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Domingo, Dezembro 5, 2021

Água contaminada em Flint gera aceso debate entre candidatos democratas

clinton-sanders
Na corrida para as presidenciais, o debate entre os pré-candidatos democratas Bernie Sanders e Hillary Clinton na cidade de Flint, estado do Michigan, foi aceso. A propósito desse debate, e da crise da água contaminada que atingiu a cidade, o site Democracy Now convidou Yvette Clarke, congressista democrata pelo estado de Nova York e apoiante assumida de Clinton, para comentar esse debate.

Recorde-se que, nesse mesmo debate, o senador do Vermont aludiu a um encontro com habitantes de Flint e afirmou ter ficado “literalmente despedaçado (…)com crianças em Flint, Michigan, que no ano de 2016, estão a ser envenenadas”. “Acredito que o governador deste estado devia demitir-se”, acrescentou.

Neste ponto, a ex-primeira-dama dos EUA concordou com o rival e também sublinhou o risco para a saúde pública da água contaminada. “Chove chumbo em Flint”, declarou Clinton.

Sobre as medidas de punição a serem aplicadas aos responsáveis pelo que se passa naquela cidade do Michigan, Clinton disse que enquanto presidente dos EUA, ordenaria uma investigação sobre o que aconteceu, para determinar “quem sabia o quê e quando”, assumindo que deveria haver demissões e acrescentando que Flint não é o único caso onde este tipo de investigações tem de ocorrer.

A candidata à Casa Branca lembrou o caso de Cleveland, onde os níveis de chumbo na população são ainda maiores do que os em Flint. Por sua vez, Bernie Sanders “demitiria qualquer pessoa que soubesse o que se estava a passar e não agisse de forma adequada”. “Como é que isto acontece no mais rico país da história do mundo? Quais são as nossas prioridades, quando, entre outros, os republicanos hoje estão a lutar por isenções de impostos na ordem dos mil milhões de dólares para os mais ricos? Como é que tivemos biliões de dólares para ir para a guerra no Iraque e por algum motivo não temos dinheiro suficiente, não só para Flint (…) o sistema público de ensino em Detroit está a colapsar”, acusou Sanders.

 

Flint: o que exigem os habitantes

Uma cidadã de Flint, cuja própria família foi afectada e teve de se mudar para a Virgínia, questionou os candidatos sobre como se vão comprometer, perante a assistência, para resolver o problema. Sanders prometeu que, caso seja eleito presidente, vai designar responsáveis pelo abastecimento de água capazes de testar todo o sistema dos EUA e que a população terá conhecimento dos resultados de tais testes.

flint“Vamos ter um plano de reconstrução dos sistemas de abastecimento de água neste país que sejam desadequados”, garantiu perante a eleitora. Por sua vez, Clinton foi ainda mais longe: quer um sistema de abastecimento totalmente livre de chumbo, que está não só nos canos, mas nos solos e nas casas mais antigas. Assumiu a promessa de, em cinco anos, retirar todo o chumbo de qualquer lado em que exista.

Yvette Clarke lembra que não foram apenas as crianças a serem afectadas pelo caso da água poluída em Flint. “Não falamos das pessoas com sistemas imunitários comprometidos e quanto isto foi mau para elas. Há preocupações sobre outros agentes contaminantes na água”, acusou a comentadora, que lembrou que para além do chumbo, existem outros agentes poluentes detectados que ainda não foram eliminados na totalidade; esta situação exigiu mudanças drásticas na vida dos habitantes: ou investiram em filtros de água nas habitações, ou passaram a depender da água engarrafada. “E o que vamos fazer com todas aquelas garrafas?”

Recorde-se que a US Environmental Protection Agency estimou que cada norte-americano gaste, por dia, 100 galões de água – o equivalente a 378 litros na medida europeia. Isso traduz-se em quase 757 garrafas de água. A CNN revelou que os cálculos da agência americana incluem os gastos de água nas sanitas, nos duches, na lavagem das mãos e até fugas.

Alguns representantes locais já tinham acusado as autoridades do Michigan de negligenciarem a situação. Em finais de Janeiro, advogados locais disseram que isso se deve ao facto de a cidade ter 57% da população de raça negra e 41,5% de pobres.

Cornell Brooks, líder de uma organização que defende os direitos dos afro-americanos, não tem dúvidas: ”Racismo ambiental+indiferença=chumbo na água e no sangue”, escreveu na sua conta de Twitter.

Por sua vez, o governador daquele estado, Rick Snyder, negou em absoluto tais acusações e assumiu responsabilidade pela crise da água contaminada; afirmou-se “frustrado” pela situação e declarou estar a colaborar com todas as investigações sobre o caso, e que vai “seguir o processo legal apropriado”, numa alusão à intimação judicial que o obrigou a revelar documentos nos anos que antecederam a crise.

Entretanto, uma figura do showbiz dos EUA já declarou o governador como inimigo: o realizador Michael Moore, natural de Flint e polémico pelas suas posições políticas. O autor de “Bowling For Columbine”, “SiCKO” e “Where To Invade Next” foi drástico ao declarar na sua conta de Twitter: “Isto é uma matança racial. Flint tem 60% da população negra. Quanto se envenena com conhecimento de causa uma cidade negra, está-se a cometer uma versão de genocídio”, e termina a exigir a prisão do governador do Michigan.

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