfrenta.

Teremos Olimpíadas no Rio de Janeiro, tenho certeza, e será um belo espetáculo porque o brasileiro é excelente anfitrião, não só nos esportes.

Mas tenho dúvidas em relação às eleições de outubro: se o governo (nem sabemos ainda que governo estará no poder, o que é pior) investir na transparência e segurança do processo eleitoral como investe na segurança pública, podemos ter alguma esperança de conhecer os candidatos, formar juízo crítico a respeito e votar para mudar essa situação patética de golpismo e corrupção.

Termino com Lennon, na mesma música, com versos que alertam os agentes da criminalidade ou da injustiça a flagrarem-se como humanos metidos na loucura da barbárie. Ensina:

“Eu não espero que você entenda,

Depois de você ter causado tanta dor,

Mas (sei) que você não é culpado,

Você é apenas humano, (outra) vítima da loucura”

Nota: a autora escreve em português do Brasil

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