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Terça-feira, Novembro 30, 2021

O balanço da CPLP

Delmar Gonçalves, de Moçambique
De Quelimane, República de Moçambique. Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora (CEMD) e Coordenador Literário da Editorial Minerva. Venceu o Prémio de Literatura Juvenil Ferreira de Castro em 1987; o Galardão África Today em 2006; e o Prémio Lusofonia 2017.

“Há flores de todas as espécies que na terra crescem e são vizinhas. Entre elas não há disputas a propósito das cores, do aroma e do gosto; deixam que sobre elas livremente actuem o sol, a chuva, o vento, o calor, o frio; e cada uma cresce consoante a sua essência e consoante as qualidades que lhe são próprias”.
Jacob Boheme

Em primeiro lugar queria relembrar que, são a história comum, o idioma, a cooperação em todos os domínios e a concertação político-diplomática que estão na origem da constituição da comunidade dos países de língua portuguesa. Embora a língua portuguesa por si só seja a grande equação unificadora e catalisadora da utopia do futuro comum na diversidade e no respeito pela soberania de cada um dos estados e povos, no entanto, entendemos que a mesma não se deve limitar a esta questão no que de essencial está definido nos seus estatutos.

Aproveitamos ainda para relembrar como o poeta que “há silêncios que não perdoam àqueles que lhes deram vida/silêncios que enquanto vivos roubam-nos a própria vida/silêncios  tão dolorosos que nenhum outro os silencia.”Lamentamos que neste momento histórico  único se verifique que a sociedade civil pareça anestesiada em relação ao interesse por esta nobre organização.

E a palavra anestesia como sabemos deriva do vocábulo grego “isthesis” para significar a privação total ou parcial da sensibilidade. E diz quem é versado na matéria que a anestesia pode ter origem patológica, como uma pancada ou ainda provocada com finalidade médica.

Por isso vamos citar Hipócrates que disse e bem: “Rio ainda dos homens que rivalizam entre si na perfídia que reveste os seus estratagemas, nos quais o pensamento é tortuoso; para eles as coisas mais perniciosas são uma espécie de virtude…”.

Gostaríamos de construir para este momento tão significativo e simbólico um discurso mais articulado, mais vertebrado sobre o balanço desta grandiosa organização e que é para nós um enorme poema. Mas permitam-nos  irmãos da CPLP que vos digamos termos concluído que se construiu um poema de facto muito belo mas sem trabalho laboratorial digno dos engenheiros “especializados” de todas as áreas possíveis.

É possível construir poesia sem sentimento, sem substância, sem emoções, sem afectos genuínos  e sem vontade? Bastará a máscara da estética para a embelezar? E os alicerces serão suficientemente perfeitos e sólidos?

A CPLP não passa hoje  de mais uma organização de estados divorciados dos seus cidadãos quanto mais não seja, porque estes estão demitidos ou desmotivados de exercer a sua cidadania efectiva e activa. Que comunidade é esta em que os cidadãos não podem circular livremente ou as sem restrições burocráticas habituais? Não temos dúvidas em exigirmos que se criem condições para que os cidadãos possam integrar e fazer parte da construção activa desta comunidade.

Obviamente fruto de compromissos internacionais de âmbito regional e continental, deverá tudo ser feito de forma regulamentada e gradual. Isto significa que poderá iniciar-se o processo através de uma regulação clara que contemple, em primeiro lugar, a livre circulação de determinados grupos profissionais que compõem as nossas sociedades civis sobretudo nas áreas cultural, científica, académica, educativa, desportiva, jornalística, empresarial, policial, judiciária e militar. E mais tarde, caminharmos para uma maior abertura do espaço da comunidade ao cidadão comum; portanto, caríssimos companheiros da CPLP, as nossas preocupações desconfortam- nos porque na verdade procuramos em nós as respostas que só os políticos e diplomatas com responsabilidades na fundação desta comunidade poderiam dar. Sendo certo que não se pode nem se deve transformá-la num espaço apenas político para os políticos ou empresarial para os empresários que regra geral falam e decidem em nosso nome.

E o grande drama é vermo-nos esmagados pela sensação de tempo, hora a hora, minuto a minuto, segundo a segundo. E o pior “inimigo” da CPLP é ela própria, uma vez que até prova em contrário, serve exclusivamente para defender os interesses “políticos” de cada um dos estados membros. Se há diálogo (o que já não é mau), isso não significa que gere consensos e resultados prolíficos. Isto faz-nos lembrar o que disse um antigo ministro moçambicano da cooperação, que dizia com razão que: “ Se ao falarmos a mesma língua nos entendemos, também é verdade que mais facilmente nos  insultamos”.

Transformaram uma ideia excelente e magnânima num caso de quase insignificância no panorama internacional. A nossa comunidade tem um potencial por explorar e que importa, de uma vez por todas traduzi-lo em ganhos para os povos e comunidades que compõem os nossos países e para o conjunto da CPLP. É importante que se criem condições para cumprir o seu papel e que hajam mais meios para atender às crescentes exigências e anseios da sociedade civil. Contrariamente ao que devia suceder, em vários países da comunidade, a maioria dos cidadãos não se sentem nem obrigados, nem motivados nem impelidos a nada, porque não se sentem sujeitos activos das suas sociedades por razões diversas. Não há portanto uma participação cívica activa.

É certo que os estados tem obrigatoriamente que assumir protagonismo maior com as funções que lhe são inerentes pelas leis fundamentais e também pelas estratégias de integração regional e global no panorama político. Não é no entanto viável, existir desenvolvimento de uma consciência colectiva de comunidade enquanto não houver consciencialização dos cidadãos sobre a necessidade de uma maior intercomunicação e cooperação dos diferentes povos de cada país entre si.

Só dessa forma poder-se- ia encontrar um maior consenso e uma maior coesão para formular as propostas que a sociedade civil deveria apresentar aos estados e isso só se consegue com o envolvimento cívico. Sabemos nós “que o poeta regista a fome da letra adicionando suor e labor no edifício da palavra inspirada”. Esperamos pois que este novel e jovem edifício que é a CPLP , que vai ganhando alguma maturidade com  erros de percurso , cresça e se consolide nos alicerces ajudando assim a dar maior consistência, vigor e poder ao enorme templo que será definitivamente realidade consumada. Sem esquecermos, recordando Ascêncio de Freitas que, “Somos os únicos guardiões do nosso querer, aqueles que regam e adubam os erros e as coisas acertadas que praticam”.

Por isso terminamos apelando que nos deixem de injectar doses do passado assim que o presente nos embriaga despertando em nós a miragem dum futuro que já poderia ser realidade.

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