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Quinta-feira, Maio 30, 2024

Factores de risco sociais e individuais da covid-19

Arnaldo Xarim
Arnaldo Xarim
Economista

Foram recentemente apresentados em França os resultados de um inquérito, promovido pelo INSERM que teve como objectivo o mapeamento detalhado do estado imunológico da população, mas também o estudo dos efeitos das condições de vida sobre a exposição ao vírus e as da epidemia nas condições de vida da população.

Foram recentemente apresentados em França os resultados de um inquérito, promovido pelo INSERM (Instituto Nacional de Saúde e de Pesquisa Médica, instituição pública criada em 1964 dedicada à pesquisa biológica, médica e de saúde pública que actua sob a direcção dos Ministérios da Saúde e da Pesquisa e Inovação) que teve como objectivo o mapeamento detalhado do estado imunológico da população, mas também o estudo dos efeitos das condições de vida sobre a exposição ao vírus e as da epidemia nas condições de vida da população.

Este trabalho, na prática distribuído em duas fases (a primeira em Abril e a segunda em Maio), veio mostrar a importância das condições sociais na circulação do vírus, incluindo a densidade urbana e o número de pessoas com quem vivemos, que 4,5% dos inquiridos já teriam tido contacto anterior com o vírus (a chamada soroprevalência), que 20% dos participantes com teste positivo não apresentaram quaisquer sintomas (assintomáticos) e uma prevalência de infecção de 11% entre os profissionais de saúde, taxa que era duas vezes mais elevada do que entre outros trabalhadores activos.

Igualmente importante de reter é que a pesquisa mostrou também que a crise sanitária que atravessamos tem acentuado as desigualdades sociais, principalmente em termos de vulnerabilidade profissional e financeira, e que se a adopção de medidas de confinamento contribuiu para reduzir a propagação da epidemia nas regiões mais afectadas, ao nível da evolução da frequência dos sintomas da doença, estas parecem ter sido mais benéficas para os abastados que para as classes trabalhadoras, reforçando assim a disparidade social na área da saúde.

A questão das desigualdades tem que ser analisada sob dois ângulos distintos: por um lado, os factores de potencial exposição ao vírus no local de residência, as condições de habitação ou a necessidade de trabalhar fora de casa e, por outro lado, os efeitos do confinamento nas condições de vida (recurso ao teletrabalho, situação laboral, situação financeira).

Segundo a pesquisa do INSERM, as pessoas que vivem em habitações pequenas ou sobrelotadas têm mais do dobro (2,5 vezes) da probabilidade de contrair a covid-19 e aqueles que vivem em municípios densamente povoados (pelo menos 1.500 habitantes por km2 ou um mínimo de 50.000 habitantes) vêem duplicar a probabilidade de contrair a infecção. Para uma parte da população, a sobrelotação habitacional e a densidade municipal são cumulativas, como é o caso da faixa etária entre os 25 e os 34 anos e a dos trabalhadores não diplomados e dos imigrantes. Estes vivem frequentemente em municípios densamente povoados e em habitações sobrelotadas, enquanto os trabalhadores com menores rendimentos vivem em municípios menos densamente povoados, mas com muito maior frequência em habitações apertadas e estão excluídos dos sistemas de teletrabalho comparativamente com as categorias com rendimentos mais elevados.

O estudo francês revelou que a proporção de pessoas que tiveram que trabalhar continuamente fora de casa foi pouco superior a 30% (igualmente distribuída entre homens e mulheres), que quase 11% dos trabalhadores activos (na faixa etária entre os 18 e os 64 anos) não trabalharam durante o período de confinamento e que a percentagem de jovens entre os 18 e os 24 anos, na mesma situação e no mesmo período, foi de 18%. As desigualdades perante a situação de emprego não se limitaram às diferenças etárias e assim 14% dos trabalhadores não qualificados, contra apenas 5% dos gestores e quadros superiores conheceram o mesmo problema, enquanto apenas 1% da classe trabalhadora se viu abrangida pelo regime de teletrabalho contra os 50% dos executivos que o praticaram.

A análise estendeu-se também à qualidade do emprego e a conclusão é a de que existindo um relaxamento dos vínculos laborais (15% das mulheres e 16% dos homens viram-se colocados numa situação de dispensados enquanto 17% das mulheres e 23% dos homens foram parcialmente dispensados) levando a que mais de 25% da força de trabalho francesa tenha visto a sua situação financeira a deteriorar-se. Tal como já se tinha verificado para os efeitos do confinamento, também aqui os mais afectados foram os jovens cuja relação com o emprego já era frágil antes da crise sanitária, mostrando que a distribuição social das medidas de desemprego técnico ou parcial confirma a realidade das desigualdades sociais pré-existentes, com especial incidência nas profissões mais vulneráveis, como agricultores e trabalhadores agrícolas, operários, a par com os assalariados de baixos rendimentos e os imigrantes.

Deste estudo circunscrito à realidade francesa – que visou a caracterização da epidemia a nível nacional e local, a medição dos efeitos das condições de vida das populações na exposição ao vírus e os da epidemia sobre as condições de vida e incidiu especialmente sobre os efeitos de curto prazo –, seguir-se-á outro mais orientado para os feitos a médio prazo, mas dele podem já retirar-se algumas inferências para outros países ou regiões da UE. Não custa, assim, perceber que os maiores custos (sociais e económicos) da covid-19 recairão sobre os sectores mais pobres e mais frágeis da sociedade e que, como costuma suceder em períodos de crise, voltarão a ser as classes mais altas as que maiores benefícios dela retirarão (como vimos no artigo CAVALGANDO A TEMPESTADE) ou que, no limite, suportarão bem menores sacrifícios.





Na falta de estudo equivalente sobre a realidade nacional, remeto para o que nestas páginas escreveu Eugénio Rosa sobre os «Números da economia» ou sobre a «Economia do medo e suas consequências», sem deixar de recordar realidades como a de que o número de desempregados dispara 45,1% no terceiro trimestre do ano, elevando a taxa de desemprego para os 7,8% (mais 2,2% que no trimestre anterior) e de que também entre nós já se reconhece que os precários pagam a factura do emprego que a pandemia roubou à economia portuguesa.






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