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Quarta-feira, Junho 19, 2024

Evocações açorianas

João Vasconcelos Costa
João Vasconcelos Costa
Investigador e professor universitário (Virologia Molecular), depois dirigente de um instituto de investigação, ensino e cooperação, hoje reformado.

O meu artigo habitual das segundas feiras podia ser hoje, por exemplo, sobre a Catalunha depois das eleições da semana passada. Mas quem é que, neste dia, quer ler política? Já que ontem evoquei o Natal, continuo na mesma onda, mas agora já não sobre o tempo mas sim sobre o lugar: os Açores, mais precisamente S. Miguel, mas com forte influência materna da sua Terceira natal. Açores, açorianidade.O que é a açorianidade? Não consigo defini-la muito bem. Açorianidade não é nacionalidade, ideia peregrina que às vezes vejo escrita. Mas é alguma coisa de inegável, uma diferença enriquecedora da igualdade portuguesa, principalmente porque a distância dá maior resiliência à facilidade para a osmose cultural entre regiões continentais. Recuso esta discussão em termos genéticos, como já tem sido feito. Mas, psicólogo amador, teorizo sempre sobre os efeitos temperamentais de coisas tão simples, que se bebem como o leite materno, tais sejam a luz sempre coada pelas nuvens, uma natureza que se impõe pela religiosidade da sua beleza, também outra religiosidade, a verdadeiramente dita, ancorada em séculos de mistério perante os cataclismos e, essencialmente, numa coisa indizível que é a contradição entre tão pouca terra e tanto mar, entre uma experiência pequena e a adivinha de muitas outras formas de viver, de cultura, para além daquele horizonte limitante.

Tudo isto se aprofunda, afectivamente, quando não se vive a banalidade do quotidiano ilhéu. Não será que o verdadeiro açoriano é o que saiu das ilhas, que muito viveu mas que nunca se sentiu completo na vida distante e que, com o correr dos anos, sente muito fundo o que lhe são de identitários e saudosos aquela terra e aquele mar?

A terra e o mar não têm que ser motivo de orgulho dos açorianos, foram oferta da natureza. Mais importantes são as gentes. Nisto tenho que moderar, racionalmente, o meu entusiasmo. Em relação à minha gente, tenho sempre presentes, como identitários, a etnografia riquíssima, o falar que vem de origens cá perdidas, o teatro medieval e o cancioneiro acompanhado de música magnífica, a religiosidade telúrica dos romeiros, o sempre mantido culto do Espírito Santo e os seus festejos de fraternidade e espírito comunitário ancestral.

Desconfio, honestamente, é da mitificação que faço do homem açoriano, “o maior carácter do mundo”. Não quero que seja como o bolo de chocolate… Quantas vezes invoco o exemplo de Mouzinho da Silveira e dos corvinos que lá cruzaram centenas de milhas de mar perigoso para lhe irem à fala e apresentarem as suas queixas e pretensões, de chapéu na mão mas coluna erecta, com a altivez de quem sabe que não é menor do que os “senhores”? Com isto, motivaram a noite inteira de trabalho de Mouzinho a redigir os decretos de abolição dos direitos senhoriais, impressionado, como revela no seu testamento, pelos melhores homens do mundo. Reconheço aspectos marcantes da cultura e maneira de ser dos açorianos e admiro-me por uma população tão pequena ter dado tanta gente notável à vida cultural e política deste país. Mas os melhores do mundo? Quantas comunidades não dizem o mesmo?

Defendo-me com as estatísticas e apenas com alguns exemplos que me vêm logo à ideia, entre muitos outros. Para população tão reduzida, é excepcional, na nossa história, a proporção de açorianos marcantes, nas viagens quinhentistas por mar e terra – os Corte Reais, Diogo de Teive, Bento de Góis, ou, em viagem mais recente, Roberto Ivens; na crónica – Gaspar Frutuoso, Frei Diogo das Chagas; na literatura – Antero, Nemésio, Teófilo Braga, Natália Correia, João de Melo, Cristóvão Aguiar; nas artes – Francisco Henriques, Canto da Maia, António Dacosta, Domingos Rebelo, Francisco Lacerda; na política – António José de Ávila, Hintze Ribeiro, Teófilo Braga, Manuel de Arriaga (neste caso, notáveis mas não muito recomendáveis). Note-se que estes dois últimos, com o mais obscuro Canto e Castro, conferem aos açorianos uma estatística única: três dos nossos presidentes da república.

Não me fico pelos ilustres. Igual qualidade, igual nobreza, igual carácter se vêem no povo sofredor. Os açorianos eram, e talvez ainda sejam, mau grado o progresso autonómico, “gente feliz com lágrimas”, expressão que eu nunca teria podido inventar. Era o Sr. Manuel, quinteiro da casa onde passávamos o verão, velho magnífico arrimado ao amor, órfão de filhos nunca tidos, da sua Sra. Conceição, velha talvez ainda mais marcante, sabedora da melhor sopa de couves aferventadas que já comi. Que dignidade! Vejo, como se fosse hoje, o Sr. Manuel no seu atavio de tomar a camioneta e desaguar na Matriz. O seu fato, talvez ainda do casamento, castanho às riscas. Camisa e gravata preta, como era regra de elegância dos meus velhos. Todo elegância e solenidade, à sua maneira, mas descalço!

“Gente feliz com lágrimas”, também as vendedeiras de lapas vivas – a melhor forma de as comer – sentadas à porta da taberna, criança ao colo adormecida com um pedaço de pão molhado em vinho, oferta sacramental dos taberneiros. Normalmente, partilha estranha das tarefas familiares. Marido saído toda a noite, faca e cesto, a trepar por rochas, enregelado até à medula dos ossos pelas ondas que já tratava por tu, a descascar as lapas da pedra. Passadas à mulher para as ir vender, ele a aquecer-se com um copo e a meter-se na cama. Às vezes, um pequeno intervalo apressado, a justificar a alta natalidade. Como uma vez disse uma dessas mulheres à minha mãe, propagandista do planeamento familiar, “o que é que a senhora quer, eles vêm tão friinhos do mar!”

“Gente feliz com lágrimas”, também os operários de construção civil que conheci acompanhando as lides do meu pai. Ignorantes e analfabetos, mãos em que os calos não permitiam o meu aperto de mão, mas orgulhosos e solidários, amizades de grupo que se viam na conversa da pausa para almoço, um pão com malagueta, um chicharro em dia melhorado, a inevitável garrafa de vinho de cheiro para acrescentar calorias baratas. Nem um protesto pela dureza do trabalho, na ignorância da solidariedade sindical, antes a alegria da festa final quando, quase concluída a casa, faltando só as telhas, se hasteava no topo a bandeira do Divino Senhor Espírito Santo.

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