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Sábado, Julho 20, 2024

Fátima Lugar Sagrado Global

Alexandre Honrado
Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

Pois não é apenas mais um livro sobre Fátima
Cada homem é um não lugar – leia-se por exemplo Marc Augé e a definição do que é isso mesmo, o Não Lugar – se nele não se produz um preenchimento da dimensão do humano.

Um homem é um não lugar se for apenas o invólucro de si, uma zona não habitada, ou melhor, se se confinar a ser habitante dos seus hábitos, carente de interrogações, de estruturas de crença – não, não falo de religiões –,  de um lado que pode consolidá-lo acima do mero objeto ou de uma composição orgânica desestruturada e sem sentido.

Note-se a dimensão tríplice: nascemos “coisa”, ADN complexo, sangue a correr, milhões de pequenas células a reconhecerem-se, órgãos não necessariamente no devido lugar.

Sem a dimensão do segundo nível, sem a composição do intelecto, não seríamos mais do que isso: peças em encaixe, matéria viva. O que nos distancia do irracional – e até o inorgânico – é a miríade composta dos saberes: hoje uma palavra, amanhã uma frase, depois de amanhã, em casos raros, a descoberta da radioatividade ou das ondas gravitacionais, do micro-ondas ou da cura da doença de Machado-Joseph. Mas a estes dois níveis, há um terceiro onde não nos explicamos mas transcendemos: o da espiritualidade. As explicações do significado da vida, a leitura do intangível, a capacidade de acreditar no invisível – seja ar, bactéria, nano-tecnológico artefacto, uma ideia, um deus, um trovão inesperado.

Cada homem possui uma dimensão oculta – leia-se Edward Hall, A Dimensão Oculta –; cada um de nós serve-se dela, dessa capacidade ancestral que nos defende, quando mantemos certas distâncias de outras pessoas ou de objetos sem um motivo aparente, apenas por qualquer estranho conforto. Espaço invisível que constitui o ‘território’ de cada pessoa e que é, afinal, uma das principais dimensões da sociedade moderna.

O que o homem faz do espaço pode afetar relações pessoais e profissionais, interações transculturais, arquitetura, planeamento urbano e renovação de cidades e está também na disponibilidade do terceiro anel do círculo tríplice onde nos disponibilizamos para o espiritual: acreditando numa visão apenas nossa; cultivando um ateísmo que nos preencha; respeitando o que sentimos como nosso, mesmo que mais ninguém o respeite.

Um livro para sentir

Os historiadores José Eduardo Franco e Bruno Cardoso Reis fizeram-me pensar nisto. Aliás, há um par de dias, disse-o ao José Eduardo num dos nossos encontros que, para mim, são sempre inesquecíveis.

Eduardo Franco e Cardoso Reis, em tempos recorde, pois vem aí o Papa e o centenário das visões dos pastorinhos evoca-se a 13 de Maio, resolveram oferecer-nos uma aparição de Fátima, em livro, repositório de acontecimentos de uma terra de múltiplas visões, num trabalho de minúcia que, mesmo que alguns venham a dizer incompleto, nos completa intelectualmente.

Acredito eu que o Lugar é o do entendimento do antropólogo Marc Augé e, sem um lugar, o lugar que é o homem não se entende. No mundo, casa comum, é um direito – divino? – que devíamos reclamar: a cada um o seu lugar. E Sagrado! Do latim sacratu, isto é, que merece respeito – e em sentido lato a veneração, normalmente por relacionar-se com uma divindade ou com objetos considerados divinos. A capa é o traço de união do título, belo contraluz captado por Bernardes Franco.

«Fátima – Lugar Sagrado Global»
José Eduardo Franco | Bruno Cardoso Reis
Círculo de Leitores
Lisboa 2017

Finalmente Global – um conceito que a Cultura e o seu estudo, em especial quando procura refletir sobre (essa tão ambígua e difícil noção da) Diversidade Cultural (arena de combate de ideologia e utopias) procura adquirir como discurso: as ideologias de pluralismo e multiculturalismo tendem a ver-nos como cidadãos de um único mundo, um único Globo, unidos pelos mesmos receios, anseios, qualidades e defeitos. O Universal à escala do Globo, o global, onde, se formos a ver bem, só a pizza é comum a mais habitantes – e mesmo assim os que passam fome não a conhecem, o que torna o raciocínio muito restrito.

O livro de Eduardo Franco e de Cardoso Reis tem a polémica instalada a partir do título – e no tema. É que cem anos depois Fátima continua a mesma dúvida. Mas é verdade também que oferece uma nova aceitação: pelo respeito da liberdade religiosa, das crenças e ideias de cada um, Fátima é um ponto confluente de interpretações, discordâncias, isto é, entreposto vivo do sentir.

A Democracia deu à Fátima fenomenológica a dimensão certa: permitiu-lhe a paz de vivenciá-la, a tolerância em torno do que dela se pode conflituar, a vida própria e dimensionada,  a aceitação das suas contradições, tudo o que é apenas possível em liberdade, consagrando-se nela as liberdades – de culto, de opinião, de crítica, de interpretação.

Riquíssimo, na ilustração, e sapiente, no texto, mesmo em tempo rápido de execução – a que a equipa editorial (coordenada por Guilhermina Gomes, Editora com letra grande), correspondeu com o acerto de sempre, que fez do Círculo de Leitores referência de trabalho –, o livro Fátima Lugar Sagrado Global vence pelo ineditismo de algumas fotos, pela escolha de muitas outras, menos raras, que as acompanham, pelo sossegado acerto histórico em que se conta uma história antiga de cem anos que tem lugar de peso na História de Portugal e, depois dos anos 50 do século passado, em muitos pontos do mundo, com uma forma de erudição atualizada.

É um livro de curiosidades, também; e de uma curiosa idade centenária que merece que nos detenhamos longamente em cada página. Livro para crer e para descrer. Para entender que o homem não é só corpo e pensamento: é também uma dimensão do inexplicável que, através de eruditos como Eduardo Franco e Cardoso Reis, ou sensitivos como os mais anónimos peregrinos, teima em querer explicar-se.

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90

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